Falamos uma língua bastarda (e é deliciosa)
Parte II

As línguas ficam mais pobres com estas misturas todas? Claro que não! A ideia de pureza linguística é como todas as outras ideias de pureza: extraordinariamente sedutora, mas perigosa, daquele perigo mau, que às vezes até acaba em tragédia. É uma mania que não ajuda ninguém e só nos deixa enervados uns com os outros.
Por isso, ó gente que sonha com uma língua impoluta, sem misturas, sempre no mesmo registo, sem palavrões, sem expressões populares, sem um ou outro absurdo, sem redundâncias, sem palavras que querem dizer a mesma coisa, sem estrangeirismos, sem pronúncias diferentes: percebam duma vez por todas que o português, como todas as línguas, é um fenómeno natural, um sistema complexo e desordenado, que podemos estudar, usar, moldar para nosso proveito – mas que dificilmente podemos controlar. Podemos (isso sim) conhecer e até amar esse bicho bastardo. Cada um de nós pode ainda – aliás, deve – falar e escrever cada vez melhor a língua que nos calhou na rifa. É bastarda, mas é nossa.
Sim, temos de ter uma norma-padrão, o português seleccionado que serve para as situações formais e académicas – e é a base da escrita, essencial à civilização. Quanto mais pessoas a conhecerem, mais pessoas têm acesso à discussão pública. A norma-padrão é um instrumento essencial – mas não se convençam que é sagrada e, acima de tudo, não tentem reduzi-la ao mínimo, não tentem cortá-la até ficar sem vida. A norma pode ser mais ou menos rica – e quanto mais pura, mais pobre será. Sim: mesmo à norma, quando a conhecemos de trás para a frente, fica bem dar-lhe um pouco de sangue, esticar um pouco a corda. Arriscar. Misturar. Sem medo. Querem protegê-la? Escrevam mais, leiam mais, trabalhem!
Não desatem a querer cortar à língua palavras e expressões por esta ou aquela razão, deixando a norma mais pobre e mais distante da língua de todos. É verdade, admito: isto vem muito a propósito do estardalhaço que li por causa duma simples palavra numa notícia – muita gente se queixou porque o jornalista, em jeito de brincadeira, tinha usado a palavra «deslargar». Fiquei pasmado com o exagero das reacções. Uma pequena brincadeira, um pequeno risco que um jornalista decidiu correr – e vem a correr a brigada da língua, cheia de discursos inflamados a acusar os falantes da língua de todas as patifarias deste mundo. São os discursos habituais, que se viram contra a própria língua com a desculpa de a proteger. Lembrei-me logo das reacções de alguns amigos meus quando ouvem a expressão «o comer», que é popular, claro está, mas é tão portuguesa como «o saber», «o olhar» e todos esses verbos saborosos que transformamos em nomes. Nunca deixo de ficar espantado com o ódio que algumas pessoas reservam para as palavras dos outros.
Quando vejo tanta gente a atacar os outros por falarem português, tanta gente a atarefar-se a mudar a língua para a tornar mais lógica, mais pura, mais pequena, penso: quem salvará a língua de quem quer salvar a língua?
O que vale é que a língua é mesmo um animal selvagem: lá dá uns coices e continua, matreira e bastarda, saborosa todos os dias. E nós, com ela nos lábios, lá escrevemos, conversamos e damos beijos em bom português – e esquecemos esses tontos que a querem prender à força. Porque a língua é bastarda, sim senhor – e deliciosa para quem a souber ouvir.
O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico




