Qual é a língua mais antiga do mundo?

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Parte II

O basco mudou – e dividiu-se, tal como o latim. O basco falado em família tem diferenças tão marcadas como as diferenças entre as várias línguas latinas.
O basco oficial e ensinado nas escolas é o basco batua, uma norma – um registo escrito e formal e uma linguagem literária – baseada nos dialectos centrais do basco, mas com algumas contribuições dos outros dialectos. Percebe-se que os bascos tenham criado uma língua unificada – seria mais difícil proteger e promover o basco se este fosse uma colecção de línguas incompreensíveis entre si.
Há também o caso do grego. Mantém o mesmo nome desde a Antiguidade – não é óbvio que é mais antigo do que o português?
Na verdade, um grego de hoje em dia terá tantas ou mais dificuldades em ler um texto em grego antigo do que um português em ler um texto latino – o processo de afastamento no tempo é semelhante àquele de que falámos dois capítulos atrás, na nossa viagem ao Brasil.
Houve, na verdade, desde o século XIX até aos anos 70 do século passado, uma tentativa de aproximar o grego moderno do grego antigo – tentou-se impor uma língua literária artificial com algumas formas clássicas. Essa língua artificial chama-se katharevousa, em contraste com o grego demótico, ou seja, o grego da rua que é hoje oficial.
As lutas foram terríveis – houve mortos! A língua grega tem o seu quê de sagrado para os gregos e o katharevousa ia beber à tendência para mitificar a língua do passado como mais perfeita e genuína – é uma tendência universal.
A norma do grego moderno acabou por se libertar desse peso e, hoje, a língua oficial está mais próxima da língua da rua. Ainda há quem suspire pelo regresso da velha língua, mas a verdade é que o grego não ficou parado na Antiguidade e é muito diferente do grego antigo. Tentar mantê-lo congelado é um esforço inglório, que apenas prejudica os gregos.
Todas as línguas são assim – mudam constantemente. É certo que, por vezes, há cortes um pouco mais marcados. Por exemplo, quando uma população assume como sua a língua de outra população – a língua costuma dar então um salto através duma simplificação acelerada.[3] Mas, mesmo assim, uma população nunca cria a sua língua do nada – de certa maneira, uma língua nunca nasce: transforma-se. (Curiosamente, não nasce, mas pode morrer, como vimos na nossa visita à Dalmácia, há já muitos capítulos…)
Falei do basco e do grego para dizer isto: é quase impossível determinar a idade de uma língua. Se usamos o critério do nome da língua ou mesmo a permanência no mesmo território, acabaremos por considerar que o grego moderno e o grego antigo são a mesma língua. Não faz muito sentido: as diferenças linguísticas são comparáveis às diferenças entre o latim e o português.
Se acharmos que uma língua nasce no momento em que se separa de outra, deixando de haver compreensão mútua, então teremos de falar de várias línguas bascas – e todas bastante recentes. Já o português, nesse caso, terá surgido quando se separou, por exemplo, do galego – e quando foi isso? Já aconteceu?
As línguas são como aquelas bactérias que se multiplicam através da divisão: surgem novas bactérias, é certo, mas nenhuma é mais antiga do que a outra – nenhuma é mãe da outra. As línguas são um bicho esquisito.
Alguém dirá: ora, a língua nasce quando nascem os primeiros documentos escritos. É um critério apetitoso – é concreto, é físico, podemos comprovar a data. Mas, se assim for, a maioria das línguas humanas nunca chegou a nascer.
No fundo, o ponto em que começamos a contar a História de uma língua é sempre uma escolha, tem sempre muito de arbitrário.
Tudo isto pode ser assim, mas o que importa a muitos é a norma associada à língua escrita – e formal, já agora –, ou seja, o registo particular baseado na fala de determinada zona ou grupo social, normalmente o grupo de prestígio que habita nas cidades mais importantes de cada sociedade.
Por outras palavras, quando perguntamos a idade duma língua, estamos a perguntar a idade da tradição escrita e literária dessa língua. Nesse ponto, podemos ter algumas datas: a data em que o português se tornou oficial; a data em que o galego começou a ser usado na literatura; a data em que o irlandês ganhou uma norma escrita…

O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico

Parte I

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