Obra de Capa
Exercício 5 monalisante:
Centremos as nossas atenções para uma particularidade da filosofia de Hegel, desenvolvida na sua Wissenschaft der Logik (Ciência da Lógica), em que o filósofo tentava explicar os conflitos da história da filosofia entre o não-ser e o ser, numa mediação que os englobaria numa transição a que ele apelidou de aufhebung. Esta polissémica palavra contém em si aspectos contraditórios que possibilitam revelar as múltiplas dimensões facetadas da realidade. Por aqui, podemos abordar a monalisa casimiriana como um exercício simbólico de aufhebung em três significados distintos.
O último sentido prende-se com a ascensão de significado para um plano de elevação (höhe ebene) em que a imagem primordial (Mona Lisa com o ovóide) ao ter sido cancelada na sua originalidade, ou na sua formatação inicial, foi elevada pela metamorfose de um plano ascensional, até a uma configuração inusitada de diferenças. Estas cores salpicadas, quase pontilhadas que desvirtuam o retrato primeiro, preservam, contudo, a sua original imagem como base perene. Como consequência, origem e mutação, nascimento e crescimento são movimentos de preservação/anulação/transformação (aufhebung) que Manuel Casimiro experimenta a partir da Mona Lisa.
A primeira constatação da palavra incide no sentido de preservação (aufbewahren), ou seja, uma dimensão de guardar o significado manifesto de algo ou de alguma coisa que necessita de ser mantida numa mesma identidade. Ora, estes exercícios casimirianos preservam sempre a inicial configuração da relação da Mona Lisa com o ovóide, daquilo que o artista pretende sempre revelar como sentido impreterível. Por muito que haja transformações ou metamorfoses no plano de representação, este casal figurativo ir-se-á manter sempre, ora mais camuflado, ora mais explícito.
O segundo grau interpretativo prende-se com a noção de cessar, de interromper (aufhören), ou seja, trata-se de um suspender ou terminar a continuidade até então mantida. Neste sentido, a obra casimiriana inverte a marcha do significado habitual, impondo à sua configuração uma saturante panóplia cromática, para exponenciar uma paragem no sentido, despoletando novas interpretações e tentadoras leituras, possibilitando o terceiro ponto que se segue.
Rodrigo Magalhães
O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico

Rodrigo Magalhães
Rodrigo Magalhães. Nasceu em 1993. Doutorado em História da Arte. Colaborador mensal no jornal As Artes Entre As Letras, colaborador da ArteCapital. Participa em revistas e catálogos de Arte e exerce trabalho de curadoria. Os interesses de investigação ancoram-se na História da Arte, nomeadamente na análise e historiografia de tendências, movimentos e desenvolvimentos estéticos da arte contemporânea, desdobrando-se consequentemente numa ramificação com outras vertentes artísticas como a literatura, o cinema, a música, dando expressão à capacidade polivalente da arte no período contemporâneo.






