José Manuel da Costa Soares

Presidente da Fundação INATEL

© Descendências/Vera Bondar

José Manuel da Costa Soares não quer deixar uma INATEL apenas mais moderna.
Quer deixá-la mais próxima. Nos 90 anos da Fundação, o seu presidente coloca as pessoas no centro de uma estratégia que pretende conciliar sustentabilidade, inovação e tradição, sem transformar a modernização numa ruptura com a identidade da instituição. “A modernização só faz sentido se nos permitir estar ainda mais próximos”, afirma. É uma ideia que atravessa toda a conversa: da resposta ao envelhecimento e à solidão à necessidade de conquistar as novas gerações, passando pelo turismo social, pelo associativismo e pela presença da Fundação nos territórios. Engenheiro de formação, gestor e antigo autarca, José Manuel da Costa Soares define-se hoje como “humanista por convicção” e admite que, quando chegar a hora de deixar o cargo, aquilo que mais gostaria que permanecesse não seria o seu nome, mas as relações construídas, as pessoas aproximadas e uma Fundação preparada para o futuro sem perder a sua humanidade.

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Começou a sua vida profissional como engenheiro civil e acabou por construir um percurso profundamente ligado à gestão, à administração pública e ao serviço à comunidade. Quando olha para trás, sente que há alguma decisão profissional que, vista à distância, considere ter mudado verdadeiramente o rumo da sua vida?

Mais do que uma decisão isolada, diria que houve uma escolha que atravessou todo o meu percurso: colocar as pessoas no centro daquilo que faço. A engenharia deu-me método, rigor e capacidade de encontrar soluções; a gestão ensinou-me a decidir e a assumir responsabilidades; mas foi o serviço público que me mostrou que nenhuma decisão tem verdadeiro sentido se não tiver impacto positivo na vida das pessoas.
Aceitar responsabilidades autárquicas foi, seguramente, um momento determinante. Foi aí que percebi, de forma muito concreta, que gerir é também ouvir, estar presente, conhecer os problemas no terreno e construir soluções em conjunto. Essa aprendizagem acompanha-me até hoje e está profundamente presente na forma como encaro a Fundação INATEL.

Foi vereador e depois vice-presidente da Câmara Municipal de Paços de Ferreira durante muitos anos. O que é que a política local lhe ensinou sobre as pessoas que nenhuma escola de gestão ou de engenharia poderia ensinar? E que aprendizagem desse período continua hoje a influenciar a forma como toma decisões na INATEL?

Ensinou-me a ouvir. E parece uma coisa simples, mas não é. Na política local estamos muito próximos das pessoas. Encontramo-las na rua, nas associações, nas instituições, nos mais diversos momentos. E percebemos que, muitas vezes, antes de apresentarmos uma solução, temos de saber ouvir o problema.
Também aprendi que as relações de confiança levam tempo a construir. Não aparecem porque ocupamos determinado cargo.
Na INATEL procuro fazer exatamente isso: estar próximo. Gosto de ir aos territórios, falar com as pessoas, conhecer as instituições locais, perceber o que estão a fazer e onde podemos trabalhar em conjunto.
Eu acredito muito nisso: presença e proximidade. As boas parcerias começam quase sempre por boas relações humanas.

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Há uma frase no seu percurso que chama particularmente a atenção: “engenheiro de formação, gestor por opção e autarca por paixão”. Se tivesse de acrescentar hoje uma quarta dimensão a essa definição, depois de quase dois anos como presidente da INATEL, qual seria e porquê?

Talvez dissesse: humanista por convicção.
Porque, independentemente das funções que desempenhamos, acredito que o verdadeiro sentido do nosso trabalho está nas pessoas. Podemos gerir património, equipamentos, recursos financeiros ou grandes projetos, mas, no final, aquilo que permanece é a forma como conseguimos melhorar a vida das pessoas e fortalecer as comunidades.
É também isso que encontro na Fundação INATEL: uma instituição cuja história foi construída por pessoas e para pessoas.

Há uma pergunta que raramente se faz a alguém que ocupa um cargo importante: o que é que ainda o entusiasma? Depois de tantos anos de vida profissional, de responsabilidades públicas e de gestão, o que é capaz de lhe despertar genuinamente curiosidade, vontade de aprender ou vontade de começar de novo?

