Obra de Capa

Sétima experiência monalisante

É interessante termos mencionado o trabalho do açougueiro como que de certo modo comparado ao do artista, pois, enquanto um vai recortando pedaços e manipulando o objecto, o outro, acrescenta pedaços estranhos à composição primordial. Se a carne da imagem é transfigurada pelo artista soberano, manejando-a a seu bel-prazer e de acordo com a sua disposição momentânea, esta variação da Mona Lisa repercute o trabalho de desmembramento ou de evisceração da imagem. Daí a sanguinolência, a ferocidade salpicada de manchas, tinturas sanguíneas que vão escorrendo da imagem, quase como a metáfora perfeita do trabalho de operação cirúrgica. Há também estranhas passagens cromáticas alaranjadas ou tangerinas que se associam numa dualidade com o carmesim saturado, para não deixar que o vermelho choque o bom gosto do observador. Mas que estranha coligação de forças, o trabalho de carniceiro com o trabalho de artista. Se ainda estivéssemos a falar de um escultor…

E, no entanto, quão bela afigura-se-nos a Mona Lisa encoberta por esta pigmentação colorada, que faria embevecer um Edgar Allan Poe ou estimularia um Arthur Conan Doyle. Pois é neste encalço, misterioso-terrorífico ou detectivesco que devemos orientar a nossa pesquisa investigatória, para tentarmos perceber melhor os desígnios casimirianos de acção. Sabemos da predileção do artista para a destituição do carácter sagrado e intocável da imagem, por isso, podemos deduzir a existência de uma propensão, ou melhor, de uma inclinação congénita para fazer dela uma sala de operações, instituída com o propósito, de dela fazer renascer a variabilidade no objecto invariável. Aquilo que podemos observar nesta sétima experiência Monalisante, prende-se somente com o acto violento, mas necessário, de submeter a imagem à operação cirúrgica plástica.


Rodrigo Magalhães

O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico


Rodrigo Magalhães

Rodrigo Magalhães. Nasceu em 1993. Doutorado em História da Arte. Colaborador mensal no jornal  As Artes Entre As Letras, colaborador da ArteCapital. Participa em revistas e catálogos de Arte e exerce trabalho de curadoria. Os interesses de investigação ancoram-se na História da Arte, nomeadamente na análise e historiografia de tendências, movimentos e desenvolvimentos estéticos da arte contemporânea, desdobrando-se consequentemente numa ramificação com outras vertentes artísticas como a literatura, o cinema, a música, dando expressão à capacidade polivalente da arte no período contemporâneo.



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