A gratidão e a insuperável excelência das frutas
Dos mistérios apetecíveis aos segredos da poesia feminina

[…] enquanto as folhas da figueira serviram para ocultar o pecado original, os figos transformaram-se em símbolo da sabedoria (…) a malfadada maçã acertou-se com as fúrias divinas e é hoje a fruta-nossa de cada dia. A castanha manteve e alimentou longos invernos – frescas, secas ou farinadas – e foi nutrição básica de muitas gerações, as uvas, hosana!, converteram-se em vinho – especiaria sacramental, consolo de mágoas, alegria do mundo e da vida – e sangrou de suor rostos e corações, a oliveira, prenúncio do perdão celestial, conforto para o pranto cristão, o credo e o indício da paz, até sombra nos dá… e a sua azeitona volve-se na mais admirável gordura alimentar (…) o melão que o «afável» e azarado Carlos VIII regressado da expedição por terras napolitanas terá levado para França e que por tal descuido gaulês deixou que apoquentasse durante séculos os agricultores da Villaricia (…) a cereja que suporta o lamento da secura quando no vale se abrasa de satisfação, a laranja favorecida apenas pelo sol e pela água que bebe do Douro percorre as emoções mais primitivas, a amendoeira que «em flores de um dia» veste de branco virginal as encostas primaveris e que ainda há-de afilhar-se em frutos cobertos da mais pura doçura (…) o pêssego, a noz, o morango, a avelã, a ameixa… lógicas da complementaridade aos lares providentes da ancestralidade transmontana, os frutos ditos bravios – sorvas, pilritos, abrunhos, amoras, medronhos, arandos… os periqueiros … obras de arte da natureza que as incursões bárbaras do progresso ainda não remeteram para as vitrinas de botânicos museus […] mas… a grandeza e a gratidão das frutas ultrapassa os atributos mais caprichosos e imaginários que lhe possam fadar ou lhe queiram emprestar.

Um boçal e encrespado exemplo…
Já lá vão alguns anos, numa daquelas «lições» colectivas acerca da fruticultura regional, mais enfadonha que o tédio de uma conversa de sogra implicativa ou de um debate parlamentar de uma qualquer lei para entreter a nação, um afortunado colega, de perspicácia travessa mas acertada nos predicados sensuais dos frutedos, abençoou de uma assentada todas as moçoilas presentes na dita aula-conferencista como se de fruta se tratasse ou de fruta lhe apetecesse. Teve as suas razões e outras tantas lh’abonasse. De memória…transformou a mais jovem, tão simpática quanto galante, perfeita para momentos únicos e de encantos breves, em morango ― fruto arregalado, vistoso, próprio para manjares cerimoniais, fruto de conservação pouco fácil, muitas vezes agridoce, não suportando grandes e repetidas mexidas, mais peregrino que nativo e sem imaginário gastronómico. Numa palanqueira elevação, que seja assim: fruto sublime para provar de olhos enternecidos, comer depressa e saborear apressadamente, a fim de evitar desarranjos e males posteriores. Agarrou noutra colega, esta já com alguns anos em cima dos carregos do corpo, mas luzidia e bem formatada e remeteu-a para a família das pomoideas que rapidamente corrigiu para a particularidade das maçãs ― fruta conservável e de arquivo fácil e, principalmente, socorro para ocasiões de carência, mais propriamente, fruta para todo o ano, para qualquer altura, alternativa certa aos frutos de estufa e de agora ou, então, para períodos de míngua mesmo que outrora fosse a divisa do pecado original. Admitiu para a mais antipática e aborrecida de feitio a equiparação a uma azeitona verde, quartejada para a quebra de acidez indigesta e que noutros tempos até de conduto servira e que agora não passava de um simples petisco de entrada ou de enfeite e a precisar de um bom acompanhamento. Coisas da vida e dos tempos que só uma boa salmoura conseguirá resolver. Quanto a outra, aparentemente donzela, mas de dúvida quase certa, rematou que só apenas com um ligeiro toque ou uma apalpadela seleccionada seria possível aferir da qualidade e garantia requerida, à semelhança da técnica popular vulgarizada na escolha de um bom melão ou de uma razoável melancia. À mais arisca, esquiva e atractiva, nada mais sensato do que confrontá-la a uma boa laranja do Douro, mas que não dispensa a retirada da roupa cascuda para avaliação e apreciação da melúria do respectivo conteúdo. A saga comportou mais algumas frutas, desde a cereja coradinha que demora a enfartar às castanhas de abasto rápido, aos merôdios que exigem fidelidade até ao figo, elogio de uma boa refeição matinal e outras que me isento de referenciar, quer pela maldade comparativa quer pela marotice exposta. Contudo, registo a inquirição de desgosto pelo esquecimento feito a duas colegas vizinhas, neste rosário fruteiro. À primeira, respondeu dirigindo-se a toda a plateia masculina – papaia – fruta exótica quanto exótica era a nossa amiga; à segunda, retorquiu com ar de mágoa, cuidado que podes estragar esta salada de frutas! Fico-me por aqui neste introito, antes que as leitoras desta crónica me excomunguem pelo narcisismo despropositado, mas que apenas pretende servir para enquadrar a gratidão e insinuar a insuperável excelência das frutas. Regresso, por isso, aos pomares dos nossos agricultores ou às hortas e quintais dos nossos vizinhos para intentar préstimos que as frutas acomodam ao esoterismo da gastronomia. Assim…

