Longevidade
A economia que Portugal insiste em não ver

Portugal gosta de falar de internacionalização. Fala de exportações, de investimento estrangeiro direto, de clusters e de startups. Mas continua a ignorar um dos maiores motores de crescimento da economia global — e uma das áreas onde, paradoxalmente, já tem vantagens reais: a longevidade e o bem-estar.
Os números não deixam margem para dúvidas. Segundo dados do Global Wellness Institute, a economia global do bem estar vale hoje cerca de 6,3 biliões de euros, cresceu a um ritmo médio anual de 6,2% entre 2019 e 2024 — acima do PIB mundial — e deverá ultrapassar os 9 biliões de euros até 2029. Não é uma moda. É uma transformação estrutural.
Em Portugal, e de acordo com a mesma fonte, esta economia representa já cerca de 6,8% do PIB, o equivalente a aproximadamente 18 mil milhões de euros, colocando o país em 39.º lugar no mundo e 17.º na Europa. O setor âncora é o turismo de bem estar, responsável por cerca de 4,4 mil milhões de euros, com forte procura internacional e níveis de despesa por turista muito superiores à média.
Mas a economia do bem estar não se esgota no turismo: inclui atividade física (cerca de 3,2 mil milhões de euros), cuidados pessoais e beleza (cerca de 3,6 mil milhões de euros), alimentação saudável (cerca de 2,9 mil milhões de euros) e segmentos emergentes como saúde mental, saúde preventiva e imobiliário de bem estar — este último a crescer acima de 20% ao ano.
Apesar destes números, o debate público continua preso a uma ideia centrada no social e fortemente relacionada com o envelhecimento. A realidade é outra. A longevidade é um dos maiores motores económicos do século XXI. O grupo etário 50+ é já o maior segmento de consumo mundial e continuará a crescer, para não referir que os grandes consumidores de produtos e serviços considerados promotores da longevidade são jovens entre os 35 e 40 anos de idade.
Países que investem em prevenção, reabilitação e autonomia não estão apenas a melhorar indicadores sociais — estão a proteger crescimento económico.
A OCDE mostra que um aumento de 10% no investimento em prevenção está associado a uma redução significativa da prevalência de doenças crónicas e dos custos futuros em cuidados de longa duração.
Portugal tem aqui uma vantagem silenciosa. Já possui experiência em cuidados continuados, reabilitação, termalismo e turismo de saúde. Possui ativos territoriais raros — clima, segurança, qualidade ambiental, sistema de saúde acessível, qualidade de vida — que outros países tentam artificialmente replicar. Mas há um ativo adicional, frequentemente subestimado, que pode acelerar decisivamente esta economia: a diáspora portuguesa. Espalhados pelo mundo, empresários e investidores da diáspora constituem a maior infraestrutura internacional de Portugal — uma rede económica viva, com conhecimento profundo dos mercados, capacidade de investimento e acesso direto a ecossistemas globais.
Num contexto em que o investimento é altamente móvel e o talento escolhe ecossistemas, esta rede pode funcionar como acelerador natural da economia relacionada com a longevidade e o bem estar, ao reduzir o risco, abrir canais de internacionalização e ligar ativos territoriais portugueses a oportunidades globais.
Pensar Portugal apenas como território é limitar o seu potencial; pensá lo como nação global é transformar a longevidade e o bem estar numa estratégia de crescimento à escala internacional, com potencial de tirar partido de novos mercados em crescimento, como é o caso da América Latina ou mesmo África.
O problema, portanto, não é a falta de ativos. É a ausência de uma estratégia económica clara que articule território, longevidade e redes globais. Enquanto o país continuar a tratar o bem estar e a longevidade como setores marginais ou apenas como política social, continuará a desperdiçar uma oportunidade histórica.
Num mundo cada vez mais envelhecido, viver mais e melhor é uma economia. Portugal já faz parte deste ecossistema global. Falta decidir — com ambição — se quer liderar, mobilizando os seus ativos territoriais e a sua diáspora, ou se quer apenas consumir.