As pessoas continuam a entusiasmar-me. Entusiasma-me chegar a um território e perceber que podemos criar uma parceria que ainda não existia. Entusiasma-me ver uma coletividade manter viva uma tradição, acompanhar um projeto que combate o isolamento ou perceber que uma iniciativa da Fundação conseguiu proporcionar a alguém uma experiência que julgava já não ser possível viver. E continua a entusiasmar-me aprender. Quem acredita que já sabe tudo deixa, inevitavelmente, de compreender o mundo à sua volta.

A sua ligação à INATEL não começou agora: já tinha sido vice-presidente da Fundação entre 2012 e 2016. O que encontrou de diferente quando regressou à INATEL em 2024?

Encontrei naturalmente uma Fundação diferente, porque o país e a sociedade também mudaram. Novos desafios, novas formas de comunicar, novas exigências dos cidadãos e uma necessidade crescente de modernização e inovação.
Mas encontrei igualmente uma enorme vontade de fazer, conhecimento acumulado e um capital humano extraordinário.
A Fundação evoluiu, mas aquilo que considero mais importante permaneceu: a capacidade de estar próxima das pessoas e de chegar a territórios e comunidades onde, muitas vezes, outras respostas não chegam.

O que encontrou que lhe deu a sensação de que a essência da instituição permanecia intacta?

Precisamente as pessoas.
A essência da INATEL está nas pessoas que diariamente trabalham na Fundação, mas também nos seus associados, nas coletividades, nos atletas, nos agentes culturais, nas comunidades e nas inúmeras instituições com quem estabelecemos relações de proximidade.
Podemos modernizar estruturas, processos e formas de comunicação. Devemos fazê-lo. Mas existe algo que não podemos perder: esta ideia de que a INATEL é uma instituição feita de pessoas para pessoas.
É essa identidade que atravessou gerações e que temos a responsabilidade de preservar.

Quando aceitou voltar à INATEL, desta vez como presidente, qual foi o principal desafio que colocou a si próprio? Era modernizar uma instituição histórica, recuperar a proximidade com as pessoas, reforçar a sustentabilidade financeira, dar-lhe uma nova projeção nacional ou havia uma ambição ainda mais profunda?

Não separaria modernização, sustentabilidade, proximidade e projeção nacional. Todas essas dimensões fazem parte do mesmo desafio.
A minha ambição é termos uma Fundação moderna e sustentável, mas profundamente fiel à sua missão social e à sua identidade humanista.
Quero uma INATEL ainda mais presente no território, capaz de ouvir, estabelecer parcerias e criar sinergias. Uma Fundação que não espere apenas que as pessoas venham até ela, mas que vá ao encontro das pessoas. Porque a proximidade não pode ser apenas uma intenção institucional. Tem de ser uma prática diária.

© Descendências/Vera Bondar
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A sua nomeação aconteceu num momento politicamente diferente daquele em que tinha chegado à INATEL como vice-presidente. Como encara hoje a relação entre uma instituição como a Fundação INATEL e o poder político?

Uma instituição como a Fundação INATEL deve saber relacionar-se institucionalmente com os diferentes poderes públicos, preservando sempre a sua missão, identidade e autonomia. A Fundação atravessou diferentes períodos da história portuguesa precisamente porque a sua razão de existir ultrapassa ciclos políticos.
O nosso compromisso é com as pessoas, com as comunidades, com o acesso à cultura, ao desporto, ao lazer, ao turismo social e com a promoção do bem-estar e da coesão territorial. É essa missão que deve orientar a nossa atuação.

A INATEL chegou aos 90 anos sem perder uma característica muito particular: atravessou diferentes regimes políticos, diferentes gerações e profundas transformações sociais. Na sua opinião, qual é o segredo da sobrevivência da INATEL ao longo de 90 anos? E o que poderia colocar essa longevidade em risco?

A capacidade de se adaptar sem perder a sua identidade. A Fundação soube acompanhar as transformações da sociedade portuguesa mantendo uma relação muito particular de proximidade com as pessoas e com os territórios.
O maior risco seria precisamente perder essa ligação. Uma instituição pode modernizar-se tecnologicamente, melhorar processos e tornar-se mais eficiente — e deve fazê-lo —, mas se deixar de ouvir as pessoas e de compreender os territórios começa a perder a sua razão de existir.
A modernização só faz sentido se nos permitir estar ainda mais próximos.

