Retratos da nova emigração
Rita Pinho, de Oliveira de Azemeis para Brighton

Rita Pinho tem 35 anos. Originária de Oliveira de Azeméis, emigrou para o Reino Unido, mais especificamente para a cidade de Brighton. Formada em Relações Internacionais, gere atualmente projetos de software na área financeira. Partiu há mais de 10 anos em busca de oportunidades profissionais, mas também com o desejo de viver numa sociedade de mentalidade mais aberta. Ao longo da sua experiência de emigração, construiu uma carreira internacional sólida e desenvolveu uma visão crítica sobre as diferenças culturais, sociais e laborais entre Portugal e o Reino Unido. Nesta entrevista, partilha o seu percurso, os desafios da adaptação, as transformações pessoais que viveu e a forma como vê hoje o seu país de origem.
Foi a sua primeira experiência fora do país ou já tinha vivido no estrangeiro antes?
Já tinha viajado bastante, inclusive já tinha visitado o Reino Unido, mas nunca tinha vivido fora do país. Esta foi a minha primeira experiência a viver fora de Portugal.
Partiu sozinha?
Ao contrário de muitas pessoas que conheço, tive a sorte de emigrar com a pessoa com quem divido a minha vida até hoje.
O que a levou a tomar a decisão de emigrar?
Houve várias razões que me levaram a emigrar, mas as principais foram a busca de uma carreira profissional mais gratificante, tanto do ponto de vista financeiro , como a nível de crescimento e desenvolvimento profissional, mas também a mentalidade portuguesa. Uma grande parte dos portugueses, particularmente em locais mais pequenos, têm uma mentalidade muito fechada, são pouco abertos à diversidade e diferença, e têm pouca vontade de crescer, o que não me agrada particularmente e não é um ambiente no qual eu goste de me inserir.
Foi uma decisão rápida ou amadurecida ao longo do tempo?
Foi uma decisão que demorou alguns meses a tomar. Não acho que seja uma decisão que se deva tomar de ânimo leve, particularmente se acharmos que temos algo a perder em sair do país.
Teve apoio da família ou encontrou resistência?
Apesar de algumas pessoas na família não terem gostado da ideia, sendo que eu não tinha um trabalho à minha espera nem um plano muito detalhado, tive o apoio da minha mãe, que sempre me apoiou em todas as decisões que tomei até hoje. Ela sempre me deu abertura e apoio para tomar as minhas decisões, mesmo quando achava que não eram as melhores para mim, sabia que só assim eu poderia aprender e crescer.
Não tinha um plano concreto e foi “à aventura”?
Fui um pouco à aventura, não tinha nenhum trabalho em vista. Também era a altura certa: tinha 25 anos, não tinha nenhuma dependência. Sabia que se por alguma razão não gostasse, poderia voltar a casa. Tinha de experimentar e ver por mim, se conseguia alcançar o que pretendia.

Na altura, sentiu mais vontade de partir ou necessidade de fugir?
Boa pergunta. Não diria que tive vontade de fugir, mas, também não tinha vontade de partir. Simplesmente, na altura, senti que era a melhor decisão a tomar, mediante as minhas circunstâncias pessoais.
O que procurava no estrangeiro que sentia não existir em Portugal?
Procurava um lugar onde pudesse crescer e onde pudesse ser eu sem restrições. Portugal, de forma geral claro, é um mundo muito normativo, ao qual eu não necessariamente correspondo. Existe uma forte cultura de conformidade, algo que nunca me agradou. Eu sempre quis viver de forma livre, em consonância com os meus valores e com aquilo que quero e sinto que devo fazer da minha vida. Também sempre quis rodear-me de pessoas diversas, com diferentes formas de viver e de pensar, algo que, de forma geral, sentia que não existia no meu mundo em Portugal.
Quais eram as suas principais expectativas em relação à vida no Reino Unido?
Por já ter tido a oportunidade de visitar o país, sabia que as pessoas tinham uma mentalidade muito mais aberta à diversidade, o que, como já disse, sempre me atraiu. Tinha também a expectativa de que, financeiramente, era um país onde havia mais margem para crescer.
Considera a emigração uma solução temporária ou definitiva?
Outra ótima pergunta. Quando vim para cá, pensava que ficaria, no máximo, três anos. No entanto, neste momento, acho que poderá ser uma mudança mais definitiva. Não sei se, daqui a alguns anos, terei vontade de voltar, mas, para já, não tenho grandes planos para regressar. Claro que estas coisas podem mudar. Neste momento, existe um crescimento dos movimentos de extrema-direita, não só aqui, mas um pouco por toda a Europa, com um discurso cada vez mais hostil em relação à imigração. Isso não me agrada particularmente e poderá, com o tempo, influenciar a minha decisão. Mas, por agora, é aqui que me vejo.
Como foi a sua chegada? O que pensou nesse dia?
Foi muito difícil. Uma coisa é viajar de férias; sabemos que vamos voltar. Mas levar a nossa vida toda às costas, é diferente. Criamos expectativas em relação a nós próprios e à nossa família. Sentimos que temos de conseguir construir uma vida mais estável e melhor. Vir sem um plano concreto e deixar a família e os amigos para trás é, sem dúvida, assustador.
Quais foram as maiores dificuldades de adaptação?
Por estranho que pareça, a maior dificuldade inicialmente foi adaptar-me ao tempo. Aqui, o tempo é muito cinzento, temos muito menos horas de sol, e foi algo muito difícil para mim, particularmente nos meses de Inverno. Nunca achei que a falta de sol fosse fazer tanta diferença, mas faz. Ficamos mais tristes. Para além do tempo, em Portugal as pessoas são mais frontais e diretas. Aqui, as pessoas tendem a dar muitas voltas antes de dizer o que querem ou, simplesmente, nunca dizem exatamente o que pensam. Foi algo a que demorei algum tempo a adaptar-me.
Falava bem Inglês quando foi para o Reino Unido? Isso ajudou?
Sempre falei inglês, desde muito cedo. Aprendi na escola, mas sempre tive contacto com a língua através da televisão, da música e da leitura.

Que estereótipos tinha sobre o país e descobriu que não eram verdade?
Achava que as pessoas eram super educadas, mas mais tarde vim a descobrir que muitas vezes simplesmente não gostam de conflito, por isso adotam uma atitude um pouco mais passiva. Não é de todo uma critica, é apenas uma característica cultural, como outra qualquer.
Como conseguiu arranjar trabalho e casa?
Procurei bastante online. Como tinha formação e sabia falar a língua, arranjei trabalho logo na segunda semana, a trabalhar numa seguradora. As coisas eram diferentes: na altura, era mais fácil arranjar um trabalho sem experiência, do que nos dias de hoje.
Que imagem têm os ingleses dos Portugueses?
Consideram-nos pessoas muito profissionais, competentes, dedicadas e educadas.
Já enfrentou situações de preconceito ou discriminação?
Sim, enfrentei várias, infelizmente. Lembro-me particularmente de uma situação em que estava no autocarro a falar em português com alguém e um inglês começou a criticar-nos e a gritar para que falássemos em inglês. Nós tentámos ignorá-lo para que a situação não escalasse, já que ele se estava a tornar bastante agressivo. Para além destas situações mais explícitas, sofro regularmente micro agressões relacionadas com discriminação.
Como é o seu dia a dia atualmente?
O meu dia à dia é excelente aqui. Não podia estar mais feliz com a minha decisão de ter emigrado. Tenho um trabalho excelente, trabalho com pessoas brilhantes. Não foi sempre assim, claro. Demorei algum tempo e muito trabalho para chegar aqui, mas valeu a pena.
Sente que é mais valorizada no estrangeiro do que em Portugal?
Completamente. Pelo que ouço e leio, Portugal continua a não valorizar os trabalhadores, nem financeiramente, nem enquanto pessoas. Existem, claro, algumas empresas que são melhores, mas de forma geral, a remuneração é baixa e o respeito pelo equilíbrio entre a vida pessoal e profissional é pouco. Eu trabalho bastantes horas, mas porque gosto. Ninguém aqui nunca me forçou, nem direta, nem indiretamente, a trabalhar mais do que as minhas horas contratuais.
Tem melhores condições de trabalho?
Absolutamente, não tem comparação com Portugal. Claro que a progressão existe para quem trabalha, principalmente para quem sabe movimentar-se nos meios certos, relacionar-se com as pessoas certas e tem capacidade de comunicação, mas esse espaço existe. Em Portugal, por outro lado, o espaço para progressão é reduzido e reservado a poucos.

O que mais a surpreendeu no mercado de trabalho em Inglaterra?
Continua a ser uma surpresa para mim como certas empresas conseguem lucrar tanto e empregar pessoas que, em Portugal, consideraríamos ter um nível baixo ou médio de educação e conhecimentos. Aqui, há muito mais espaço para toda a gente e empresas, com maior ou menor qualidade, continuam a crescer. Em Portugal, é preciso muito mais para uma empresa sobreviver no mercado.
Há algo em que considera que Portugal está mais avançado do que o Reino Unido?
O nível de educação em Portugal, é muito, mas muito mais avançado. As pessoas que vão para a Universidade estão muito mais bem preparadas para o mercado de trabalho, de forma geral, e o nível de competência, na minha opinião, é muito mais alto. As pessoas licenciadas têm uma preparação para o mercado de trabalho muito superior. O nível de competência é muito maior do que aqui, de uma forma geral claro.
Como vê Portugal agora, estando longe?
Acho que aprendi a valorizar muito mais o país. Seja pela qualidade de vida, que é 200% melhor em Portugal (sol, comida, sentido de comunidade), como pela qualidade de pessoas que temos no nosso país e que é algo muitas vezes desvalorizado. Temos tendência a achar que quem está fora é melhor, mas de todo, esse não é o caso. Claro, estou a generalizar, existem todos os tipos de pessoa em todos os países.
Acha que Portugal mudou desde que saiu?
Sim, mudou bastante, na realidade, infelizmente, para pior. As oportunidades de trabalho bem remunerado são poucas, os preços das coisas são completamente desproporcionais aos salários, a mentalidade portuguesa está ainda mais fechada do que era quando saí, existe uma enorme regressão no país, em vários sentidos.
Se comparar a sua vida cá e lá, quais são as maiores diferenças?
As maiores diferenças são a estabilidade financeira e a mentalidade e abertura à diversidade.
O que mais a desilude quando pensa em Portugal?
De momento, muito francamente, desilude-me esta vaga de extrema-direita que está a ganhar força entre os portugueses. Desiludem-me os portugueses que se esquecem de que a liberdade não é um direito garantido e que apenas lhes foi devolvida em 1975. Antes disso, esteve ausente durante muito tempo, mas muitos portugueses parecem estar, de forma voluntária, a caminhar novamente nesse sentido.
Fez facilmente amigos?
No início, não. Já conhecia pessoas portuguesas aqui, mas amizades com pessoas nativas ou de outras culturas, demorou-me algum tempo a conseguir. Acho que nos primeiros tempos estava a tentar encontrar o meu espaço e a tentar perceber o que se passava à minha volta.

Mantém maioritariamente contacto com portugueses ou com locais?
De momento, tenho amizade com pessoas de vários países, tanto portugueses, como locais.
Como é viver longe da sua família e dos amigos de infância?
É sempre difícil, é uma saudade que nunca parte. Está sempre conosco. Há dias mais difíceis, outros menos, mas faz parte.
O que significa “saudade” para si?
Saudade significa praia, sol, mar, aconchego, abraços apertados, bica e pastel de nata.
A distância afetou as suas relações pessoais ou familiares?
Sim claro, afetou particularmente relações familiares. No entanto, algumas relações até melhoraram, portanto, sinto que nesse aspecto, estar fora tem as suas vantagens.
Volta regularmente a Portugal? Com que frequência?
Nos últimos anos não tenho ido tanto, a vida não tem permitido, mas em média vou duas a três vezes por ano.
O que sente quando regressa?
Sinto-me em casa, acho que é a expressão melhor para descrever o que sinto. Apesar de todos os aspectos negativos que já referi, continua a ser a minha casa.
Pondera regressar de forma definitiva? Em que condições o faria?
Como disse, talvez. Acho que, para voltar, teria de sentir que tenho estabilidade financeira suficiente para tal. E não, um programa que me ofereça benefícios fiscais durante cinco anos não é, de todo, suficiente.
Acha então que Portugal não oferece condições para o seu regresso?
De todo, nem pensar. A habitação em Portugal custa o mesmo, e os ordenados são muito mais baixos do que no Reino Unido. Neste momento, estaria fora de questão. Com muita pena minha porque adoraria trabalhar no mercado português.

Acha que Portugal valoriza a sua diáspora?
Não, sinto que os emigrantes, assim que saem, são esquecidos. Um ou outro governo tenta lembrar-se, muito de vez em quando, mas o problema de raiz está lá e ninguém vê o grande elefante na sala. Já me chegaram a dizer que corajoso é quem fica e talvez por isso se esqueçam. Muitas pessoas pensam que somos cobardes, porque não aguentamos ficar no país, mas, na minha opinião, não sabem o que dizem. Emigrar é para os fortes.
Que conselhos daria a jovens portugueses que estão a pensar emigrar?
Se conseguirem juntar algum dinheiro para sobreviver pelo menos três meses, ou se tiverem sempre a possibilidade de voltar para casa, arrisquem! Não há nada como arriscar e ver no que dá. Para Inglaterra, talvez não de momento, uma vez que, desde o Brexit, tudo se tornou mais complicado, mas existem outros países mais flexíveis nesse sentido.
Vê uma nova “geração de emigrantes portugueses” diferente das anteriores?
Sim, acho que talvez, antes de vir, os emigrantes que vinham para cá, eram maioritariamente para trabalhar na restauração, construção. Hoje em dia, muitas pessoas com um nível educacional muito mais alto emigram em busca de uma vida melhor. Só na empresa onde trabalho, tenho dez portugueses, maioritariamente na área de engenharia.
Os jovens de hoje procuram crescer, ter experiências e vivências diferentes, enquanto que antigamente, as pessoas emigravam apenas pela necessidade de melhorar as suas condições financeiras.
Sente que mudou como pessoa depois de emigrar? Seria uma pessoa diferente se tivesse ficado em Portugal?
Mudei, muito, para melhor eu penso. Tornei-me uma pessoa mais resiliente, cresci, em todos os aspectos e sentidos. Acho que não teria a resiliência e o crescimento pessoal que adquiri ao viver cá. O contacto com pessoas diferentes, de outras culturas, é muito importante para ganharmos uma outra consciência, um outro olhar sobre a vida e o ser humano. Um olhar mais aberto, mais tolerante.
Que valores portugueses leva consigo no dia a dia?
O orgulho pela competência profissional, rigor e dedicação e o sentido de comunidade e solidariedade.
Sente-se mais portuguesa, mais europeia ou já com uma identidade “mista”?
Sinto-me sempre uma pessoa portuguesa mas talvez com alguns atributos ingleses. Mas acho que, na realidade, sempre tive alguns valores ingleses. Tenho uma amiga inglesa que passa o tempo a dizer que na realidade sempre fui inglesa.
Se tivesse de enviar uma mensagem aos jovens que vivem e trabalham em Portugal, qual seria?
Não se acomodem. Temos tendência a acomodar-nos à nossa situação, por mais má que seja, mas todos somos capazes de mais e melhor. Basta pormos a nossa força e dedicação a trabalhar. Procurem mais e melhor, sejam em Portugal ou fora, e sem receio!
Tem algo a acrescentar?
Só queria acrescentar que esta rubrica da revista Descendências é muito relevante. Contribui para que quem está fora do país não seja esquecido. Além disso, ajuda-nos a focar, ainda que por momentos, em problemas graves e, na minha opinião, estruturais do país — como o facto de o governo deixar escapar tanto talento brilhante. Costumo dizer que, se todo esse talento emigrado regressasse a Portugal, o país seria inquebrável!



