Obra de Capa
Nona experiência monalisante
Manuel Casimiro apropria-se da imagem estabelecida da história da arte, aqui da Mona Lisa, como nós nos apropriamos de uma ferramenta para determinado propósito utilitário. Só que em vez de a coordenar segundos os desígnios motores de um corpo exercitado numa determinada acção, acrescenta camadas de significado ao significado inicial. Digamos que a imagem casimiriana é uma ferramenta hipertrofiada, inutilizada no seu propósito funcional, para servir de albergue para novos incrementos re-criacionais. Criar de novo, criar outra vez, ou talvez, multiplicar sentidos no original, disponibilizando-os para se tornarem referenciáveis pela sua originalidade e criatividade. Ser original, não no seu sentido primordial, de encontrar o estrato mais antigo da matéria rochosa da imagem, mas ser original no sentido de engenhoso, de imaginativo. É nesta dupla vertente descritiva da palavra original que o artista se posiciona. Mas, em vez de estarmos a descrever sentidos intangíveis da imagem casimiriana, centremo-nos na anatomia real e concreta do seu corpo.
Repare-se na continuidade de entramados e redes de multiplicações de linhas sensoriais que perfazem a imagem monalisiana, estendendo-se a todos os recantos, tendo especial incidência enérgica no centro das operações da originalidade – o ponto negro ovoidal. Podemos até entender ser este um trabalho de mensagens químicas exploradas através de sinapses que percorrem o corpo da imagem, na transmissão e veiculação entre neurónios. Todo o corpo monalisiano parece ressentir o choque destas zonas activas de contacto, experimentando em si o poder comunicacional dinamizado entre pontos de convergência informativa que se vão movimentando num tecido visual multiforme. Do ovóide para os espaços da imagem, a sinapse casimiriana potencia novas discursividades pautadas pela originalidade.
Rodrigo Magalhães
O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico

Rodrigo Magalhães
Rodrigo Magalhães. Nasceu em 1993. Doutorado em História da Arte. Colaborador mensal no jornal As Artes Entre As Letras, colaborador da ArteCapital. Participa em revistas e catálogos de Arte e exerce trabalho de curadoria. Os interesses de investigação ancoram-se na História da Arte, nomeadamente na análise e historiografia de tendências, movimentos e desenvolvimentos estéticos da arte contemporânea, desdobrando-se consequentemente numa ramificação com outras vertentes artísticas como a literatura, o cinema, a música, dando expressão à capacidade polivalente da arte no período contemporâneo.