A celebração dos 90 anos é muito mais do que uma comemoração. Depois de olhar para nove décadas de história, que legado recebeu e que responsabilidade sente de entregar à próxima geração?

Recebemos um património material importante, mas recebemos sobretudo um património humano e social extraordinário.
São 90 anos de histórias, relações, coletividades, práticas culturais e desportivas, turismo social, associativismo e presença em todo o território.
A nossa responsabilidade é entregar uma Fundação preparada para o futuro, sustentável, moderna e inovadora, mas que continue a reconhecer-se nos valores que estiveram na sua origem. Gostaria que as próximas gerações recebessem uma INATEL ainda mais aberta, inclusiva e próxima.

Existe uma tensão interessante na identidade da INATEL: por um lado, é uma instituição profundamente ligada à memória e às tradições portuguesas; por outro, precisa de se adaptar a uma sociedade cada vez mais digital, individualizada e exigente. Como se moderniza uma instituição sem destruir aquilo que a torna única?

Modernizar não significa apagar o passado. Significa dar-lhe futuro. A tecnologia, a digitalização e a inovação devem ser instrumentos ao serviço das pessoas, nunca barreiras adicionais. Temos públicos muito diferentes, com idades, necessidades e formas de relacionamento distintas. Temos de saber comunicar com um jovem através dos meios que ele utiliza sem deixar para trás uma pessoa mais velha que valoriza o contacto presencial. Modernizar é precisamente conseguir incluir ambos.

Existe uma palavra que aparece muitas vezes quando se fala da INATEL: “tradição”. Mas tradição pode ser património ou pode ser resistência à mudança. Como distingue uma coisa da outra?

A tradição está viva quando consegue dialogar com o presente. Aquilo que é tradição transporta memória, identidade e pertença. A resistência à mudança surge quando preservamos uma determinada forma de fazer apenas porque “sempre foi assim”, mesmo quando deixou de responder às necessidades das pessoas.
Devemos preservar aquilo que nos identifica, mas ter coragem para transformar aquilo que nos limita.

A missão da INATEL nasceu associada ao direito ao lazer e ao bem-estar. Hoje, porém, falamos de solidão, envelhecimento, saúde mental, desigualdade, isolamento territorial e dificuldade de acesso à cultura. Acha que a missão da INATEL se tornou, paradoxalmente, ainda mais necessária? Com o Programa Longevidade+, a INATEL está a assumir uma intervenção ativa na forma como Portugal envelhece?

Sem dúvida. Vivemos numa sociedade tecnologicamente mais ligada e, paradoxalmente, muitas vezes humanamente mais distante.
Quando promovemos uma atividade cultural, desportiva, turística ou social, não estamos apenas a proporcionar lazer. Estamos muitas vezes a criar relações, a combater a solidão, a devolver sentimento de pertença e a proporcionar momentos de partilha. É aqui que a dimensão humanista da Fundação ganha uma relevância renovada.
O envelhecimento não pode ser visto apenas como um problema. É uma realidade demográfica que exige novas respostas, mas também uma oportunidade para valorizarmos conhecimento, experiência e participação social.
O Longevidade+ representa precisamente essa visão: promover um envelhecimento ativo, participado e com qualidade de vida.
Não queremos apenas acrescentar anos à vida. Queremos contribuir para acrescentar vida aos anos, promovendo autonomia, participação, relações sociais e bem-estar.

Até onde considera que deve ir uma instituição como a INATEL na resposta às desigualdades sociais? Deve concentrar-se naquilo que constitui a sua missão histórica ou deve assumir responsabilidades cada vez maiores em áreas como envelhecimento, saúde mental, habitação ou combate ao isolamento?

A Fundação deve ser ambiciosa na sua missão, mas também responsável na definição do seu papel.
Não podemos nem devemos substituir outras instituições com competências específicas. Podemos, contudo, ser parceiros ativos na construção de respostas.
É aqui que acredito profundamente nas sinergias. Nenhuma instituição consegue responder sozinha aos grandes desafios sociais.
A INATEL pode colocar a sua rede, experiência, equipamentos, conhecimento e presença territorial ao serviço de respostas construídas em parceria.

