Gonçalo Regalado

Presidente da Comissão Executiva do BPF

© Descendências/Tiago Araújo

O Banco Português de Fomento, sob a liderança de Gonçalo Regalado, atravessa uma fase de profunda transformação, marcada por uma agenda de aceleração, simplificação e ambição estratégica. Num contexto de elevada volatilidade internacional, o banco público reposiciona-se como peça central no financiamento da economia portuguesa, assumindo um papel cada vez mais ativo junto das empresas, da banca comercial e das instituições europeias. Entre a execução do PRR, a mobilização de milhares de milhões de euros em garantias e capital, e a aposta em áreas como habitação, exportações, sustentabilidade e inovação, o Banco de Fomento procura afirmar-se como o principal instrumento de política económica do Estado para o tecido empresarial. Nesta entrevista à Descendências Magazine, o presidente da instituição detalha a estratégia em curso e o legado que pretende deixar até 2028 – um banco mais ágil, mais próximo das empresas e com maior capacidade de impacto na economia.

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Após uma longa e bem-sucedida carreira no Millenium BCP, o que motivou a aceitar o desafio de liderar o Banco Português de Fomento, passando da banca comercial para o braço financeiro do Estado?

Ser Presidente do Banco Soberano de Portugal é assumir uma responsabilidade que traduz, em si mesma, a missão de um país inteiro.
O meu percurso – iniciado no Millennium BCP, passando depois pela Comissão Europeia e, mais tarde, pelo Governo – deu-me, essencialmente, a base de competências necessária para desempenhar funções bancárias com uma dimensão pública, assente numa responsabilidade soberana. É precisamente essa experiência que hoje coloco ao serviço do Banco Português de Fomento, com o objetivo de apoiar empresas e empresários. Esse foi, desde o início, o nosso desígnio e continua a ser o que orienta o nosso trabalho diário: utilizar o melhor da capacidade de gestão e da esfera pública do Estado para servir o tecido empresarial.
Ao longo da minha vida, estive sempre ligado à banca ao serviço das empresas, nomeadamente no maior banco privado em Portugal. A decisão de assumir a presidência do Banco Soberano de Portugal surge da convicção de que existem oportunidades relevantes para empresários e empresas em várias dimensões – desde garantias, instrumentos de capitalização e investimento direto, até fundos imobiliários e crédito para projetos estruturantes, geralmente de longo prazo e com montantes superiores a 100 milhões de euros.
Existe, portanto, uma missão clara a cumprir: colocar o melhor das nossas capacidades ao serviço do país. Foi essa convicção que me levou a aceitar este desafio e a assumir a Presidência do Banco Soberano de Portugal.

© Descendências/Tiago Araújo
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Sendo filho e neto de empresários, de que forma essa proximidade à realidade das empresas molda a sua forma de gerir o Banco Português de Fomento e a sua compreensão da dificuldade do tecido empresarial português?

É a forma mais simples e prática de perceber que é fundamental nascer, crescer e viver no contexto empresarial para compreender verdadeiramente a função que desempenhamos aqui.
O trabalho do Banco Português de Fomento passa por identificar e disponibilizar os melhores mecanismos que permitam aos empresários investir, crescer e criar valor, tanto no contexto nacional como no plano internacional. Nesse sentido, quem nasce e é criado num ambiente empresarial tem uma vantagem natural: não precisa de recorrer a grandes estudos de mercado ou a uma formação exclusivamente académica para compreender o que é ser empresário – porque essa realidade faz parte da sua vivência. Eu nasci empresário.
A minha família conta já com três gerações ligadas ao mundo empresarial: o meu avô foi empresário, os meus pais são empresários, tal como os meus irmãos, tios e primos. Por isso, quando olho para a função de Presidente do Banco Soberano de Portugal – o banco das empresas e dos empresários – torna-se evidente que o meu percurso reúne três dimensões essenciais: a vivência empresarial de origem, a experiência na banca privada e o exercício de funções públicas, quer na Comissão Europeia, quer no Governo. Esta conjugação permite-me assumir esta responsabilidade com uma visão integrada e orientada para resultados ao serviço da nossa comunidade, da nossa sociedade e do país.
É esse o compromisso que assumo diariamente, a par das nossas equipas, profundamente dedicadas a concretizar um objetivo claro: fazer do Banco Português de Fomento o melhor banco soberano da Europa.

O novo Plano Estratégico de 2026-2018 tem o nome ambicioso de “Pulsar Portugal”. Quais são os pilares fundamentais deste plano e como pretende atingir o impacto anunciado de 30 mil milhões de euros na economia?

O nome Pulsar surgiu de um processo criativo que desenvolvemos com um grande autor português, o Pedro Abrunhosa.
Quando chegámos ao Banco Português de Fomento, lançámos-lhe o desafio de nos ajudar a pensar como fazer aqui algo que nunca tivesse sido feito. A partir daí, criou connosco uma coletânea em vinil, à qual deu o nome Pulsar. Identificámo-nos de imediato com essa proposta – pela criatividade, pela força da mensagem e também pela própria personalidade do Pedro Abrunhosa: uma voz marcante do Norte, empreendedora, interventiva e positiva. Esse vinil acabou por inspirar-nos, e decidimos adotar o conceito Pulsar como base para o desenho do nosso Plano Estratégico 2026–2031.
Olhamos para os 30 mil milhões de euros que projetamos mobilizar – um valor altamente relevante, equivalente a mais de 10% do PIB nacional – com uma visão positiva e prospetiva. O Banco está a expandir-se de forma significativa nas áreas centrais da economia portuguesa. Quando iniciámos funções, tratava-se de uma instituição com uma intervenção anual na ordem dos 500 milhões de euros. Já no primeiro ano do mandato, conseguimos gerar um impacto de 6.500 milhões de euros na economia, o que corresponde a cerca de 2,2% do PIB em 2025.
Em articulação com o Conselho Estratégico e o Conselho de Administração, desenhámos um programa ambicioso, orientado para a transformação da economia portuguesa. Esse programa assenta em várias frentes. Desde logo, um pilar muito relevante de garantias – europeias e nacionais – que permitem às empresas aceder a financiamento em condições mais favoráveis, muitas vezes a metade do custo e com o dobro da capacidade.
Temos também uma aposta forte na área do capital: atualmente, o Banco e a Portugal Ventures gerem cerca de 2 mil milhões de euros em instrumentos de capital, posicionando-nos como o maior operador nacional neste domínio. No plano internacional, reforçámos a nossa presença com a integração da SOFID, assumindo um papel determinante no financiamento de empresas portuguesas no exterior – algo particularmente relevante para a nossa diáspora.
Adicionalmente, contamos com um braço na Agência de Crédito à Exportação, através do sistema de seguros de crédito, que permite às empresas portuguesas chegar a mais mercados e geografias. E, por fim, dispomos de um pilar importante de fundos de investimento imobiliário, que nos permite mobilizar recursos em áreas como a habitação, a indústria, a agricultura e o turismo.
Com estas cinco grandes áreas de intervenção – garantias, crédito, capital, seguros de crédito e fundos imobiliários – estruturámos um plano detalhado, com execução mês a mês, que visa mobilizar 30 mil milhões de euros entre 2026 e 2028 para investimento direto na economia portuguesa. É um objetivo ambicioso, mas estamos convictos de que o vamos concretizar.

Procedeu-se, anteriormente, à necessidade de transformar o que alguns chamavam de Banco do Tormento num verdadeiro Banco de Fomento. Passado mais de um ano de mandato, que passos concretos já foram dados para desburocratizar e agilizar a resposta do Banco às empresas?

Ao fim de 16 meses de mandato, acreditamos que a fase a que muitos chamavam “Banco do Tormento” ficou definitivamente para trás.
Hoje, temos um Banco de Fomento verdadeiramente ao serviço das empresas e da economia portuguesa. Prova disso é o impacto gerado neste período: mais de 8 mil milhões de euros já mobilizados para a economia, sendo 6.500 milhões em 2025 e mais de 1.600 milhões apenas no primeiro trimestre de 2026.
Esta transformação resulta de mudanças concretas e estruturais. Em primeiro lugar, simplificámos processos: deixámos de exigir 27 documentos por candidatura – dos quais 22 já estavam na posse do Estado – e passámos a pedir apenas cinco. Em segundo lugar, reduzimos drasticamente os prazos: uma operação de crédito que demorava, em média, 49 dias a ser aprovada passou a ser decidida em menos de 10 dias, havendo mesmo modelos pré-aprovados que permitem decisões em dois dias e contratação em cinco. O Banco ganhou, assim, uma agilidade que alterou profundamente a sua forma de atuar.
Mas a mudança foi mais do que operacional – foi também estratégica. O Banco deixou de ser uma instituição de retaguarda, dependente da iniciativa da banca comercial, para passar a atuar de forma direta junto dos empresários. Hoje, falamos diretamente com as empresas e emitimos cerca de 150 mil garantias por trimestre, num universo de mais de 42 mil milhões de euros ativos. Estas garantias são atribuídas diretamente aos empresários, que as recebem por canais simples – como e-mail, SMS ou outras plataformas – e podem utilizá-las junto de qualquer banco comercial para aceder a financiamento.
Deixámos, portanto, de ser um banco à espera da economia para nos tornarmos um banco próximo, presente e ativo no terreno. Essa proximidade traduziu-se, só em 2025, em mais de 18.500 operações de crédito e no apoio a mais de 16.200 empresas.
O passado ficou para trás. Hoje, somos um banco orientado para o futuro – um instrumento de fomento que atua no presente, com uma abordagem mais dinâmica, proativa e reconhecida pelos próprios empresários.

O Banco de Fomento estabeleceu a meta de atingir 6 mil milhões de euros em garantia até o final do ano de 2025. Qual é o balanço actual desta meta e como está a ser a recepção das empresas a estes milhões?

Em 2025, mobilizámos 6.500 milhões de euros em instrumentos de financiamento ao investimento, abrangendo todas as áreas de atuação do Banco Português de Fomento.
Para se ter uma referência clara, este valor representa um aumento de 13 vezes face a 2024. Na prática, em 2025 passámos a fazer, por mês, aquilo que anteriormente era feito ao longo de um ano inteiro – considerando 2021, 2022, 2023 e 2024. Este crescimento foi possível graças a uma forte simplificação dos processos internos e ao reforço da parceria com a banca comercial, que nos permitiu estar mais próximos do terreno e das necessidades das empresas.
Hoje, com base em inquéritos regulares junto dos empresários – nomeadamente através do indicador NPS (Net Promoter Score) – sabemos que o nível de satisfação com o Banco se aproxima dos 90%. Este é um sinal claro de que estamos efetivamente ao serviço das empresas. Os empresários reconhecem o valor das soluções disponibilizadas, em particular das garantias, que lhes permitem aceder ao dobro do crédito a metade do custo, sempre com o apoio da banca comercial, que continua a ser uma parceira essencial na implementação destes instrumentos.
A par disso, existe uma articulação muito estreita entre o Banco Português de Fomento e as Sociedades de Garantia Mútua, o que nos permite dispor de uma rede própria, com forte proximidade e capacidade de resposta, orientada para servir de forma eficaz as empresas e os empresários em todo o país.

Com o Plano de Recuperação e Resiliência a entrar na fase crucial de execução, como é que o Banco de Fomento está a garantir que os fundos cheguem efetivamente à economia real e não ficam retidos em processos administrativos?

Quando iniciámos funções, o Banco Português de Fomento tinha pouco mais de 350 milhões de euros executados no âmbito dos instrumentos de capitalização do PRR. Hoje, lidera a mobilização de mais de 2.300 milhões de euros desses mesmos instrumentos e tem como objetivo alcançar uma execução de 100%.
Assim, ao longo de 2025 e 2026, será possível gerar um impacto superior a 1.000 milhões de euros por ano na economia portuguesa através destes instrumentos. Este resultado decorre de uma mudança de abordagem: o Banco deixou de estar numa posição passiva e passou a atuar lado a lado com as empresas, também na dimensão do capital. Dos 350 milhões inicialmente executados, passámos para cerca de 920 milhões já concretizados.
A este crescimento junta-se uma decisão estratégica do Governo de Portugal, que confiou ao Banco Português de Fomento a gestão da componente de subvenções destinadas às empresas, nas áreas da inovação e da competitividade. Nesse contexto, foi criado o IFIC – Instrumento Financeiro para a Inovação e Competitividade – que evoluiu de uma dotação inicial de cerca de 315 milhões de euros para mais de 1.200 milhões de euros.
Atualmente, o Banco gere, por um lado, cerca de 920 milhões de euros em instrumentos de capital, no âmbito do Fundo de Capitalização e Resiliência, já totalmente executado, e, por outro, mais de 1.200 milhões de euros em subvenções a fundo perdido destinadas ao investimento empresarial. Estes apoios abrangem áreas estratégicas como a inteligência artificial, a defesa, a reindustrialização, a agricultura, bem como projetos nas Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, e ainda intervenções em territórios afetados por calamidades recentes, além do reforço da base industrial do país.
No conjunto destas duas vertentes, o Banco passa a gerir mais de 10% da dotação total do PRR. Tendo partido de um ponto inicial de 350 milhões de euros executados, este percurso demonstra que é possível alcançar níveis elevados de desempenho. A ambição é clara: garantir uma execução total destes fundos até ao final de 2026 – um objetivo que estamos confiantes de concretizar.

Recentemente, o Banco Português de Fomento anunciou um reforço das linhas de apoio à reconstrução para 3.000 milhões de euros devido às intempéries. Qual é a celeridade que o Banco consegue imprimir nestes apoios de emergência?

Neste momento, temos mais de 1.700 milhões de euros em pedidos apresentados por empresários. Desses, já aprovámos mais de 1.600 milhões de euros, cerca de 1.500 milhões estão em fase de contratação e mais de 900 milhões já foram efetivamente disponibilizados às empresas.
Se olharmos não apenas para os montantes, mas também para o número de empresas, o Banco recebeu mais de 9.000 candidaturas, aprovou mais de 8.000 e tem atualmente cerca de 5.000 já contratadas. Existem, assim, cerca de 3.000 candidaturas em processo de contratação, numa articulação entre os empresários e os parceiros da banca comercial. A nossa expectativa é atingir cerca de 2.000 milhões de euros nas linhas internas do Banco Português de Fomento – destinadas à reconstrução, tanto ao nível da tesouraria como do investimento – e apoiar aproximadamente 10.000 empresas já nos meses de abril e maio.
Isto significa que, num período de pouco mais de 12 semanas, conseguiremos dar resposta a um número muito significativo de empresas afetadas por este temporal e por esta situação de grande impacto. Se 2025 foi o ano da mudança, definimos 2026 como o ano da consistência e, simultaneamente, da reconstrução. E estamos convictos de que a resposta dada foi altamente eficaz. Em pouco mais de uma semana, conseguimos estruturar todo o processo, o modelo e os instrumentos necessários, e em apenas nove dias o portal já estava operacional para receber candidaturas. Se o processo fosse complexo ou pouco claro, não teríamos alcançado números como 9.000 candidaturas submetidas, 8.000 aprovadas, milhares já em contratação e 5.000 com financiamento disponível.
O próximo passo passa por reforçar estas linhas, em parceria com o Banco Europeu de Investimento, com mais 1.000 milhões de euros. No total, falamos de um pacote de 3.000 milhões de euros – 2.000 milhões do Banco Português de Fomento e 1.000 milhões provenientes do Banco Europeu de Investimento, também geridos por nós. Este reforço permitirá criar novas linhas direcionadas, em particular, para instituições públicas, infraestruturas e também para pequenas e médias empresas que necessitem de financiamento com maturidades mais longas, que podem ir até aos 12 anos.
A nossa ambição é que estas novas linhas estejam disponíveis entre maio e junho, constituindo uma segunda fase de apoio à economia. Sabemos que há sempre margem para melhorar, mas também temos a certeza de que o Banco deu uma resposta rápida, eficaz e alinhada com as necessidades do país – conseguindo, em poucos dias, operacionalizar um sistema que hoje está a aprovar, contratar e financiar milhares de candidaturas, contribuindo ativamente para a reconstrução e apoio às empresas e às comunidades.

O fomento das exportações é vital para Portugal. Que novas soluções de export credit estão a ser preparadas para ajudar as empresas portuguesas a competirem em mercados globais mais complexos?

O Banco Português de Fomento assume uma nova responsabilidade na área das exportações, passando, a partir de 1 de julho de 2026, a desempenhar também o papel de Agência de Crédito à Exportação. Em articulação com os parceiros do setor segurador e dos seguros de crédito, passaremos a emitir garantias de suporte a esses instrumentos, permitindo que as exportações fluam com maior dinamismo e impacto. O nosso objetivo é claro: simplificar a vida dos exportadores portugueses, facilitar o acesso a novos mercados e geografias e potenciar a criação de maior valor.
Paralelamente, desempenhamos também um papel muito relevante no financiamento do investimento português no estrangeiro. Atualmente, somos responsáveis pela gestão da SOFID, a nossa Development Finance Institution (DFI), o que nos confere a responsabilidade de apoiar empresas portuguesas que pretendem investir no chamado Sul Global – incluindo regiões como a América Latina, África, Sul da Ásia, Médio Oriente e Índia. Cabe-nos, assim, apoiar os empresários portugueses que procuram expandir-se e afirmar-se nestes mercados.
Neste contexto, a nossa atuação assenta em dois eixos fundamentais: por um lado, enquanto Agência de Crédito à Exportação, mobilizamos seguros de crédito que reforçam a capacidade exportadora; por outro, através da nossa DFI, promovemos o investimento financeiro português no exterior. O objetivo é proporcionar às empresas nacionais mais oportunidades, maior alcance internacional e, sobretudo, mais valor nas suas exportações e investimentos.

O Banco de Fomento tem assumido um papel de destaque para a habitação. Como funcionará a nova linha para cooperativas de habitação, e que impacto espera que esta tenha na oferta de casas a custos controlados?

Portugal enfrenta um desafio estrutural na área da habitação, para o qual não existe uma solução única. É necessário ativar várias dimensões em simultâneo para voltarmos a construir dezenas de milhares de casas por ano e garantir que todos – os portugueses e aqueles que escolhem o país para viver – têm acesso a soluções de habitação e bem-estar adequadas.
Neste contexto, o Banco Português de Fomento tem a responsabilidade de apoiar este esforço. A nossa intervenção passa por diferentes frentes: desde o apoio a cooperativas de habitação, públicas e privadas, até ao estímulo de parcerias público-privadas que viabilizem a construção de habitação a custos controlados, bem como o suporte às estratégias locais de habitação, permitindo às autarquias desenvolver projetos de habitação pública.
Concretamente, o Banco irá conceder garantias que facilitem o acesso a financiamento por parte de promotores de construção pública e de entidades do setor público, em particular câmaras municipais e outras organizações do Estado. Sabemos que o financiamento não é o único obstáculo, mas não pode ser um entrave – tem de ser parte da solução. Por isso, o que pretendemos é disponibilizar instrumentos simples, ágeis, competitivos e com condições atrativas.
O objetivo é claro: apoiar quem constrói habitação pública, especialmente em regimes de custos controlados, garantindo maior acessibilidade e resposta às necessidades reais da população.

© Descendências/Tiago Araújo
© Descendências/Tiago Araújo

As alterações climáticas exigem investimentos maciços. Qual é a estratégia do Banco de Fomento para as emissões da dívida verde e como pretende incentivar as PMEs a adotarem modelos de negócios mais sustentáveis?

O Banco Português de Fomento definiu um Plano Diretor de Sustentabilidade, no qual prevê mobilizar 3 mil milhões de euros em crédito verde. Neste âmbito, os principais rácios de sustentabilidade são acompanhados de forma próxima, tanto pela Direção de Sustentabilidade como pela Comissão Executiva e pelo Conselho de Administração.
O objetivo é claro: disponibilizar aos empresários instrumentos que lhes permitam investir numa transição sustentável, com especial enfoque na descarbonização da economia.
Portugal já apresenta indicadores muito positivos no domínio das energias renováveis, particularmente na produção de energia elétrica, o que nos dá uma base sólida para o futuro. Ainda assim, é essencial continuar este caminho de descarbonização. Para isso, o Banco disponibiliza atualmente um conjunto de instrumentos dedicados, que incluem soluções específicas para setores como o turismo, bem como linhas orientadas para a descarbonização e para a transição verde, acessíveis a todas as empresas em Portugal.

Como é que o Banco Português de Fomento está a utilizar a Inteligência Artificial e a digitalização para melhorar os seus próprios processos internos e, simultaneamente, apoiar a digitalização das empresas portuguesas?

O Banco implementou uma verdadeira revolução digital com o objetivo de garantir uma resposta just in time a todos os empresários, eliminando filas de espera, atrasos e a duplicação – ou mesmo triplicação – de documentação dentro da instituição.
O que estamos a fazer é assegurar que esta transformação digital tenha um impacto direto na eficiência do Banco, tirando partido da Inteligência Artificial. Nesse contexto, foi desenvolvido um grande projeto a que chamamos Fomento AI – Artificial Intelligence – que visa simplificar a vida dos colaboradores, dos decisores e, sobretudo, dos empresários e clientes.
Através destes mecanismos e agentes de inteligência artificial, conseguimos ser mais rápidos, mais ágeis e, ao mesmo tempo, mais assertivos e rigorosos nas decisões. O objetivo é claro: melhorar continuamente o nosso nível de serviço e garantir respostas atempadas, para que os empresários sintam que têm no Banco um verdadeiro parceiro para todos os seus desafios.

Como define a relação do Banco de Fomento com a Banca Comercial? De que forma garante que o Banco de Fomento atua onde o mercado falha, sem entrar em concorrência direta com os bancos privados?

O Banco Português de Fomento é absolutamente complementar à Banca Comercial. Não existe uma relação de concorrência ou de competitividade, mas sim de complementaridade.
Na prática, concedemos garantias públicas que permitem à banca comercial multiplicar a sua capacidade de concessão de crédito, facilitando assim o acesso das empresas ao financiamento. Nesse sentido, a Banca Comercial funciona, muitas vezes, como a extensão operacional do Banco Português de Fomento. Existe uma articulação muito próxima entre o Banco e os bancos comerciais presentes em Portugal, que é essencial para o funcionamento do sistema.
O nosso grande objetivo é multiplicar valor para as empresas, assegurando simultaneamente a segurança necessária para que a banca comercial possa financiar com confiança. Trabalhamos, assim, lado a lado, de forma coordenada, para apoiar o investimento em Portugal e o investimento das empresas portuguesas no exterior, contribuindo para um país cada vez mais resiliente, mais forte e mais competitivo.

A posse do novo Conselho Estratégico, com figuras como Nuno Amado, António Ramalho e João Bento, traz um peso institucional renovado. Qual será o papel prático deste órgão na definição das políticas do Banco?

