Celina da Piedade

© Rita Carmo

Música, compositora e investigadora, Celina da Piedade construiu um percurso profundamente enraizado no património musical português. Licenciada em Património Cultural e atualmente Mestranda em Etnomusicologia, é acordeonista e cantora, dedicando-se de forma ativa ao estudo, à formação e à divulgação do Cante Alentejano e do Movimento Folk em Portugal. Integra a equipa de investigação do INET-md (Instituto de Etnomusicologia – música e dança), é Presidente Honorária da Associação PédeXumbo e membro da direção da Cooperativa Cultural Chão Nosso.
Enquanto criadora, desenvolve o projeto musical que assina com o seu nome — Celina da Piedade — já com quatro discos editados, e participa no coletivo Tais Quais. Desde 2000, colabora com Rodrigo Leão como compositora e integrante do seu ensemble. Soma mais de uma centena de participações discográficas com diversos artistas, além de contributos para bandas sonoras de cinema, teatro e dança.

O acordeão entrou na sua vida muito cedo. Lembra-se do momento em que percebeu que este seria “o seu” instrumento?

Antes de mais, agradeço muito o convite para esta conversa e mando um abraço a todos os leitores da Descendências Magazine!
O acordeão entrou tão cedo na minha vida que já não tenho memórias claras do momento certo em que tive a certeza que seria o meu instrumento, mas sei que isso aconteceu e continua a ser a minha vida! Os meus pais contavam que eu ainda não falava e já ficava muito emocionada sempre que ouvia alguém tocar. Aos três anos ofereceram-me um acordeão, aos cinco comecei a ter aulas e aos seis fiz a minha primeira apresentação ao vivo, no palco de uma festa em Castro Verde!

A sua ligação ao Alentejo é profunda e constante. Como é que essa paisagem humana e sonora molda a sua identidade artística?

O Alentejo é a minha terra-mãe, é onde tenho grande parte das minhas raízes e onde tenho criado ao largo da vida novos laços que sei serem inquebráveis! É o meu ponto de partida para o mundo e sempre o do regresso a casa.
Foi na música do Alentejo que encontrei a minha voz e na cultura desta terra uma missão. Tem marcado profundamente o meu trabalho como música, como investigadora e a minha identidade, embora os meus horizontes procurem sempre ir mais além, abarcar sempre toda a diversidade e riqueza artística que me for possível!

© Rita Carmo

Tem colaborado com muitos artistas e projetos diferentes. O que procura numa colaboração para que ela faça sentido?

Eu sou uma pessoa de afetos e gosto de me guiar pelo meu instinto! Seria para mim muito difícil colaborar com alguém de quem não gostasse de verdade, muito para além das questões artísticas ou de estéticas musicais! Ou seja, para mim é sobretudo importante que aqueles com quem faço parcerias sejam boas pessoas, partilhem dos mesmo valores humanos que eu. É algo que já vem de casa, venho de uma família que ensinou o valor da empatia, da partilha, da generosidade. E revalidei esta minha maneira de ser ao lado de artistas que também têm este espírito, nomeadamente de Rodrigo Leão, com quem já toco há 25 anos, e que me ensinou que mais do que colegas de estúdio e de palco, temos de ser amigos e cultivar essas amizades com carinho, respeito e verdadeiro amor. Só assim vale a pena fazer arte!

Como compositora, tem uma escrita muito visual e emocional. Como é que normalmente nasce uma canção sua?

Não tenho nenhum método em particular e não posso dizer que componha com muita frequência. Geralmente a ideia de criar algo nasce primeiro, ou seja, tenho uma semente e vou à procura da melhor forma de a fazer vingar! Mas acontece também estar só a brincar com as melodias e de repente começa a emergir algo concreto, a assomar-se uma música, um tema instrumental ou até mesmo uma canção. Quanto às letras que escrevo, têm quase sempre um carácter confessional, e penso que as uso como catarse, uma espécie de terapia – e curiosamente é também esse o tipo de canções que mais gosto de ouvir, já para não falar da literatura – gosto de ler livros de memórias, diários, histórias contadas na primeira pessoa…

© Rita Carmo

O cante alentejano é Património da Humanidade. Como vive a responsabilidade de o integrar e reinterpretar no seu trabalho?

Quando comecei a trabalhar mais a sério com o Cancioneiro Alentejano, no ano 2000 (com o projeto “Modas à Margem do Tempo”, em Évora), ainda estávamos a catorze anos de saber que o Cante integraria a lista do Património Imaterial da Humanidade da UNESCO. Tem sido um caminho muito curioso e interessante, porque muita coisa mudou, entretanto, quer na dinâmica de quem faz o Cante, quer na forma como os alentejanos – e o público em geral- olham para esta prática musical, e quer na forma como as entidades públicas e privadas lidam com ele. A minha posição acaba por ser ainda mais delicada por ser mulher num meio que, pelo menos em termos artísticos, continua a ser esmagadoramente dominado por homens. E apesar dos Grupos Corais Femininos serem uma realidade desde 1979, e estarem num momento de grande vitalidade, para fora do Alentejo continua a ser vertida uma imagem muito masculina do Cante, algo que tento inverter sempre que tenho oportunidade!

O palco é um espaço muito seu. O que mais a transforma quando está a atuar ao vivo?

É sem dúvida o público! É muito importante comunicar com quem está na plateia, criar um laço, que espero que depois perdure quando quem me ouviu volta para casa, para a sua vida real. No palco entrego a minha música mas também entrego quem sou, é um momento de verdadeiro encontro com quem ali está, não concebo fazer um espetáculo sem haver espaço para essa entrega, essa troca. É ali que percebo normalmente que vale a pena continuar a fazer música! Leio-o nos sorrisos, nas vozes que cantam comigo, nos rostos emocionados… e fico de alma cheia! Tenho também a sorte de ter músicos a acompanhar-me que partilham desta minha maneira de estar na música, que também dão tudo de si em palco, e que tornam tudo muito mais bonito e perfeito.

Tem um percurso ligado também à investigação e recolha musical. Que descobertas a marcaram mais nesse processo?

Trabalhar com música tradicional em vertentes muito diferentes – desde a matriz rural ao folk rock, passando pelas mais diversas experiências criativas e também sociais- trouxe-me a curiosidade de tentar perceber o que atrai gente tão diversa a estas práticas, em pleno século XXI. Porque não basta só saber que música se fazia no passado, interessa também saber o que faremos com ela agora, o que é necessário para a sua salvaguarda, para que não caia no esquecimento voraz destes tempos, e também como podemos mostrá-la ao mundo. Tentar resgatar temas “em vias de extinção” e transformá-los à minha maneira tem sido uma das minhas principais missões como música, e tem sido tão gratificante, uma via tão feliz, que só tenho a agradecer pela existência destes cancioneiros!

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Como é que o acordeão continua a desafiá‑la depois de tantos anos de prática e dedicação?

O acordeão é desde sempre a minha companhia, uma extensão de mim própria, e tenho com ele uma relação muito sadia. Não brigamos, não ficamos um contra o outro. Um dos motivos pelo qual decidi passar a tocar acordeões mais pequenos e leves foi esse mesmo: não queria sentir que o meu instrumento me maltratava com o seu peso, que me dificultava a vida – que eu queria agitada e livre! Tive a sorte de encontrar os acordeões da Saltarelle (fábrica francesa, situada em Chenove), que têm uma sonoridade magnifica e que têm uma gama que são os peso-pluma dos cromáticos, e desde 2000 que só me dão alegrias e um som que passou a ser só meu!
Ainda assim, talvez o maior desafio que encontro na minha vida como música seja o da composição, da criação de algo novo a partir do zero, e como o faço sempre ao acordeão, é com ele que converso e chego ao que procuro.

Pode-nos revelar alguns dos seus projetos para 2026?

Para 2026 tenho o plano de gravar o meu próximo disco e lançar alguns singles para o ir dando a conhecer! Irei com certeza também continuar a levar a cabo projetos nos quais tenho investido muito, na área da salvaguarda e divulgação do Cante Alentejano: as Rodas de Cante, oficinas, encontros para cantar em comunidade, palestras, ensaios com Grupos Corais…
E claro, espero tocar muito ao vivo, por Portugal e fora dele também! Tenho tido a oportunidade de conhecer algumas comunidades de emigrantes portugueses pelo mundo e é sempre muito emocionante perceber como valorizam e sabem apreciar a sua cultura de origem. É um gesto de resistência e de puro amor que vale muito! Como costumo dizer… convidem-me, que eu vou!

© Rita Carmo

Uma mensagem para todos os autores, criadores e artistas do mundo.

Num mundo tão fragmentado e polarizado como aquele em que vivemos atualmente, a Arte tem de desempenhar um papel conciliador, de criar conexões, promover o entendimento e o diálogo, e acima de tudo, fomentar a Paz. Há uma frase que diz “Sem arte morre-se de realidade”… Quem cria – e também quem interpreta essas criações – deve tomar consciência que o seu contributo é essencial para o equilíbrio do mundo, para aliviar o peso da existência e para criar pontes onde antes só existiam muros e abismos. Sejamos essa força!

Celina da Piedade - Acredito (videoclip oficial)

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