Retratos da nova emigração

Miguel Picaluga, da Caparica para Bruxelas

Miguel Picaluga nasceu há quase 30 anos na Costa da Caparica, mas passou parte da sua vida em Almada e em Lisboa, onde concluiu a licenciatura em Engenharia Informática, no Instituto Superior de Tecnologias Avançadas. Em janeiro de 2020, partiu para a Bélgica, para aquela que foi a sua primeira experiência a viver fora do país. Seis anos mais tarde, continua em Bruxelas, onde exerce a função de Application Analyst na Euroclear, uma empresa do ramo financeiro. Na altura, a vontade de viver novos desafios, o desejo de não se conformar e o apoio incondicional da família facilitaram a partida. À sua chegada a Bruxelas, tinha um contrato de trabalho e uma casa confortável à sua espera. E uma vontade enorme de começar uma vida completamente nova.
Nesta entrevista, partilha as razões que o levaram a deixar Portugal, os desafios da adaptação, a importância da família, o valor da comunidade portuguesa no estrangeiro e a forma como a experiência da emigração transformou a sua vida e a sua visão do futuro.

O que o levou a tomar a decisão de emigrar?

Sempre foi o meu sonho emigrar. A minha ideia passava mais pelos EUA, mas a vida escolheu Bruxelas como destino. E não me arrependo. Recebi uma mensagem no LinkedIn a convidar-me para uma entrevista com um salário surpreendente, para a ótica portuguesa. Convidaram-me para ir à empresa, em Bruxelas, fazer uma entrevista e o resto é história. Tudo aconteceu num espaço de três meses, portanto, julgo que foi algo rápido. Tive o máximo apoio da família. O meu pai até brincava: “Se for uma vigarice, visitaste Bruxelas; se for legítimo, arranjaste um trabalho excelente.” Felizmente, foi a segunda opção.

Que fatores em Portugal mais pesaram nessa decisão?

Desde a mentalidade de trabalho à qualidade de vida, passando pelo desejo de viver num país completamente desconhecido e sair da zona de conforto — tudo teve impacto na decisão de trabalhar fora de Portugal. Só peca por não ter acontecido mais cedo. Estar em Bruxelas é ter acesso a uma vertente política e progressista que não existe em Portugal. Além disso, viver a cerca de duas horas de comboio de vários países proporciona imensas oportunidades de conhecer novas culturas. Todo um mundo acessível. No entanto, por muito estranho que pareça, tecnologicamente Portugal está muito avançado em comparação com outros países da Europa Central.

Quais foram as maiores dificuldades de adaptação?

Grande parte das pessoas neste país fala inglês, portanto a barreira linguística não foi tão acentuada. Burocraticamente, funcionam anos-luz melhor do que Portugal. Culturalmente, são mais calmos, mais pacatos e, ao mesmo tempo, a alma da festa durante a noite. A solidão foi, sem dúvida, muito pesada nos primeiros dois anos. Apanhei o pico da COVID-19 e isso deitou-me bastante abaixo. Não desisti e, aqui estou eu, quase seis anos depois, feliz, com amigos e com uma namorada, que conheci cá. A vida dá voltas — às vezes vai abaixo antes de vir acima.
Não falo francês, mas estou a aprender.
No início foi muito desafiante. Depois conheci um dos meus melhores amigos — de quem vou ser padrinho de casamento — e ele criou um grupo de portugueses. Hoje contamos com mais de 1700 pessoas no grupo. Convivo maioritariamente com portugueses, mas também tenho alguns amigos de outros países, como Itália, Espanha, Ucrânia e Grécia.

Que estereótipos tinha sobre a Bélgica e descobriu que não eram verdade?

Que o país era uma “seca”. Por vezes, há tanta coisa a acontecer que é difícil ter tempo para tudo ao mesmo tempo. Bruxelas é um polo de eventos sociais, exposições, museus e festivais.

Já enfrentou situações de preconceito ou discriminação?

Não pertenço a uma minoria, portanto nunca senti qualquer tipo de discriminação ou preconceito.

Como é o seu dia a dia atualmente?

Acordar, trabalhar, ir ao ginásio, ir beber um copo ou estar com a minha namorada. Ao fim de semana, depende muito dos eventos, mas costumamos, se o tempo permitir, ir passear ou até jogar padel ou futebol.

Sente que é mais valorizado na Bélgica do que em Portugal?

Muito mais valorizado. Sentir que o meu contributo é ouvido e compreendido cria uma motivação extra no dia a dia. Tenho melhores condições de trabalho. O salário é substancialmente melhor, os horários são rigorosos — não há cá ficar até mais tarde. Dizem-me: “Amanhã também é dia.” E, se tenho de trabalhar até mais tarde, fazem questão de me dizer para registar essas horas adicionais.

O que mais o surpreendeu na Bélgica?

O mercado de trabalho na Bélgica é extremamente competitivo. Há sempre alguém melhor do que nós, e a diferença está na forma como demonstramos as nossas competências.

Como é viver longe da sua família e dos amigos de infância? O que significa “saudade” para si?

Acabamos por nos habituar. A distância não afetou as minhas relações com as pessoas que realmente fazem falta na minha vida. Quando as voltamos a encontrar, é sempre um momento bonito.
Saudade é um sentimento que ilustra a necessidade de reviver o que outrora sentimos, seja uma vivência com amigos, um momento em família, uma paisagem bonita ou ainda o cheiro do mar pela manhã, no trajeto até ao transporte. Que cheiro bonito! Queremos voltar a ser felizes no momento que guardamos na memória com muito carinho.

Volta regularmente a Portugal? O que sente quando regressa?

Vou a Portugal nos anos da minha mãe e no verão, que coincide com os anos do meu pai e do meu irmão. Também vou no Natal.
No início, sinto entusiasmo por rever as pessoas de quem mais gosto: família e amigos. Após alguns dias, se estou em casa dos meus pais, acabo por me cansar, porque Portugal já não é a minha casa.

Como vê Portugal agora, estando longe?

É um lugar maravilhoso para férias — porque ninguém foi feito para sobreviver. Portugal não mudou desde que saí, e isso é o mais preocupante.
Em Portugal vivia com os meus pais; aqui vivo sozinho. Tenho independência e liberdade para fazer o que quero. Consegui poupar, investir e crescer em diversos aspetos — algo que não seria possível em Portugal. Continua tudo igual, as oportunidades não são baseadas no mérito, mas sim na “cunha”. Para nos destacarmos, temos de abdicar da vida social. No meu país de origem, não teria uma oportunidade de fazer o que faço no estrangeiro com a mesma facilidade.

Sente que mudou como pessoa depois de emigrar?

Mudei drasticamente. Por vezes, nem me reconheço — no bom sentido. Passei pelos piores momentos da minha vida e, neste momento, vivo os melhores. Aprendi a amar-me, sozinho.

Que valores portugueses leva consigo no dia a dia?

O sentimento de comunidade e entreajuda. Tratar bem as pessoas como gostaríamos de ser tratados.

Sente-se mais português, mais europeu ou já com uma identidade “mista”?

Sinto-me 100% português, orgulhosamente. Não me sinto belga, porque não me identifico assim tanto com a cultura.

Sente que seria uma pessoa diferente se tivesse ficado em Portugal?

Sem dúvida. O crescimento pessoal que tive foi proporcionado pela Bélgica. Aprendi mais sobre mim num ano do que no resto da minha vida. Quem ambiciona mais, tem de sair de Portugal.

Que imagem têm os belgas dos portugueses?

Consideram-nos muito trabalhadores e afáveis.

Vê uma nova “geração de emigrantes portugueses” diferente das anteriores?

Vejo-os mais informados, mais preparados para o estrangeiro e a dominar cada vez mais o inglês. Os jovens de hoje têm ambição de ser mais, porque estão cansados de sobreviver e querem começar a viver. Os nossos avós também o fizeram pelas mesmas razões, mas estavam menos preparados academicamente.
Portugal não quer saber de quem vai para fora — só quer saber de quem está no país. Outrora tivemos um ministro que nos disse para emigrar; agora há benefícios fiscais para voltar.

Pondera regressar de forma definitiva? Em que condições o faria?

Não pondero de todo. Não há condições possíveis, na minha ótica, para o fazer. Só se um dos meus pais ficasse doente e precisasse da minha ajuda. Não me consigo ver a voltar para Portugal tão cedo. Existem benefícios fiscais para quem volta, mas mesmo assim não compensam.

Que conselhos daria a jovens portugueses que estão a pensar emigrar?

Emigrem. Planeiem bem como o fazer — o país pouco importa. Se há idade para isso, é agora. Não é fácil e não é para todos. Muitos sofrem com saudades da família, não se adaptam ao clima ou não gostam do país. Tenham a mente aberta, abracem a cultura e explorem. Arrisquem, porque ninguém o fará por vocês. Se estiverem prontos, arrisquem. A vida é demasiado curta para ficarmos presos no arrependimento.
Não tenham medo de arriscar. E se correr bem?

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