O lobo já não é o vilão

Lembro-me de ouvir, em criança, que era melhor não entrar sozinho no monte. Havia sempre alguém que conhecia alguém que tinha visto um lobo. Nunca percebi se esse lobo existia realmente ou se fazia parte daquela pedagogia antiga com que os adultos mantinham as crianças perto de casa. O certo é que resultava. Bastava pronunciar a palavra e a imaginação fazia o resto.
Os anos passaram. Descobri que o lobo era um animal tímido, desconfiado da presença humana e muito mais ameaçado por nós do que nós por ele. Percebi também que as florestas desapareceram mais depressa do que os lobos. Talvez seja por isso que um pequeno projeto editorial brasileiro, chamado Fábulas Verdes, me tenha chamado a atenção. Não porque reescreva contos tradicionais, pois isso faz-se desde que os contos existem, mas porque muda apenas uma coisa: o lugar onde colocamos o medo.
Na nova versão de Capuchinho Vermelho, a menina encontra um lobo ferido. A floresta onde caminha não é o cenário do perigo. É o lugar onde o perigo já passou. Houve um grande incêndio. A floresta ficou destruída. O animal, que durante séculos ocupou o papel de vilão, surge agora como uma vítima entre tantas outras. Embora aparente ser uma mudança discreta, o simples facto de se deslocar a raíz do medo é suficiente para que toda a história se transforme.

Importa salientar que, durante gerações, ensinámos as crianças a recear a floresta e todos os seus perigos. Todavia, nunca lhes ensinámos a recear quem a destrói. Talvez porque os contos nasceram numa época em que os grandes predadores ainda tinham quatro patas. Os de hoje trabalham com máquinas.
Continuado a nossa viagem pelos restantes livros, todos seguem o mesmo caminho. Em Branca de Neve e os Sete Anões, a rivalidade entre a madrasta e a princesa perde importância perante a poluição causada pela exploração mineira. Tal como na versão original, os sete anões continuam a escavar, mas já não conseguimos olhar para eles com a mesma inocência. Pela primeira vez somos impelidos a perguntar o que retiram da montanha e o que deixam para trás. Também A Cigarra e a Formiga troca a velha moral do trabalho incessante por outra pergunta, talvez mais incómoda: trabalhar para quê, se o resultado é destruir aquilo de que todos dependemos?

Há uma ideia transversal que prepassa toda a obra: a moral deu lugar à inteligência. Os autores perceberam que as crianças não aprendem através do medo. Aprendem através da empatia. E perceberam outra coisa ainda mais rara: que a floresta brasileira não é a floresta portuguesa; nem a tundra russa; nem a savana africana. Cada edição adapta os animais, as árvores e os problemas ao lugar onde será lida. Aquilo que à primeira vista pode parecer um detalhe editorial, é uma forma muito séria de respeito. Porque ninguém vive “no planeta”. Vivemos num vale. Numa aldeia. À beira de um rio. É sempre aí que a crise climática ganha nome.
Enquanto lia estas histórias, dei por mim a pensar que talvez também os nossos contos populares merecessem uma segunda leitura. Quantas lendas portuguesas continuam a ensinar-nos a temer a serra, a noite ou os animais, quando o maior risco, hoje, raramente vem da natureza? Talvez um dia alguém reescreva essas histórias. Ou talvez nem seja preciso reescrevê-las. Talvez baste relê-las à luz dos tempos em que vivemos.
Os contos de fadas sempre serviram para ensinar alguma coisa. Apenas mudaram as lições. O lobo continua na floresta. Mas já não é ele quem mete mais medo. Há muito que os verdadeiros predadores aprenderam outra linguagem. Não uivam. Falam de desenvolvimento, de crescimento, de progresso. E, talvez por isso, sejam tão difíceis de reconhecer.

O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico




