Obra de Capa
Oitava experiência monalisante
Se a anterior Mona Lisa estava tingida a vermelho-rubro, indicando a possibilidade sanguínea da sua existência, a presente imagem, devolve-nos a representação envolvida por uma densa nebulosa verde virulenta, quase como se um gás nocivo se tivesse apoderado da obra de Leonardo da Vinci. Ação de emboscada, de assalto violento ao santuário monalisiano ou questionamento sobre as cores e as suas condições de representação? Este exercício casimiriano não anda muito longe da essência conceptual de uma série de obras de 1984, em que o ovóide se associou a cinco bandeiras de Portugal em pano. Na altura, o artista pretendia elaborar uma reflexão sobre os elementos e as cores que compunham a bandeira, bem como as relações sugeridas pela história. Se o vermelho representa uma das cores nacionais, o verde finaliza o conjunto dual cromático.
Manuel Casimiro sempre se questionou sobre as possibilidades reais da identidade, dos seus propósitos e dos seus limites, numa contínua elaboração conceptual, derivada do entendimento geral da individualidade. O artista refere que a identidade torna distinto e identificável cada indivíduo, e nós podemos acrescentar, que aquilo que representa o eu não representa o outro. Deste modo, vermelho não é verde, como o verde distancia-se esperançado do sangue avermelhado. Contudo, para cúmulo da ironia, ou não fosse ela uma irmã íntima do artista, esta emanação de gás verde retira a possibilidade identitária da Mona Lisa, extirpando-lhe aquilo que faz dela o que ela é. Identidade desidentificada. Individualidade negada enquanto individualização. Estranha equação artística, e, todavia, a mais sensata e perspicaz posição conceptual casimiriana. Este verde já não pode ser somente aquele referente à bandeira portuguesa, porque aqui ele desdobra-se numa dupla acção: encobrir a Mona Lisa enquanto representação original para a promover à diferença ou à novidade perante a identidade habitual. Neste sentido, Casimiro recria somente com a cor, a possibilidade de fertilizar na imagem, novos sentidos para a individualidade.
Rodrigo Magalhães
O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico

Rodrigo Magalhães
Rodrigo Magalhães. Nasceu em 1993. Doutorado em História da Arte. Colaborador mensal no jornal As Artes Entre As Letras, colaborador da ArteCapital. Participa em revistas e catálogos de Arte e exerce trabalho de curadoria. Os interesses de investigação ancoram-se na História da Arte, nomeadamente na análise e historiografia de tendências, movimentos e desenvolvimentos estéticos da arte contemporânea, desdobrando-se consequentemente numa ramificação com outras vertentes artísticas como a literatura, o cinema, a música, dando expressão à capacidade polivalente da arte no período contemporâneo.






