Élise Racicot
Embaixadora do Canadá em Portugal

Desde Montreal até Lisboa, passando por Teerão e várias províncias do Brasil, Élise Racicot construiu uma carreira marcada por aventura, rigor diplomático e um profundo sentido de serviço. Hoje, como Embaixadora do Canadá em Portugal, não se limita a representar os interesses do seu país: aproxima pessoas, valoriza a diáspora, fortalece laços culturais e económicos, e traduz a diplomacia em experiências humanas concretas. Nesta conversa exclusiva, Élise Racicot partilha memórias, inspirações e reflexões sobre o papel do Canadá e de Portugal no mundo contemporâneo, revelando, ao mesmo tempo, uma visão pessoal e apaixonada sobre os lugares, as pessoas e os pequenos gestos que transformam relações internacionais em histórias de proximidade.

Ao longo de mais de duas décadas de carreira diplomática, atravessou geografias, culturas e contextos políticos profundamente distintos. Antes de entrarmos no seu percurso institucional, gostava de começar pelo plano mais pessoal: quem é Élise Racicot enquanto cidadã do mundo, que valores herdados da sua formação no Québec a acompanham até hoje e de que forma essa identidade pessoal molda a forma como representa o Canadá no exterior?
numa instituição de ensino e a minha avó era educadora. Venho, por isso, de uma família profundamente ligada à educação. Uma família de classe média, simples, oriunda de uma região periférica, perto de Montreal, numa pequena cidade de cariz mais rural.
Desde muito cedo fui uma criança extremamente curiosa. Sempre li muito, sempre tive vontade de aprender e interesse pelo mundo, e comecei a aprender várias línguas ainda jovem. O inglês, por exemplo, não era uma língua falada na minha região, mas rapidamente senti necessidade de o aprender. Creio que essa curiosidade permanente e essa abertura ao conhecimento têm origem nos valores que me foram transmitidos por uma família de educadores.
A minha família sempre foi composta por pessoas muito simples, que dão importância àquilo que é verdadeiramente essencial e que nos torna humanos. Isso permitiu-me, ao longo da minha carreira, relacionar-me com pessoas de todos os contextos e origens com naturalidade e respeito, sem barreiras artificiais.
Recordo-me de que, no meu primeiro posto no Irão, fazia frequentemente caminhadas nas montanhas, onde encontrava comunidades nómadas. Sentava-me com elas, tomava chá, conversávamos sobre a vida. Mais tarde, no Brasil, lembro-me de visitar comunidades e de falar com as pessoas, partilhando também a minha própria história familiar. A minha mãe vem de uma família muito numerosa: a minha avó teve cerca de dez filhos antes dos 36 anos e faleceu muito jovem. Algumas das minhas tias, com apenas oito anos, tiveram de abandonar a escola para cuidar dos irmãos. É uma história comum a muitas pessoas no mundo, mas talvez menos frequente nos meios da alta diplomacia ou das elites económicas.
Essa realidade ajuda-me a manter sempre os pés bem assentes no chão. Inspiro-me muito nessa simplicidade, na clareza das prioridades, e procuro alinhar aquilo que penso, aquilo que digo e aquilo que faço, para sentir que sou verdadeira e autêntica em todas as circunstâncias.
Gosto profundamente do meu trabalho e sinto um enorme orgulho em representar o Canadá e os interesses do meu país. Tenho um forte sentido de serviço, diria mesmo que se trata de uma vocação. A carreira diplomática implica muitos sacrifícios: estar longe da família, mudar frequentemente de país, adaptar-se constantemente a novos contextos. É exigente para quem a exerce e para quem nos rodeia. Mas é precisamente essa vocação que me faz sentir que, através do meu trabalho, posso contribuir para melhorar a situação do meu país, das pessoas e, de alguma forma, do mundo e das relações entre países.


Ingressou no Ministério dos Negócios Estrangeiros e do Comércio Internacional do Canadá em 2002, numa altura em que a diplomacia enfrentava já profundas transformações. Quando olha para esse momento inicial da sua carreira, que ambições e expectativas tinha e em que medida a diplomacia real, vivida no terreno, correspondeu ou contrariou essas ideias iniciais?
Entrei nesta carreira quase como quem embarca numa grande aventura: para conhecer melhor o mundo, aprender outras línguas, encontrar pessoas diferentes e, sobretudo, compreender aquilo que nos une enquanto seres humanos, apesar das nossas diferenças. Creio que, ao longo do caminho, consegui cumprir esse objetivo.
Naturalmente, o percurso não é sempre perfeito. Existem momentos difíceis e escolhas duras a fazer, que muitas vezes têm um impacto significativo na vida familiar. A isso juntam-se as limitações inerentes ao funcionamento de qualquer governo. No Canadá, temos uma visão muito clara da separação de poderes, não apenas entre justiça, legislativo e executivo, mas também no papel distinto da administração pública.
Na administração pública canadiana, existe um princípio fundamental que nos orienta: “fearless advice and loyal implementation”. Ou seja, o nosso dever é dizer a verdade com toda a competência, rigor e visão que o cargo exige, aconselhando os decisores políticos de forma honesta e fundamentada. Esse é, creio, o melhor contributo que podemos dar enquanto servidores públicos.
No entanto, quem é eleito pelo público são os responsáveis políticos, não os administradores públicos. Se acreditamos verdadeiramente na democracia, temos de aceitar que a decisão final pertence ao executivo. Os ministros podem ou não seguir as recomendações que lhes são apresentadas e, uma vez tomada a decisão, cabe-nos implementá-la de forma leal e responsável. Nem sempre esse resultado está totalmente alinhado com a nossa visão pessoal, e isso pode ser, por vezes, desafiante.
Ainda assim, acredito que manter os valores de que falava – procurar alinhar aquilo que pensamos, aquilo que dizemos e aquilo que fazemos – e sentir que estamos em paz connosco próprios ajuda muito a atravessar esses momentos mais exigentes. Essa coerência interna é, para mim, essencial para enfrentar as dificuldades e continuar a exercer a função com integridade.
A sua primeira colocação internacional levou-a ao Irão, onde se tornou a primeira mulher a exercer funções como comissária de comércio do Canadá. Para além do simbolismo histórico desse feito, que desafios humanos, culturais e profissionais marcaram essa missão e de que forma essa experiência precoce moldou a sua abordagem à liderança, à negociação e à representação institucional?
Foi uma decisão que não estava propriamente planeada. Na altura, eu tinha começado a aprender russo e ambicionava um posto naquela região. No entanto, não havia vagas disponíveis para a Rússia e existia uma colocação no Irão que, na verdade, ninguém queria assumir.
Como sempre tive um espírito aventureiro e uma grande vontade de conhecer o mundo, sobretudo lugares que me eram completamente desconhecidos, decidi avançar. Quando cheguei, não falava a língua, o que representou um enorme desafio. Tive de aprender rapidamente, viajei muito pelo país – creio que visitei cerca de vinte províncias – e fui descobrindo uma realidade que me surpreendeu profundamente. Tal como acontece com muitas pessoas, eu tinha uma imagem pré-concebida do país, mas a realidade revelou-se muito diferente daquilo que imaginava.
Durante esse período, tive de usar hijab, como exigia o governo. Era uma imposição formal, mas as pessoas encontravam formas quase desafiantes de lidar com essa obrigação, deixando o cabelo mais visível, por exemplo, numa tentativa de manter algum controlo e identidade dentro de uma situação imperfeita. Era uma forma subtil de resistência e de afirmação pessoal.
Apesar das restrições, vivi experiências absolutamente marcantes. Tive aulas de hip hop num espaço quase clandestino, com um código secreto para entrar. Fui convidada para casamentos realizados em zonas industriais, onde os pais das noivas retiravam todas as máquinas para transformar o espaço num local de celebração escondido, onde as pessoas podiam dançar, beber e onde as mulheres podiam estar sem hijab. Eram momentos de enorme intensidade humana e liberdade vivida nos interstícios do sistema.
Essa experiência ensinou-me o quanto, muitas vezes, temos uma visão superficial da realidade dos outros. O que mais me marcou foi perceber como, no fundo, as pessoas são iguais em todo o lado. O que desejam é ser felizes, viver em liberdade, ter saúde, garantir educação para os filhos e viver em paz. Desde muito cedo, tomei consciência de que aquilo que sabemos, ou julgamos saber, sobre uma realidade pode estar muito distante da verdade vivida no terreno. Sempre me importei mais com essa verdade do que com a camada mais oficial, polida e distante das relações diplomáticas internacionais.
Tive também a enorme sorte de contar, desde muito cedo na minha carreira, com uma mentora extraordinária, alguém de quem gosto profundamente, que me incentivou a aceitar este desafio no Irão. Nunca me arrependi. Essa experiência deu-me uma outra visão do mundo, muito mais complexa e realista. Tudo o que vivi ali continua a ter impacto na forma como leio a atualidade internacional, seja na relação com o Médio Oriente, com a China, com a Rússia ou nas questões energéticas. Mais de duas décadas depois, essas dinâmicas continuam a fazer parte central da realidade global.
No seu percurso, assumiu também responsabilidades na sede do ministério em áreas tão diversas como a diversificação das exportações de pequenas e médias empresas, as alterações climáticas, o financiamento para o desenvolvimento sustentável e as relações intergovernamentais. Como se articula esta visão transversal das políticas públicas na prática diplomática diária?
Muitos desses temas continuam, aliás, no centro daquilo que fazemos hoje em diplomacia. A minha última experiência na sede do nosso Ministério esteve precisamente ligada à criação de um programa de apoio às pequenas e médias empresas para a diversificação de mercados. Trata-se de uma agenda que permanece totalmente актуada. O Governo do Canadá tem como objetivo duplicar, nos próximos dez anos, as exportações para países que não os Estados Unidos e, em paralelo, atrair investimento estrangeiro de forma ambiciosa e estruturada. Essa estratégia continua a ser uma prioridade clara. Vivemos num mundo cada vez mais multipolar, marcado por uma crescente competição entre grandes potências. Nesse contexto, países como o Canadá, Portugal e outros que acreditam profundamente no sistema multilateral, no primado do direito e na existência de regras previsíveis para o comércio internacional tornam-se, paradoxalmente, mais vulneráveis. Uma das formas de mitigar essa vulnerabilidade passa precisamente por desenvolver relações sólidas, mas também diversificadas, com parceiros de confiança.
No caso canadiano, o nosso tecido económico é composto, em grande medida, por pequenas e médias empresas. Muitas delas têm dificuldade em imaginar-se a exportar para mercados que não sejam os Estados Unidos. No entanto, essa diversificação é possível. Quando existe uma parceria sólida com um país como Portugal, que oferece uma porta de entrada estratégica para empresas canadianas que pretendem operar no mercado europeu, torna-se mais claro que essa transição pode ser feita com sucesso.
Ao mesmo tempo, assistimos a transformações profundas em sectores-chave. O sector energético está a evoluir rapidamente para soluções baseadas em energias renováveis e até áreas tradicionalmente mais conservadoras, como a defesa, passaram a integrar preocupações relacionadas com o impacto climático. Curiosamente, no meu primeiro posto, ainda antes do Irão, trabalhei com créditos de carbono, numa altura em que este tema era pouco conhecido. Rapidamente percebi a importância de atribuir um valor financeiro às questões ambientais, porque, no final, elas têm sempre um custo real. O sector privado é muito pragmático nesse sentido: identifica os custos associados e adapta-se. Hoje estamos, sem dúvida, num patamar de maior maturidade, mas é evidente que ainda há muito trabalho a fazer.
No domínio das relações intergovernamentais, tive também a oportunidade de trabalhar com a província do Québec, através de um intercâmbio que me permitiu participar na chamada diplomacia provincial, ou paradiplomacia. Foi uma experiência extremamente enriquecedora, porque me mostrou que as relações internacionais não são feitas apenas entre Estados. São feitas por pessoas, por cidades, por empresas, por organizações da sociedade civil. Existe todo um ecossistema de relações internacionais para além da diplomacia formal e tradicional, e compreender esse ecossistema alarga significativamente o nosso campo de ação.
Esse contacto mais próximo com as províncias e territórios deu-me também uma visão mais pragmática da diplomacia. Percebi a importância de reforçar o entendimento interprovincial para facilitar o comércio interno, remover barreiras desnecessárias e promover a mobilidade das pessoas. Essa experiência ajudou-me a olhar para a diplomacia não apenas como um exercício institucional, mas como uma ferramenta concreta para tornar as relações económicas, sociais e humanas mais fluidas e eficazes.




Desde que assumiu funções de Embaixadora do Canadá em Portugal, tem tido contacto direto com a realidade política, social e cultural portuguesa, bem como com a sua forma própria de estar na Europa e no Atlântico. Que características de Portugal, enquanto país, sociedade e parceiro internacional, mais a surpreenderam positivamente e de que forma essas especificidades influenciam a sua abordagem diplomática no contexto português?
A visão que tinha de Portugal antes de aqui chegar era a de um país do sul da Europa, de língua latina e de tradição católica. No entanto, aquilo que fui descobrindo, pelo menos na minha leitura pessoal, é que Portugal é, acima de tudo, um país atlântico. Um país que olha para o mar e que, de certa forma, tem as costas voltadas para a Europa. Existe um compromisso profundo com o projeto europeu e com as instituições da União Europeia, mas muito antes do conceito moderno de Europa, Portugal já se posicionava à beira do Atlântico, com o olhar voltado para o oceano.
Portugal tem ainda uma outra característica que considero particularmente fascinante. É um país europeu, mas através da Madeira tem também uma dimensão africana e, através dos Açores uma ligação direta à América do Norte. É, por isso, um país com uma identidade ancorada em três continentes, construída ao longo de séculos. Para além disso, mantém relações milenares com vários países, estabelecidas muito antes da formação da maioria dos Estados europeus contemporâneos. Trata-se de uma singularidade rara, que me marcou profundamente e que ajudou a orientar o meu olhar sobre a relação entre o Canadá e Portugal.
Essa perceção influenciou também a forma como defini as prioridades da minha ação diplomática em Portugal. Hoje, existem vários pilares que estruturam essa abordagem, mas diria que o mais importante são as pessoas. O Canadá acolhe uma diáspora portuguesa muito ativa social, económica e politicamente. Sempre que visito os Açores e pergunto a uma sala cheia de alunos quem tem família no Canadá, praticamente todos levantam a mão. De certa forma, quase todos os portugueses têm um familiar, ainda que distante, ou alguém próximo que vive ou já viveu no Canadá. Atualmente, cerca de meio milhão de portugueses residem no meu país, representando um capital humano extraordinário, que devemos valorizar e mobilizar para reforçar cada vez mais os laços bilaterais.
O oceano que nos separa é, paradoxalmente, o mesmo que nos une. É um espaço que nos faz sentir ligados há muito tempo e onde partilhamos interesses e responsabilidades comuns. Tanto Portugal como o Canadá têm um forte compromisso com a preservação dos oceanos e com práticas responsáveis, seja na pesca, na mineração ou na conservação marinha. Não é por acaso que ambos os países surgem frequentemente entre aqueles que mais se empenham nestas questões a nível internacional.
Um outro pilar fundamental da relação é a segurança, assente em valores comuns de paz, estabilidade e cooperação. São estes três eixos – as pessoas, o oceano e a segurança – que mais animam o meu dia a dia em Portugal, que orientam o meu foco enquanto Embaixadora e que, confesso, talvez não tivesse antecipado com tanta clareza antes de chegar ao país.
Portugal é frequentemente descrito como um país de dimensão média, mas com uma capacidade de influência que ultrapassa o seu peso geográfico, seja através das suas comunidades, da CPLP ou da sua presença ativa em organizações multilaterais. Como avalia o papel estratégico de Portugal no sistema internacional e de que forma o Canadá reconhece e valoriza essa projeção singular?
Portugal, pela multiplicidade de relações de longo prazo que construiu ao longo da sua história, pelo profundo entendimento de diferentes espaços geográficos e por uma leitura histórica muito própria desses territórios, desenvolveu uma relação particular com os países de língua comum. A sua experiência colonial seguiu um percurso distinto do de muitos outros países colonizadores, o que hoje se reflete numa relação geralmente mais positiva e menos marcada por tensões com os antigos territórios colonizados. Em outros espaços linguísticos multirregionais, observamos por vezes relações mais difíceis entre antigos colonizadores e ex-colónias, algo que, no caso português, tende a assumir contornos diferentes.
Creio que Portugal teve, de certa forma, uma sorte histórica ao encontrar um caminho que permitiu a libertação dos povos e a construção de relações baseadas num diálogo continuado. Essa trajetória contribuiu para que o país consiga hoje manter boas relações com praticamente todo o mundo. É profundamente europeísta, mas ao mesmo tempo desenvolve relações sólidas com a Ásia, em alguns casos até mais fortes do que com determinados parceiros europeus. É europeu, mas também inequivocamente atlântico, mantendo laços particularmente estreitos com países como o Canadá, os Estados Unidos ou o Reino Unido.
Essa capacidade de transitar entre diferentes espaços geográficos, políticos e culturais confere a Portugal um papel muito especial no sistema internacional. Existe, em muitos contextos, a perceção de que, quando Portugal está à mesa, o diálogo é facilitado, as pessoas são respeitadas e as diferentes vozes são escutadas. Essa credibilidade, assente numa diplomacia discreta, consistente e humanista, é uma lição extremamente relevante para o mundo atual.
Não é por acaso que Canadá e Portugal partilham frequentemente posições semelhantes em matérias multilaterais. Em fóruns como as Nações Unidas, quando um dos países apresenta resoluções relacionadas com direitos humanos, proteção dos oceanos ou outras grandes causas globais, é comum que procurem apoiar-se mutuamente e atuar lado a lado como proponentes. Essa convergência reflete não apenas interesses comuns, mas também uma visão partilhada do multilateralismo como instrumento essencial para um mundo mais justo e previsível.
A relação entre Canadá e Portugal tem vindo a ganhar densidade em áreas como economia, ciência, inovação e sustentabilidade. Que balanço faz do estado atual das relações bilaterais e quais considera serem hoje os principais desafios e oportunidades para elevar esta parceria a um patamar ainda mais estruturado e estratégico?
Vejo, em várias áreas, uma parceria muito forte e genuinamente interessante para ambos os países. Já referi a importância da diáspora, mas identifico também um enorme potencial no setor do turismo. Existe uma vontade crescente, por parte dos canadianos, de conhecerem Portugal de forma mais profunda, para lá da capital, descobrindo outras regiões, outras paisagens e outras histórias.
Nas áreas da defesa, da segurança e da economia, estamos a desenvolver um trabalho significativo, embora exista ainda margem clara para fazermos mais. No plano multilateral, estamos muito alinhados e já cooperamos intensamente, mas este é precisamente um dos domínios onde temos de redobrar esforços, porque o multilateralismo está hoje sob pressão devido às dinâmicas geopolíticas globais.
E como podemos reforçar essa cooperação? Através das pessoas. No final de contas, são as pessoas que constroem as relações, que fazem o comércio acontecer, que criam pontes e aproximam países. Os Estados podem, e devem, criar estruturas, acordos e enquadramentos institucionais, mas aquilo que verdadeiramente dá vida a uma relação bilateral são as pessoas que a vivem no dia-a-dia.
Temos uma boa relação bilateral, sólida e consistente, mas há espaço para a aprofundar. Vejo uma oportunidade muito clara no atual reposicionamento geoeconómico e estratégico que tanto a Europa como o Canadá estão a fazer, e que nos permite estarmos mais próximos do que nunca. Dispomos hoje de acordos de comércio livre, instrumentos de cooperação na área da inovação, da defesa e da segurança, e estamos a alargar e a aprofundar todos esses mecanismos.
Tudo isso é fundamental. Mas, no fim, tudo depende das pessoas. E acredito que não teremos dificuldades nesse caminho, porque contamos com uma diáspora portuguesa no Canadá extremamente dinâmica, empenhada e desejosa de ver esta relação crescer. Esse capital humano é, sem dúvida, um dos nossos instrumentos mais valiosos para o futuro da parceria entre Portugal e o Canadá.
As comunidades portuguesas no Canadá constituem uma das diásporas mais antigas e enraizadas, com um contributo significativo para a economia, cultura e vida cívica canadianas. De que forma esta presença histórica influencia a relação bilateral e como pode a diplomacia contemporânea valorizar ainda mais este capital humano e cultural?
Hoje, a situação da diáspora portuguesa no Canadá encontra-se numa fase muito diferente daquela que conhecemos há algumas décadas. Os primeiros portugueses que emigraram para o Canadá procuravam, acima de tudo, uma vida melhor, muitas vezes enfrentando grandes dificuldades, sacrifícios e condições muito exigentes.
Atualmente, os filhos e os netos desses primeiros emigrantes beneficiam de uma realidade profundamente distinta. Têm acesso à educação, capacidade para criar e liderar as suas próprias empresas e uma presença cada vez mais ativa na vida cívica e política do país. Esta nova geração de luso-canadianos dispõe de ferramentas que não existiam no passado e está particularmente bem posicionada para valorizar os laços entre os nossos países e contribuir de forma concreta para o aprofundamento da relação bilateral.
Vemos isso refletido de forma muito clara na presença de figuras de relevo na vida pública canadiana. Um exemplo é Ana Bailão, que foi vice-presidente da Câmara de Toronto e que atualmente lidera uma nova agência dedicada à criação de habitação no Canadá. Temos também quatro membros do Parlamento canadiano de origem luso-canadiana, todos nascidos em Portugal, que demonstram uma vontade muito forte de ver a relação entre Portugal e o Canadá cada vez mais próxima e mais estruturada.