O Conselho Consultivo Estratégico desempenha um papel verdadeiramente estruturante enquanto Advisory Board do Banco, com uma responsabilidade claramente definida e muito relevante.
Para além de integrar banqueiros com décadas de experiência – como o doutor Nuno Amado, o doutor Fernando Ulrich, o doutor António Ramalho, o doutor Leite Maia, o doutor Zé João Guilherme e o doutor João Bento – este Conselho tem também a vantagem de reunir uma forte componente de conhecimento empresarial em todas as dimensões da atividade do Banco. Nele estão presentes grandes empreendedores como o Nuno Sebastião, a Daniela Braga e o Nuno Prego Ramos.
A isto junta-se a representação de grandes empresas portuguesas com presença ativa no Conselho, como o Filipe Botton, através da Logoplaste, o Rui Paulo Rodrigues, da Simoldes, e o Fernando Daniel Nunes, da Visabeira. O resultado é um Conselho Estratégico com uma elevada densidade de conhecimento e experiência, refletindo as forças vivas da economia nacional em praticamente todos os setores.
O Banco está, assim, amplamente representado por um conjunto muito diversificado de competências e de visões. E isso traz-nos uma responsabilidade acrescida: continuar a ouvir, a escutar e, sobretudo, a absorver o contributo do mercado, sendo permanentemente desafiados a ir mais além. O papel do Conselho Estratégico é precisamente esse – definir a estratégia do Banco e garantir que o Conselho de Administração e a Comissão Executiva dispõem dos instrumentos necessários para a executar.
Hoje, temos uma governação claramente estruturada: a Comissão Executiva executa, o Conselho de Administração supervisiona e acompanha, e o Conselho Estratégico define a estratégia, a visão e a ambição do Banco. Ao escolhermos alguns dos melhores portugueses para integrarem este Conselho, estamos também a afirmar que queremos os melhores a ajudar a definir o futuro do Banco e, em larga medida, do país.
Existe ainda uma dimensão importante de humildade neste trabalho, na medida em que procuramos aprender com outras instituições de referência. Em setembro, teremos a oportunidade de conhecer em detalhe o funcionamento do Bpifrance, um dos bancos soberanos mais relevantes da Europa, e em janeiro de 2027 visitaremos Frankfurt para estudar o KfW, o maior banco soberano europeu, percebendo como estruturam, gerem e operacionalizam os seus instrumentos. Esse conhecimento será fundamental para recolher boas práticas e aplicá-las em Portugal, reforçando continuamente o nosso modelo.

Como é que a integração e coordenação com as participadas, como a Portugal Ventures e a SOFID, estão a ser otimizadas sobre a liderança para criar uma oferta de capital e de dívida mais integrada?

No Banco Português de Fomento criámos uma verdadeira cultura de fomento, construída em torno de um princípio muito claro de “família fomento”, que integra todos os colaboradores do grupo.
Todos partilham o mesmo modelo de serviço, a mesma motivação, o mesmo nível de contacto, a mesma ambição e a mesma estrutura de gestão. Isso permite que o Banco funcione de forma coerente e alinhada em todas as suas dimensões.
Existe, por isso, uma articulação muito próxima entre todas as equipas: as comissões executivas reúnem com regularidade, os órgãos de administração comunicam de forma contínua e próxima, e diretores e colaboradores mantêm um contacto permanente. O Banco funciona, assim, como um único ecossistema ao serviço do mesmo propósito – o empresário, a empresa, o cidadão, o cliente e o país.
Esta articulação traduz-se também em momentos formais de alinhamento e acompanhamento. Realizamos reuniões e comités de forma regular, onde é partilhado o ponto de situação de cada área e de cada parceria em curso. Além disso, duas vezes por ano reunimos todas as lideranças do grupo de forma estruturada, e, sempre que necessário, promovemos encontros mais pontuais com os administradores das várias entidades, garantindo que todos estão alinhados na mesma estratégia, no mesmo enquadramento e no mesmo objetivo de impacto.

Num cenário de volatilidade das taxas de juros, como é que o Banco de Fomento pode atuar como estabilizador para as empresas com maior exposição ao crédito?

Vivemos tempos de enorme volatilidade e instabilidade, quase sempre provocados por fatores externos a Portugal e, em muitos casos, também exteriores à própria Europa.
Neste contexto, o nosso papel é claro: sermos um porto seguro para as empresas portuguesas, tanto no mercado interno como para aquelas que investem no exterior. A forma mais eficaz de garantir esse apoio contínuo passa por manter uma forte densidade e diversidade de linhas de garantia, que assegurem aos empresários o acesso ao mercado bancário em qualquer momento.
Mas a nossa atuação vai mais além. Procuramos também alargar a dimensão de fundo de fundos, reforçando a capacidade de investimento em capital e permitindo que o Banco possa ser, ele próprio, acionista e parceiro das empresas portuguesas com maior crescimento. A isto juntam-se os seguros de crédito, fundamentais para apoiar a entrada em novos mercados de exportação, bem como os fundos de investimento imobiliário, que permitem transformar operações de sale & leaseback em liquidez imediata para as empresas. Acresce ainda a ambição de, a partir de Portugal, financiar empresas que pretendam expandir-se internacionalmente.
O que nos orienta, no fundo, é esta ideia central: garantir que o investimento das empresas tem uma base de certeza num contexto global de incerteza. A nossa expectativa é que 2026 – um ano marcado por um primeiro trimestre particularmente desafiante, com uma forte instabilidade e o início de dois conflitos inesperados – possa, ainda assim, consolidar o papel do Banco Português de Fomento como porto de abrigo e porto seguro para todas as empresas em Portugal.

