Obra de Capa

11.º Tentativa

Toda a grande arte deve olhar para si admirada e maravilhada pela sua perfeição e sublimenatureza. Pelo menos assim pensam alguns, enredados numa teia constritiva de soluçõesinterpretativas demasiado sérias. Ora, a definição casimiriana da Mona Lisa, pelo menosassim a interpretamos, prende-se com a desaceleração do sublime a favor de umamanifestação mais plausível dos limites irónicos da perfeição. O artista, sabendo que só seatinge a perfeição, retirando-lho o carácter imaculado, incute na sua produção conceptualuma carga impressionante de uma vontade inusitada de explorar o “já acontecido” de forma amanobrá-lo numa exposição ambígua que oscila entre criação e reprodução, ou entreoriginalidade e cópia. Há uma série intituladaas cópias inexactasem que Casimiro vai aindamais longe na sua conduta paradoxal, ao se copiar a si mesmo, quase como se o artista sedistribuísse em múltiploseusque de repente entram em contacto com uma fonte imagética,necessitada de ser reproduzida.
Mas até nisto oartista multiplicadoé desajeitado, inapto para cometer o crime perfeito semdeixar marcas, visto que a cópia (que até se pode assemelhar ao “original” numa observaçãomuito superficial) deixa transparecer gestos e formas inexactas que contraiam os desígniospropostos. Até na cópia há espaço para o desvio ou a bifurcação em territórios ignotos.Inabilidade na reprodução ou abertura que desencadeia fissuras na semelhança e exactidão?Não só o obstinado Proust persegue o tempo perdido, pois Casimiro tenta também, porintermédio de uma jocosa e lúdica virtude de interpretar, retraçar uma impossível origem daimagem. Será possível desvelar a origem de uma obra de arte, principalmente quando elaentra em cena já contaminada/inoculada pelo ovóide? Esta série referente à Mona Lisa nãopermite que haja dissipação do tempo, pois Casimiro vai-lhe acrescentando facetas distintas,desenrolando em ilimitada metamorfose, a condição impossível de copiar uma simples cópia.


Rodrigo Magalhães

O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico


Rodrigo Magalhães

Rodrigo Magalhães. Nasceu em 1993. Doutorado em História da Arte. Colaborador mensal no jornal  As Artes Entre As Letras, colaborador da ArteCapital. Participa em revistas e catálogos de Arte e exerce trabalho de curadoria. Os interesses de investigação ancoram-se na História da Arte, nomeadamente na análise e historiografia de tendências, movimentos e desenvolvimentos estéticos da arte contemporânea, desdobrando-se consequentemente numa ramificação com outras vertentes artísticas como a literatura, o cinema, a música, dando expressão à capacidade polivalente da arte no período contemporâneo.



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