Acredito, por isso, que estamos num momento verdadeiramente fulcral para o aprofundamento das relações entre os nossos dois países. Um momento em que a maturidade da diáspora, o seu envolvimento cívico e a sua capacidade de influência criam condições únicas para dar um novo impulso a esta parceria.
No plano económico, o Acordo Económico e Comercial Global entre o Canadá e a União Europeia abriu novas oportunidades, mas também novos desafios. Como avalia o impacto concreto do CETA nas relações Canadá-Portugal e que sectores considera ainda subexplorados neste quadro de cooperação?
A nossa relação bilateral poderia ser ainda mais robusta do que é atualmente. Considero que, apesar dos progressos alcançados, continua a ser relativamente pequena em termos de dimensão global, embora seja importante sublinhar que quadruplicou desde a implementação do Acordo Económico e Comercial Global entre o Canadá e a União Europeia (CETA).
Existem vários setores com um potencial significativo de crescimento, nomeadamente nas áreas da tecnologia, da aviação, do espaço, da segurança e do mar. São domínios onde há margem para fazer muito mais e onde existe, claramente, vontade política e económica de aprofundar a cooperação e de transformar esse potencial em resultados concretos.
Para além disso, a mobilidade de pessoas assume um papel absolutamente central nesta relação. Cada vez mais, as economias de ambos os países dependem do trabalho humano, do conhecimento e dos serviços, o que torna essencial garantir condições que facilitem a circulação de pessoas, de talentos e de competências entre os dois lados do Atlântico.
É certo que, em todo o mundo, existem pressões crescentes sobre os sistemas migratórios, muitas vezes alimentadas por dinâmicas políticas internas e por forças que procuram restringir a mobilidade. No entanto, entre o Canadá e Portugal, partimos de uma base muito diferente: temos laços históricos sólidos, uma confiança mútua construída ao longo do tempo e instrumentos como o CETA, cujos benefícios já são evidentes. Por isso, acredito que devemos não apenas preservar, mas ampliar este fluxo humano e esta mobilidade, como parte essencial do fortalecimento da nossa relação bilateral.




Portugal tem-se afirmado como um polo emergente de inovação, tecnologia e empreendedorismo, ao mesmo tempo que o Canadá é reconhecido pela sua capacidade científica e tecnológica. Que sinergias estratégicas identifica entre os dois ecossistemas e que papel pode a diplomacia desempenhar na aproximação entre universidades, centros de investigação e empresas?
Este ano realizámos uma missão ao Canadá com várias universidades portuguesas, com o objetivo de aprofundar relações no âmbito do Canadian Bureau of International Education (CBIE), que organiza anualmente um dos principais eventos internacionais na área da educação e cooperação académica. Esta iniciativa permitiu reforçar pontes entre instituições de ensino superior dos dois países e identificar novas oportunidades de colaboração estruturada.
Paralelamente, contamos com o envolvimento de empresas como a Empowered Startups, associada à Câmara de Comércio, que tem desempenhado um papel muito relevante no apoio a faculdades, territórios e municípios, em diferentes regiões, no desenvolvimento de programas que promovem simultaneamente a coesão territorial e a atração de investimento orientado para a inovação.
O Canadá integra programas internacionais como o Eureka e o Horizon, o que nos permite desenvolver projetos conjuntos na área da inovação. Este ano, através de um aviso específico no valor de 10 milhões de euros, exclusivamente dedicado ao Canadá, a ANI trabalhou em articulação com o National Research Council of Canada para lançar chamadas de projetos na área aeroespacial. Os resultados serão conhecidos em breve, mas já sabemos que vários consórcios apresentaram propostas altamente estruturantes e de grande ambição.
Existem também empresas canadianas ligadas à inovação na cadeia de valor das baterias que estão ativamente envolvidas em projetos em Portugal. De forma mais ampla, há múltiplas áreas em que dispomos de capacidades claramente complementares e de uma vontade comum de assumir um papel relevante nas cadeias de valor globais.
Na área da biotecnologia, por exemplo, estão em curso colaborações entre várias universidades canadianas e instituições portuguesas, com o objetivo de desenvolver competências específicas com aplicações tanto na área da saúde como na da defesa. Este conjunto alargado de iniciativas demonstra a amplitude do que podemos construir em conjunto e evidencia como esta complementaridade de visões, conhecimentos e prioridades estratégicas é uma base sólida para aprofundar ainda mais a cooperação entre os nossos países.
A segurança internacional e a estabilidade democrática tornaram-se temas centrais da agenda global. Como avalia a convergência de posições entre Canadá e Portugal no seio da NATO e de outras organizações multilaterais, e que desafios comuns identifica num mundo cada vez mais fragmentado?
Temos muito em comum nesse domínio. Tanto Portugal como o Canadá são países que, fundamentalmente, acreditam no multilateralismo e na importância de que as decisões globais não fiquem centradas apenas em dois ou três países. É essencial que todos tenham um espaço para concordar, dialogar e construir uma visão comum. Ambos somos membros fundadores da NATO e reconhecemos a importância de organizações como esta: sozinhos, os nossos países são relativamente pequenos, mas juntos, enquanto grupo numeroso, conseguimos ter influência e força no cenário internacional.
Quando entrei para o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Canadá, acreditávamos, como dizia Francis Fukuyama na época, que a história tinha chegado ao fim no sentido de uma evolução linear para a democracia liberal. No entanto, rapidamente se percebeu que não foi isso que aconteceu. Alguns governos continuaram a adotar práticas autocráticas e a não partilhar a mesma visão de mundo que países como Portugal e Canadá. Voltámos a assistir a guerras e tensões que, à época, não esperávamos. Por isso, o nosso compromisso com uma segurança comum, baseada numa visão de paz, desenvolvimento e respeito pelo direito internacional, é hoje mais importante e estratégico do que nunca para ambos os países.
Existem, obviamente, novos desafios. As ameaças são cada vez mais diversas e complexas, e o conceito de defesa e segurança expandiu-se enormemente. Esta dinâmica global obriga-nos a manter um compromisso constante e a realinhar algumas áreas, sendo o comércio uma delas. Portugal, tal como outros países europeus, sente fortemente o impacto das relações económicas com os Estados Unidos, sendo particularmente sensível a alterações, como a imposição de tarifas ou restrições comerciais.
Neste contexto, é fundamental encontrarmos formas de trabalhar de forma ainda mais coordenada. Para o Canadá, cooperar com um país como Portugal é extremamente positivo, e o mesmo se aplica no sentido inverso. Este alinhamento estratégico fortalece tanto a segurança como a prosperidade de ambos os países, reafirmando a importância de parcerias sólidas baseadas em valores e interesses comuns.
Num tempo em que a diplomacia se faz também através da sociedade civil, da cultura e do diálogo intercultural, que importância atribui à diplomacia cultural como instrumento de aproximação entre povos e que iniciativas considera mais eficazes nesse domínio?
Acho que esta é, na verdade, uma das formas mais simples e eficazes de fortalecer a ligação cultural entre os nossos países. Hoje, com cerca de 800 mil canadianos a viajar para Portugal todos os anos e meio milhão de portugueses a viver no Canadá, essa conexão torna-se muito tangível e concreta.
A experiência pessoal de estar no terreno, ouvir o sotaque, sentar-se numa tasca, experimentar a comida, observar o quotidiano das pessoas e conhecer a cultura de forma direta é, na minha opinião, a maneira mais impactante de criar laços. É uma experiência muito pessoal, que muitas vezes tem mais efeito do que qualquer iniciativa institucional ou formal.
A gastronomia é, naturalmente, um dos instrumentos mais simples, mas também mais poderosos, nesta aproximação. Especialmente em cidades como Montreal e Toronto, onde existem grandes comunidades luso-canadianas, todos conhecem e apreciam o pastel de nata, o frango com piri-piri, os vinhos portugueses, incluindo o vinho verde. Este contacto direto com a cultura alimentar portuguesa funciona muitas vezes como o primeiro passo de uma viagem pessoal ao país, despertando interesse e curiosidade e aproximando as pessoas de uma forma muito concreta e emocional.
Além disso, o perfil do turista canadiano é também bastante apreciado em Portugal. Tenho ouvido relatos de portugueses que valorizam a forma como os visitantes do Canadá exploram o país: não se limitam aos circuitos turísticos óbvios, procuram alojamentos locais, frequentam tasquinhas, conhecem as pessoas e tentam falar algumas palavras em português. Essa atitude dá ao povo português um vislumbre de quem é o canadiano e de como a experiência de viajar pode ser diferente e enriquecedora.
A língua, naturalmente, continua a ser um fator importante. O Canadá é observador da CPLP, e gosto de brincar com os meus colegas embaixadores dizendo que há mais lusófonos no Canadá do que em alguns países da própria comunidade. Temos cada vez mais pessoas a aprender português, a estudar fora ou a manter contacto com a língua, o que constitui um potencial extraordinário para expandir a nossa relação em todas as áreas – económica, diplomática e cultural.
Para além da agenda institucional, a vida de uma embaixadora constrói-se também através de encontros humanos, gestos simbólicos e experiências culturais que ajudam a compreender um país para lá dos relatórios oficiais. Desde que assumiu esta missão em Portugal, que momentos, lugares ou pessoas mais a marcaram profundamente e de que forma esses encontros contribuíram para a sua leitura mais íntima da sociedade portuguesa?
Tantos… é difícil escolher. A nível pessoal, conheci muita gente incrível. Não consigo destacar uma ou outra pessoa em particular, porque crio laços fortes, quase automaticamente, com os portugueses que encontro. Há tantas pessoas maravilhosas e inspiradoras que é impossível selecionar apenas algumas.
Tenho uma excelente relação com o Presidente da República, a quem admiro profundamente. Ele apoiou ativamente a causa das mulheres embaixadoras, um grupo do qual tive o privilégio de ser presidente, e esse apoio foi determinante em diversos eventos que realizámos. É uma pessoa fantástica, muito simples, mas com uma cultura e sensibilidade impressionantes.
Também admiro figuras como a Isabel Capeloa Gil, reitora da Universidade Católica e presidente das Universidades Católicas no Mundo. É uma pessoa incansável e admirável, que defende com firmeza a presença de mais mulheres na academia e no mundo académico. A sua dedicação e visão são, sem dúvida, uma inspiração.
Em termos de lugares, os Açores ocupam um espaço muito especial na minha memória. Como canadiana, sinto que este arquipélago tem um significado particular: uma natureza poderosa que me faz sentir simultaneamente em Portugal e quase em casa. É um lugar pelo qual estou verdadeiramente apaixonada.
No continente, por ser uma pessoa que aprecia a natureza e a floresta, tenho um carinho especial por locais como a Serra da Lousã, a Serra da Malcata, Monsanto ou Buçaco. Percorrer essas florestas, descobrir pequenos vilarejos milenares e os encantadores vilarejos de xisto é uma experiência mágica. São lugares que quero continuar a visitar e que me proporcionam uma ligação profunda à essência de Portugal.
Que sensibilidade, preparação e visão considera essenciais para um futuro Embaixador do Canadá em Portugal, tendo em conta a especificidade da relação bilateral, a dimensão comunitária e o lugar singular que Portugal ocupa no espaço europeu e lusófono?
Diria que a qualidade mais importante é a capacidade de ser humilde e próximo das pessoas. Imagino que qualquer pessoa que venha depois de mim trará também novas perspetivas e contributos para a relação, e é assim que se vai construindo uma parceria cada vez mais completa e complexa. Mas, acima de tudo, acho essencial ter gosto em desenvolver relações, em conhecer o outro, os portugueses e as portuguesas, valorizar o que já foi construído e sentir a motivação de continuar a construir ainda mais.
Projetando o olhar para o futuro, que visão estratégica e humana gostaria de ver plenamente consolidada na relação entre Canadá e Portugal na próxima década, não apenas ao nível institucional, mas também entre sociedades, comunidades e gerações? E que legado pessoal ambiciona deixar enquanto Embaixadora junto das pessoas, das instituições e dos laços que ajudou a construir durante esta missão?
Espero que Portugal desenvolva ainda mais carinho pelo Canadá, e que o Canadá sinta igualmente um apreço crescente por Portugal. Se conseguir contribuir para isso, ficarei muito feliz, sabendo que este sentimento irá gerar repercussões positivas e duradouras de ambos os lados.
Para mim, seria uma grande satisfação ver o Canadá reconhecer plenamente a importância de uma parceria sólida com Portugal, e, simultaneamente, que Portugal compreenda o valor estratégico e humano desta relação com o Canadá dentro do contexto transatlântico. Esse reconhecimento mútuo é, sem dúvida, um dos maiores legados que um embaixador pode aspirar deixar.





