De que forma o Banco de Fomento colabora com a AICEP para tornar Portugal um destino mais atrativo para grandes projetos de investimento estrangeiro, através de instrumentos de cofinanciamento?

A AICEP é um dos principais acionistas do Banco Português de Fomento e, para além dessa posição, é também um parceiro absolutamente central em toda a dimensão internacional da nossa atividade.
Para lá do modelo tradicional de governação – com reuniões regulares entre as equipas executivas do Banco e da AICEP – existe uma verdadeira lógica de partilha de negócio. Ou seja, existe uma divisão clara e complementar de responsabilidades: a AICEP tem um papel essencial na atração de investimento direto estrangeiro, enquanto o Banco Português de Fomento assegura o financiamento desse mesmo investimento.
O mesmo princípio aplica-se no sentido inverso, quando falamos da internacionalização das empresas portuguesas. A AICEP é um parceiro fundamental na identificação de mercados, na abertura de oportunidades e no apoio à instalação de empresas portuguesas no exterior. Por seu lado, o Banco, através da SOFID e das suas estruturas, assegura o financiamento necessário para concretizar essa expansão internacional.
Deste modo, a relação com a AICEP não é apenas institucionalmente relevante – é profundamente operacional, próxima e orientada para resultados concretos, assente numa cooperação contínua ao serviço da internacionalização da economia portuguesa.

Portugal continua a enfrentar problemas crónicos de produtividade. Como é que o Banco de Fomento seleciona os projetos a financiar para garantir que o capital é alocado a sectores de maior valor acrescentado?

O Banco Português de Fomento é o banco de todas as empresas portuguesas, de todos os setores e de todos os empresários.
O nosso trabalho não passa por escolher empresários, mas sim por servir os empresários em função da fase de desenvolvimento em que cada empresa se encontra. Não existem empresas globais, internacionais ou multinacionais que não tenham começado por ser pequenas. Por isso, o nosso papel é acompanhar cada uma na sua trajetória de crescimento.
Apoiamos as microempresas, as pequenas, as médias, as grandes e as empresas globais. Não trabalhamos com critérios pré-definidos ou escolhas fechadas; trabalhamos com base nas necessidades reais de cada empresa e em cada etapa do seu percurso.
Há empresas que precisam de capital na fase inicial, outras que necessitam de crédito numa fase de expansão, outras que recorrem a garantias, outras ainda que beneficiam de fundos de investimento imobiliário, e outras que precisam de apoio à exportação ao longo do seu desenvolvimento. O nosso papel não é substituir a decisão do empresário, mas sim responder às suas necessidades em cada momento, disponibilizando os instrumentos adequados.
Os empresários são o centro da nossa missão – o verdadeiro “Santo Graal” do Banco. São eles que escolhem o seu caminho e a sua estratégia, e o nosso compromisso é garantir que têm sempre o apoio necessário para concretizar essas escolhas.

Foi distinguido como Profissionalidade do Ano em 2025 pelo Jornal Económico. Sente que este reconhecimento é um sinal de que a confiança dos agentes económicos no Banco de Fomento foi restaurada?