A INATEL tem uma rede hoteleira e uma atividade turística que precisam de competir num mercado altamente profissionalizado, mas tem simultaneamente uma missão social e preços que não podem ser determinados apenas pela lógica comercial. Como se equilibra esta equação? Existe um momento em que a sustentabilidade económica pode entrar em conflito com a missão social?

A sustentabilidade económica não é contrária à missão social; é uma condição para conseguirmos garanti-la no futuro. Temos de gerir com rigor, eficiência e responsabilidade. Mas a nossa avaliação não pode ser feita exclusivamente através de resultados financeiros. Há um retorno social que também deve ser considerado: quantas pessoas alcançámos, que territórios envolvemos, que oportunidades criámos, que situações de isolamento ajudámos a combater.
A Fundação tem de ser economicamente sustentável precisamente para continuar a cumprir a sua missão social.

A INATEL continua também muito ligada ao associativismo, às coletividades, ao desporto amador e à cultura popular. No entanto, as novas gerações relacionam-se de maneira muito diferente com o associativismo tradicional. Como se conquista um jovem que talvez nunca tenha ouvido falar da INATEL ou que não se reveja numa ideia de instituição construída há várias décadas?

Primeiro, ouvindo-o. Não podemos pedir às novas gerações que se adaptem à instituição. Também a instituição tem de saber aproximar-se delas.
Temos de compreender os seus interesses, linguagens, preocupações e formas de participação. E mostrar que associativismo, cultura, desporto, inclusão e participação comunitária não são conceitos do passado.
Talvez mudem os formatos, mas a necessidade humana de pertencer, participar e construir em conjunto continua profundamente atual.

Tem sob sua responsabilidade áreas muito diferentes – finanças, património, recursos humanos, inovação social, comunicação, sistemas de informação, contratação e atividade comercial. Qual é hoje a área da Fundação mais exigente?

Seria difícil escolher apenas uma porque todas estão interligadas. O verdadeiro desafio está precisamente em conseguir que áreas muito diferentes trabalhem com uma visão comum. Finanças, património, recursos humanos, inovação social, comunicação, sistemas de informação, contratação, turismo, cultura ou desporto não podem funcionar como ilhas. A força de uma organização está na capacidade de criar sinergias internas e transformar diferentes competências num propósito comum.

Se tivesse de escolher apenas três resultados concretos pelos quais gostaria que este seu mandato fosse avaliado quando chegar ao fim, quais seriam? Não em termos de intenções ou de projetos anunciados, mas em resultados que permitam dizer: “durante estes três anos, a INATEL mudou efetivamente isto”.

Primeiro, uma Fundação mais sustentável e preparada para enfrentar o futuro.
Segundo, uma Fundação mais próxima das pessoas e dos territórios, reforçando a sua presença nacional e a relação com instituições, autarquias, coletividades e comunidades locais.
Terceiro, uma Fundação capaz de inovar sem perder a sua identidade, atraindo novas gerações e dando novas respostas aos desafios sociais do país.
Se conseguirmos avançar nestas três dimensões — sustentabilidade, proximidade e inovação — teremos deixado uma Fundação mais forte.

Quando entregar o cargo, daqui a alguns anos, o que gostaria que dissessem de José Manuel da Costa Soares? Que modernizou a INATEL? Que a tornou mais sustentável? Que a aproximou dos jovens e das comunidades? Que reforçou a sua missão social? Ou, simplesmente, que conseguiu preservar aquilo que há 90 anos faz com que os portugueses reconheçam a INATEL como uma instituição que lhes pertence?

Talvez uma coisa muito simples. Soube ouvir as necessidades. Ouviu as pessoas, os trabalhadores da Fundação, as instituições, as coletividades e esteve presente nos territórios. Naturalmente gostaria que dissessem que deixámos uma Fundação mais sustentável, mais moderna e mais preparada para o futuro.
Mas os cargos são passageiros. Aquilo que fica são as relações que construímos, as pessoas que conseguimos aproximar e aquilo que deixamos feito. Se no final puder olhar para trás e sentir que deixámos uma Fundação mais ambiciosa, e forte sem perder a sua humanidade, ou seja, próxima de “Todos” ficarei satisfeito. Parafraseando o Papa Francisco gostaria de deixar uma fundação inclusiva para “todos, todos, todos”.
Porque, no fundo, é isto que acredito que a INATEL deve continuar a ser:
uma instituição feita de pessoas para pessoas. E uma instituição que não observa os territórios à distância. Está presente.

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