Retratos da nova emigração
Francisca Armelim de Espinho para Londres

Natural de Espinho, Francisca Armelim tem 24 anos e decidiu partir para o Reino Unido, há seis anos atrás, movida por uma paixão: o teatro musical. Ao contrário de muitos jovens que emigram em busca de melhores condições de trabalho, Francisca atravessou fronteiras para investir na sua formação artística e lutar por um sonho.
Viveu inicialmente em Portsmouth, onde frequentou um curso superior de Teatro Musical, mudando-se posteriormente para Londres, onde trabalha atualmente como educadora num infantário. Entre as responsabilidades profissionais e a vontade de concretizar as suas ambições artísticas, continua a procurar novas oportunidades no mundo das artes e do espetáculo.
De todas as pessoas entrevistadas até agora, Francisca é, sem dúvida, um dos exemplos mais marcantes de coragem e determinação: a de quem, ainda muito jovem, teve a ousadia de deixar o seu país para perseguir aquilo que verdadeiramente a apaixona.
O que o/a levou a tomar a decisão de emigrar?
Desde muito nova que senti um desejo de sair da minha zona de conforto e fez todo o sentido para mim mudar de país para fazer a minha licenciatura. Porém, a maior razão para me ter mudado para Inglaterra foi o meu sonho de estudar Teatro Musical. Na altura não havia qualquer curso superior em Portugal que fosse especificamente de Teatro Musical só existiam de música e de teatro separadamente. A cultura de teatro de Inglaterra e o amor aos Musicais foi algo que me atraiu imenso e a decisão foi óbvia para mim.
Que fatores em Portugal mais pesaram nessa decisão?
Portugal, para mim, mesmo tendo uma cultura riquíssima, parecia-me um pouco desligado do mundo artístico, principalmente em termos de artes performativas enquanto a Inglaterra, em contraste ,parecia um paraíso criativo. Claro que agora vejo que há um mundo inteiro cheio de arte em Portugal, só se tem de saber onde procurar. A mentalidade mais conservadora, principalmente numa cidade relativamente pequena como aquela onde eu cresci, foi também um grande fator.
O que procurava no estrangeiro que sentia não existir em Portugal?
Eu sinto que o que estava à procura não era algo concreto mas sim a oportunidade de recomeçar e poder ser 100% autêntica. Muita gente se encontra na faculdade, mas eu queria entrar sem expectativas e num ambiente completamente novo.
Como foi a sua chegada? Quais foram as maiores dificuldades de adaptação?
Eu fiz a minha mudança em setembro de 2020 no meio do Covid-19, das quarentenas, quando tudo estava fechado e as aulas eram online. Foi uma altura muito difícil e solitária; estava num país novo, sozinha e sem muitas oportunidades para conhecer pessoas.

Que estereótipos tinha sobre o país e descobriu que não eram verdade?
O maior preconceito que eu tinha era o das pessoas serem mais frias e antipáticas. De facto, há uma diferença cultural mas, acabei por perceber que o povo inglês é mais simpático do que eu pensava.
Que estereótipos tinha sobre o país e descobriu que não eram verdade?
De tempos a tempos, ouço comentários pejorativos em relação à minha nacionalidade, principalmente no contexto profissional. No mundo do teatro, também, o meu sotaque constitui um enorme obstáculo.
Como é o seu dia a dia atualmente?
Atualmente, durante a semana trabalho num infantário e à noite passo tempo com os meus amigos, a fazer os meus hobbies, a trabalhar em projetos criativos ou a descansar. Os meus fim de semanas tornaram-se sagrados, passo-os sempre com o meu namorado, a explorar Londres, fazer caminhadas pela natureza inglesa ou a divertirmo-nos com os nossos amigos.
A distância afetou as suas relações pessoais ou familiares?
Em termos de amizades, sim, perdi um pouco de contacto com algumas pessoas mas, as minhas amizades mais próximas ficaram talvez ainda mais fortes ; valorizo imenso as raras vezes em que estamos juntos. Com a minha família há sempre saudade mas, a distância criou até uma dinâmica mais saudável e voltar a vê-la é muito mais especial.

Como é o seu dia a dia atualmente?
Sinto-me valorizada de maneiras diferentes nos dois sítios.
Há algo em que considera que Portugal está mais avançado do que o país onde reside agora?
Pelo que eu tenho observado e pelas histórias que ouço dos meus amigos ingleses, a educação secundária no Reino Unido não me parece tão positiva como a que eu tive em Portugal. Pelo que já ouvi a educação pública no UK é bastante rígida e fria, o que cria um ambiente pesado para os alunos, algo que eu nunca senti em Portugal.
O que mais a desilude quando pensa no seu país?
O crescimento do movimento de extrema direita em Portugal é algo que me entristece profundamente, especialmente considerando que o 25 de abril aconteceu há pouco mais de 50 anos. Este fenómeno também está presente no Reino Unido mas é algo que não me choca tanto como em Portugal.
Que aspetos positivos encontra em Portugal e que acha que deviam ser mais valorizados?
Viver em Inglaterra mostrou-me o quão importante é ter uma comunidade. Quando estava em Portugal nunca me apercebi o quanto dependemos uns dos outros. Seja um vizinho, amigo, primo ou primo do primo alguém está sempre disposto a ajudar-te, essa cultura é muito mais difícil de criar aqui no UK.
Volta regularmente a Portugal?
Sempre que posso volto a Portugal, pelo menos uma vez no inverno e uma no verão. Faz-me bem voltar a casa, pôr os pés na Terra, ver o meu mar e estar com a minha família e os meus amigos.

O que significa “saudade” para si?
Saudade para mim é mais do que sentir falta das pessoas ou da terra. É uma vontade enorme de voltar a uma casa que já não existe. Uma casa feita de memórias, experiências e rotinas que já não fazem sentido. Uma nostalgia por algo que nunca mais vou ter mas que carrego comigo para o resto da vida.
Considera a emigração como solução temporária ou definitiva?
Estou feliz com a minha decisão de vir para Inglaterra e começar a minha vida adulta aqui. Por enquanto, não me vejo a sair do Reino Unido, mas, claro, a certa altura, gostaria de voltar a Portugal.
Vê uma nova “geração de emigrantes portugueses” diferente das anteriores?
Integro uma bolha social de imigrantes em Inglaterra , composta por pessoas criativas, inteligentes e trabalhadoras, jovens com algo a dizer. Por isso sinto que a minha resposta não pode ser objetiva.
Se tivesse de enviar uma mensagem aos jovens que vivem e trabalham em Portugal, qual seria?
Diria aos jovens portugueses em Portugal para se valorizarem e continuarem a lutar por mais e melhores oportunidades. Mas diria, também, para não se esquecerem de aproveitar a beleza dos nosso país, a sua gastronomia deliciosa e as suas gentes autênticas .