Eu sinto-me um porta-voz do Banco Português de Fomento – alguém que mobiliza, inspira e executa – contribuindo para criar ambição, motivação e energia nas cerca de 700 pessoas que integram o Grupo.
O meu trabalho é, acima de tudo, mobilizar as equipas do Banco, mobilizar os empresários e mobilizar o país para alcançarmos mais crescimento, mais investimento, mais prosperidade e mais riqueza. Mas não apenas mais riqueza: também uma melhor distribuição dessa riqueza, que permita construir um país com maior coesão, com pessoas mais felizes e com impacto positivo na sociedade. Esse é, de facto, o sentido do nosso trabalho.
As distinções são sempre bem-vindas e motivo de satisfação, mas, no fundo, pertencem muito mais às 700 pessoas que trabalham diariamente no Banco do que ao seu Presidente. O essencial é garantir que todas as equipas têm os instrumentos necessários para assegurar que os empresários recebem respostas rápidas, eficazes e positivas.
Para mim, o verdadeiro prémio de 2025 foi ver Portugal reconhecido como a economia do ano. Esse é o reconhecimento mais relevante – muito mais importante do que qualquer distinção individual. Costumo dizer que de pouco vale marcar um golo se a equipa não vence o jogo. E o que sentimos é que o “golo” do Banco Português de Fomento – que não é individual, mas coletivo – contribuiu para esse resultado da economia portuguesa.
E isso não pode ser desvalorizado. Porque se Portugal for consistentemente a economia do ano no espaço da OCDE, estaremos a construir um país cada vez melhor. Esse é o nosso objetivo: garantir que, ano após ano, Portugal continua a vencer enquanto economia, permitindo à nossa economia viver a melhor década deste século, entre 2020 e 2030, com mais riqueza, melhor distribuição e maior qualidade de vida para todos.

Quando terminar este triénio estratégico em 2028, qual é o principal legado que gostaria de deixar no Banco de Fomento?

Nós ainda nem chegámos a meio do mandato. Vivemos com um foco permanente no curto prazo – no próximo mês, na próxima semana, no próximo passo – porque é assim que o nosso trabalho se concretiza diariamente.
Mas aquilo que estamos a construir no Banco Português de Fomento é, acima de tudo, um legado. O objetivo é deixar um banco soberano que seja uma referência na Europa, uma espécie de “lancha rápida” entre os bancos soberanos europeus: não pela dimensão, que será sempre intermédia, mas pela agilidade, pela ambição e pela capacidade de execução.
Esse legado assenta em vários pilares: ambição, impacto, resultados, foco nas empresas, respeito pelos empresários e capacidade de multiplicar valor. É esse o nosso compromisso.
O objetivo final é contribuir para uma economia mais forte, mais robusta, mais resiliente e mais produtiva, criando condições para um país melhor e uma sociedade mais sólida.

Para um jovem empresário que esteja hoje a lançar um projeto inovador em Portugal, qual é a mensagem de confiança que o Presidente do Banco Português de Fomento lhe pode transmitir?

Que acredite, que tenha ambição, que acredite na sua empresa e no país. E que fale connosco no Banco Português de Fomento, através de qualquer um dos nossos parceiros – sejam os bancos comerciais, a Sociedade de Garantia Mútua, as sociedades de capital de investimento, as entidades do nosso grupo, a Fomento Fundos, a Portugal Ventures, a SOFID ou a Agência de Crédito à Exportação.
O nosso objetivo é que o empresário, desde o primeiro momento, tenha a ambição de construir uma empresa sólida e em crescimento: que comece como microempresa, evolua para pequena, depois para média, que a média se transforme em grande e que a grande se torne global.
Queremos que todas as empresas que nascem em Portugal tenham um percurso claro de crescimento, de criação de valor e de multiplicação de impacto. Se conseguirmos isso – mais empresas, melhores empresas e empresas mais fortes – então também teremos um país maior, melhor e mais competitivo.

Que mensagem final gostaria de deixar aos empreendedores portugueses dentro e fora do país?

Há um enorme desafio que procuro deixar sempre quando falo com a nossa diáspora.
Se todos nós nascemos em Portugal e se consideramos, como acredito que muitos consideram, que este é um dos melhores países do mundo – para mim, o melhor – então existe também uma responsabilidade associada a essa ligação. Aos portugueses que emigraram e que foram os nossos novos navegadores dos últimos anos, deixo o apelo a aquilo a que chamamos Portugal Giveback: é tempo de reinvestir no país onde nascemos.
Trata-se de mobilizar a diáspora e todos os portugueses, empresários e não empresários, que vivem no exterior, a assumirem que é tempo de voltar a investir na sua terra. E isso é particularmente importante porque esse investimento traz consigo não apenas capital, mas também experiência, ambição, coragem e conhecimento adquirido fora de Portugal.
Esse contributo pode materializar-se de várias formas: apoiando empresas que já existem em Portugal, ajudando novas empresas a nascer e a crescer, trazendo para o país subsidiárias de grupos internacionais ou, simplesmente, incentivando outros empresários e investidores a olharem para Portugal como destino.
No fundo, trata-se de uma responsabilidade coletiva: garantir que existe um verdadeiro Portugal Giveback, em que cada um devolve ao país aquilo que o país também lhe deu. Quem nasceu, estudou, cresceu e viveu em Portugal, e continua a amar Portugal, tem essa responsabilidade moral de contribuir para o seu desenvolvimento.
É esse o desafio que deixo à nossa diáspora: transformar a ligação emocional ao país num compromisso concreto de investimento e de futuro.

© Descendências/Tiago Araújo

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