Quedas e trambolhões

Todos nós em diferentes fases da vida, e por razões completamente distintas, tropeçámos ou sofremos quedas, com consequências muito diversas. Vamos então considerar alguns aspetos desta matéria, da maior importância no nosso ciclo de vida, como riscos, lesões, prevenção e recomendações. As quedas podem ter como consequências lesões mínimas, mas teremos de ter em conta que podem provocar graves lesões, como traumatismos cranianos e hemorragias cerebrais, fraturas múltiplas e mesmo a morte. Assim, apesar do risco de quedas estar ligado ao aumento da idade, particularmente a partir dos 65 anos, nomeadamente por perda de força, de equilíbrio e de flexibilidade, outros fatores terão de ser analisados. A maior parte das quedas acidentais acontecem em casa, o que nos obriga a avaliar desde logo as condições de segurança existentes, como a iluminação, até ao piso escorregadio ou à presença de tapetes que facilmente deslizem, passando por todo um conjunto de fatores e de obstáculos, perturbadores de uma circulação livre, desimpedida e segura. Comportamentos diários, aparentemente inofensivos, como uma incorreta e desadequada utilização de meias e ou de calçado, muitas vezes desvalorizada por uma inexata perceção de risco, pode estar na origem de uma queda com consequências muito graves, com lesões irreversíveis ou mesmo a morte. Assim, na segurança do ambiente doméstico, é essencial procurar potenciais riscos de queda e promover alterações para maior segurança. Tomemos como exemplos: retirar objetos, cabos e fios do chão em zonas de passagem; fixar tapetes soltos ou mesmo retirá-los; colocar corrimões em ambos os lados das escadas e pisos antiderrapantes para degraus de madeira; não usar meias; não usar chinelos abertos sem apoio de calcanhar, não usar sapatos com solas lisas e escorregadias ou de saltos altos; utilizar tapetes antiderrapantes no duche e barras de apoio ou mesmo um assento de banho; limpar de imediato líquidos do chão ou outros substancias derramadas; manter a casa bem iluminada; colocar luzes de presença mantendo uma iluminação mínima particularmente importante durante a noite, ou mesmo reconhecer o risco do uso decorativo de cortinados excessivamente compridos, são algumas das medidas que tornam a nossa casa mais segura, contribuindo para a prevenção da ocorrência de quedas.

Outras medidas deverão ser equacionadas e avaliadas de acordo com o grupo etário e às condições específicas de saúde existentes, nomeadamente no que concerne à necessidade de uma apropriada utilização de equipamentos de apoio na marcha como canadianas ou andarilhos até ao ajuste da altura da cama. Adaptar a casa à nossa realidade e às necessidades existentes é imprescindível na prevenção das quedas.
Quando falamos em prevenção, é também fundamental cuidar da nossa saúde em geral, e para tal, teremos de considerar alguns aspetos particulares e cruciais. A prática de atividade física regular, nomeadamente em programas de prevenção de quedas, com um foco no aumento da força dos membros inferiores, no equilíbrio, na estabilidade e na melhoria da mobilidade, na prevenção e no eventual tratamento da osteoporose, no controlo da acuidade visual e no da audição, numa medicação regulada e controlada, numa alimentação adequada ao grupo etário, entre outros fatores essenciais, considerando que as quedas são sempre multifatoriais. Nesta perspetiva, é mandatário referir que uma queda sem causa aparente, pode ser um sinal de alerta muito importante, que obriga a uma avaliação médica. Diagnósticos de patologias muito variadas de diferentes órgãos e sistemas terão de ser equacionados e poderão ser identificados.
Numa avaliação mais completa dos fatores de risco de quedas, é necessária uma clara identificação dos fatores intrínsecos, extrínsecos e situacionais ou ambientais, com o objetivo de reduzir o risco de quedas futuras e das suas complicações, considerando que cair uma vez significa que mais depressa se pode cair uma segunda vez. Promover pequenas mudanças de comportamentos definindo uma estratégia com uma abordagem multifatorial, significa uma menor probabilidade de queda e mais qualidade de vida.
Apesar de não ser o foco deste artigo, não posso deixar de mencionar as quedas provocadas em contexto de violência, numa perspetiva global e em particular de violência doméstica, que exigem uma abordagem específica e multidisciplinar, em que o compromisso no combate à violência promovendo uma cultura de não violência e de direitos humanos, deve ser um imperativo social, político e judicial.



