Paula Berteotti

Paula Berteotti é uma artista cuja obra nasce do encontro entre memórias, territórios e identidades. Nascida em Angola e criada em Portugal, cresceu entre duas geografias culturais que moldaram profundamente o seu olhar e a sua sensibilidade artística. Desde cedo demonstrou um talento natural para o desenho, a pintura e a escultura, talento esse que viria a ser lapidado através de formação em pintura e de uma prática constante e intuitiva. Trabalhando com materiais diversos, como óleo e acrílico sobre tela ou esculturas em papier-mâché estruturadas com arame, Paula move-se entre o abstrato e o figurativo com uma liberdade criativa que considera essencial ao seu processo.
Com várias exposições individuais e coletivas no seu percurso, além de participações em projetos editoriais, Paula Berteotti afirma-se como uma voz artística contemporânea que transforma experiência, memória e imaginação em matéria visual.
A sua ligação às artes começou muito cedo. Que memórias guarda da infância em Angola e de que forma essas vivências influenciaram o seu imaginário artístico?
Desde criança que sempre gostei muito de pintar os cadernos e os livros, então a minha mãe fartava-se de me chamar à atenção. Sempre tive uma ligação muito forte à cor. Mas o que mais me marcou na infância foi assistir aos corsos carnavalescos: aquelas figuras mascaradas, por vezes grotescas que dançavam e escondiam os seus rostos atrás das máscaras tradicionais. Era um misto de medo e fascínio, um medo quase acutilante, mas ao mesmo tempo irresistível. Hoje, percebo que essa memória ficou muito presente e acaba por surgir na minha arte sobretudo nessa dimensão mais mística e simbólica.
Quando percebeu que a arte seria mais do que um interesse e passaria a ser uma forma de vida?
A verdade é que devido à minha fuga de Angola ainda criança, fruto da guerra que se instalou no país, durante muitos anos não me foi possível explorar essa vertente. Os meus pais não tinham recursos e, nessa altura as prioridades eram outras. Ainda assim, essa paixão manteve-se adormecida dentro de mim. Mais tarde quando a minha vida se tornou mais estável, voltei a dedicar-me às artes, inicialmente numa vertente mais decorativa. Com o tempo, fui explorando as tintas, os diferentes materiais e texturas, onde acabei por me ir aperfeiçoando através de aulas em ateliês e formação em pintura. Foi um crescimento gradual, mas sustentado, que me levou a perceber que a arte seria mais do que um interesse, seria uma forma de vida.

Pode descrever o seu processo criativo — desde a ideia inicial até a peça final — e como lida com a espontaneidade durante esse percurso?
O meu processo criativo começa geralmente com uma imagem ou algo que me desperta o olhar, uma ideia inicial que vou visualizando mentalmente. A partir daí procuro perceber como essa ideia se pode transformar numa peça artística. Depois entro numa fase mais prática, a escolha dos materiais e a definição do suporte, seja pintura, escultura ou desenho. No entanto, raramente a peça final corresponde exatamente à ideia inicial. Ao longo do processo há sempre espaço para a espontaneidade e para a mudança. Vou alterando, acrescentando, retirando, até que o resultado faça sentido para mim. E é precisamente nessa transformação cujo percurso não é linear que torna a arte sublime e tão fascinante. O momento em que sinto que a peça está concluída é muito intuitivo e traz-me uma sensação de satisfação e realização.
As suas esculturas em papier-mâché têm uma presença muito particular. O que a atrai neste material e no processo de construção com arame e pasta de papel?
A formação em papier-maché deu-me o conhecimento da técnica e da utilização em diferentes suportes. Normalmente utilizo esta técnica em simultâneo com outros materiais, como gesso que me dá mais liberdade de ação. Gosto de misturar e cruzar materiais que, para mim fazem sentido quase de forma intuitiva, procurando equilíbrio, resistência, mas também emoção. As minhas esculturas nascem muito desse encontro entre materiais que se interligam. Tanto posso trabalhar com o ferro, arame, madeira ou até bronze, depende muito do que cada peça me pede.


Falando do seu processo criativo: descreve-o como espontâneo e imprevisível. Como lida com essa imprevisibilidade — é libertadora, desafiante ou ambas?
De facto, ambas. Há uma grande liberdade em criar arte para despertar os sentidos e emoções ou que revele a perspetiva do artista sobre um determinado tema. Por vezes surgem dificuldades em concretizar exatamente aquilo que imaginamos. Isso obriga-nos a sair da zona de conforto e a experimentar novos caminhos, até chegar ao que se pretende. Nesse processo a imprevisibilidade deixa de ser um obstáculo e passa a ser uma ferramenta que me guia e me leva por caminhos inesperados e dá à peça uma verdade que talvez não surgisse de outra forma.

A sua obra transita entre o abstrato e o figurativo. O que a leva a escolher um caminho ou outro em cada fase ou peça?
Essa transição nasce de uma ideia ou de uma decisão racional. Quando me dedico ao abstracionismo geralmente estou à procura de sensação, de ritmo, de cor, de um gesto de liberdade, é uma ação intuitiva. Á medida que o trabalho evolui e vão surgindo formas, aí deixo entrar o figurativo, mas o contrário também acontece, parto de uma forma e ao trabalhar percebo que me interessa dar mais expressividade, é quando começo a desfazer, distorcer ou apenas simplificar. Essa escolha advém da intenção emocional da peça em si. No fundo não vejo como dois caminhos opostos, mas como extremos do mesmo caminho.
Participou em diversas exposições individuais e coletivas. Há alguma que tenha sido especialmente marcante ou transformadora para si?
Todas elas são marcantes, mas algumas transformam-nos. A primeira em que participei no âmbito do projeto Realces, denominada de “Territórios Culturais”, realizado no Camões Centro Cultural Português em Luanda, foi uma dessas experiências. Apresentei uma escultura da Weliwítschia mirabilis, uma planta única do deserto do Namibe, e houve um momento que nunca esqueci: uma jovem cega ao tocar na peça, expressou uma emoção profunda por conseguir reconstruir uma memória completamente diferente daquela que tinha da planta. Foi aí que percebi, com toda clareza, o verdadeiro impacto do meu trabalho: quando a arte deixa de ser apenas vista e passa a ser também sentida.




Foi autora da capa de um livro sobre temas sociais em Angola. Como foi traduzir visualmente uma temática tão sensível e complexa?
A capa do livro “Descortinando a inocência” da autora Roberta Guimarães Franco, é um quadro da minha autoria de nome “O Namoro”, e é uma ilustração da juventude Angolana. A autora do livro considerou que a imagem simboliza uma metáfora visual potente e ambígua que associa diretamente com os temas centrais do livro à infância e à inocência em meio à violência que a ameaça. É uma capa que não explica o livro, mas o complexifica, convidando o leitor à reflexão.
Pode-nos revelar alguns dos seus projetos para 2026?
Não sou de fazer projetos a longo prazo, vou aproveitando as oportunidades conforme forem surgindo.
Neste momento vou estar de 7 a 17 de abril numa exposição coletiva integrada na semana da interculturalidade, promovida pela EAPN, a ter lugar no Auditório da Associação Vimaranense, em Guimarães.
Estarei também nas exposições do projeto Realces em Lisboa e Sintra em datas ainda a marcar.





Uma mensagem para todos os autores, criadores e artistas do mundo.
Nunca subestimem o poder da vossa arte, criar é um ato de liberdade, é transformar caos em beleza, dor em poesia, sonho em realidade, em que através da arte podemos despertar empatia e mudar vidas. A arte quando feita com um propósito tem a capacidade de transformar o mundo à nossa volta.