encanta-me o passado do figo e espanta-me o seu presente
porque no futuro acredito pela humildade deste ao elogio das civilizações agrícolas. Aliás todos os povos mediterrânicos agradecidos pelo sol degustaram e saciaram-se com o figo, chegando mesmo a suplantar o consumo do pão. Os gregos atreveram-se a proibir a sua exportação com o receio da sua privação e Platão considerava-os refeição de atleta. Os hindus consagraram a figueira a Visnú; nas tradições da Asia Oriental representam o conhecimento obtido através da meditação e no norte de África era a expressão da fecundidade. O «pão de lótus» da antigo Egipto, enriquecido com gordura e ovos, era tantas vezes adoçado com figos colocados entre duas rodelas de massa. Os espartanos mais dados ao consumo dos queijos e da cevada também não dispensavam o acrescento dos figos. Até os escravos rurais que laboravam as vinhas recebiam figos como complemento alimentar, inclusive os médicos dietistas do mundo de outrora recomendavam as iscas de fígado de animais cevados com figos frescos. E… enquanto para os árabes os frutos em geral não lhe mereciam atenções, excepto as uvas e os [nossos] figos muito doces, já para o universo judaico o jantar que interrompia o jejum era com figos, amêndoas e uvas. Daí que os valores da tríade alimentar mediterrânica foram sempre continuados pelo figo e mel como adoçantes e mais tarde, no caso do figo, a resolução das carências alcoólicas; por isso, os gregos só aceitavam como bom solo as terras que dessem trigo, azeite, vinho… figos e mel. De alimento imprescindível para os faraós ou para os soldados-lavradores romanos, de adoçante na alimentação popular até à presença constante e inevitável do mata-bicho matinal do nosso povo, o figo é além do mais a tradição e a imagem excêntrica e extravagante da alimentação rural das terras cálidas transmontanas. Pena é que a restauração ignorante e apedeuta dos nossos dias não lhe encontre atributos pródigos ou ousados e se submeta a uma melancolia gastronómica inquietante e indolente, e já agora adito a afirmação do poeta Paul Valéry: que me privem de tudo, à excepção do café, dos cigarros e dos figos (…)

sobre a «paradisíaca» maçã…
a origem bíblica da decadência humana e posteriormente da destruição de Troia… admito com mais afecto a alternativa ao vinho através da sidra ou a razão da imortalidade de Hércules ou os acompanhamentos arábicos da carne em parceria com os marmelos e outros frutos ácidos adoçados por geleias e xaropes. Azar de Alexandre, o Grande, que não comeu as maçãs suficientes aquando da sua expedição de busca do elixir da juventude e cedo se deixou levar de paludismo ou a fortuna da ninfa Atalanta que perdeu a sua honra e jura de castidade por causa das maçãs de ouro de Hipómenes. Talvez seja esta a razão por que os franceses consomem tanta maçã!!! Da pera não há rastos entre os egípcios, gregos ou semitas … e como chegou a Roma ou por onde se difundiu continua um mistério. Mas, no estado silvestre sempre se falou delas em toda a temperada Europa, sendo conhecidas na região transmontana por catepereiros ou cachapirros, escanheiros ou escambroeiros ou ainda por periqueiros, que quando bem sorvados, são utilizados na confecção de doces e compotas…
o pêssego, vindo de terras do Extremo Oriente
cedo se aclimatou no Irão e tardiamente arribou ao Ocidente, mas rapidamente os romanos o apadrinharam com títulos de maçã da Pérsia. Ainda hoje na China e no Japão é com uma coroa de flores de pessegueiro que adornam a castidade das noivas como sucede no nosso país com a flor de laranjeira – é o símbolo da virgindade e da fecundidade. Por cá povoam parte da Vilariça e enchem-se de «docidão» com os ares soalheiros da ribeira e desdobram-se em pavias, nectarinas, cricas, carecas, de escacha e até de S. João, para fins de tarde de serena estiagem…
quanto à cerejeira, prima próxima da ameixeira
que no estado silvestre existia nas matas e bosques por toda a Europa e a cujo fruto os gastrónomos romanos atribuíam efeitos para purificação dos humores ou para fazer correr sangue novo pelo corpo, os nossos antecedentes do Neolítico aproveitaram-na para fazer os sumos que haveriam de proceder o uso das uvas no fabrico do vinho (…) ao morango que comidos no estado selvagem eram um recurso para a obtenção do amor…

a laranja, vinda da Cochinchina através da Rota Seda
que no seculo IV já tinha reserva nas hortas sicilianas, além de uma presença acidulada na cozinha hebraica com o limão e as maçãs verdes ou nos condimentos em parceria com a romã e o damasco, nas almôndegas da cozinha árabe. Esta naranj – termo árabe – é a laranja amarga que tanto encantou o sul peninsular da Idade Média e tanto orgulhou os jardineiros de Versailles. A laranja doce ou laranja da China para os portugueses até há poucas décadas, foi trazida pelos nossos antepassados do Celeste Império no século XVI e coube-lhe a sua divulgação por todo o mundo. Ainda hoje, em todo o Mediterrâneo oriental o nome da laranja doce é a portokalia em grego, protokale em albanês ou portoghâl em curdo […] o contributo calórico dos frutos secos – nozes, avelãs, castanhas, amêndoas ou pistácios – é [já] um reconhecimento antigo que os cartagineses admitiam ou que serviam para a distinção das hierarquias sociais romanas em complemento à tipicidade da alimentação mediterrânica adoptada. E nestas contas fruteiras domesticadas, intento ainda uma referência à fruticultura mais bravia que além do valiosíssimo património genético que é, permitem um conjunto de sabores tão afrodisíacos que até o príncipe Lada Khan dispensaria os ensinamentos do poeta Kalyna Malla e do seu Ananga Ranga (…). Dos abrunhos bravos dos bosques do Alto Douro e da aguardente acerba que proporciona – das amoras de silva dos taludes e beiradas que com um pouco de água, uma pitada de cravinho moído e outra de canela em pó é capaz de dar uma excelente xaropada – dos arandos do Barroso que misturados em leite e requeijão ovelheiro dão um «leite azulado» – dos pilritos que quando bem maduros e acasalados com umas bagas de sabugo podem transformar-se numa graciosa compota – até às sorvas que já foram tradição de São Martinho (…).
Antes deste epílogo fruteiro…
faço como Tibério que findava sempre uma refeição com um melão, mesmo que fosse um melão verde apepinado, ou como os príncipes de Bagdad que na falta deles encomendavam-nos de muito longe, em caixas de chumbo com gelo e arreados de uvas e ameixas de Damasco. E não esqueço que a excelência das frutas é a sabedoria dos espíritos enamorados, das almas apaixonadas e dos corpos apetecidos. Na fruta está toda a poesia do mundo… Seguem-se os outros prazeres frutados…
O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico




