Retratos da nova emigração

Ana Rita Santos, de Vila Nova de Gaia para a Alemanha

Em Portugal, milhares de jovens qualificados continuam a procurar no estrangeiro aquilo que o país nem sempre consegue oferecer — estabilidade, reconhecimento e perspetivas de futuro. A história de Ana Rita Santos encaixa neste paradigma e reflete esse retrato contemporâneo da diáspora portuguesa: uma economista de 27 anos que trocou a proximidade familiar por novas oportunidades profissionais em Munique, na Alemanha, levando consigo o namorado que, entretanto já é marido, a resiliência, a capacidade de adaptação e uma identidade profundamente portuguesa. Entre desafios linguísticos, conquistas laborais e a saudade constante de casa, a sua trajetória revela as motivações, dilemas e esperanças de quem parte sem deixar verdadeiramente de pertencer. As palavras de Ana Rita Santos fazem eco às de tantos outros jovens portugueses que partiram, em busca de melhores condições de vida e de reconhecimento profissional.

O que a levou a tomar a decisão de emigrar?

A decisão de emigrar foi motivada não só pela oportunidade a nível profissional, mas também pela vontade de viver uma experiência pessoal diferente, sair da zona de conforto e alcançar uma maior estabilidade financeira a médio e longo prazo. Era uma hipótese que já tinha sido considerada anteriormente. No entanto, quando surgiu uma proposta concreta, a decisão foi amadurecida com calma e discutida em família, tendo em conta todos os impactos pessoais e profissionais. Apesar de ser uma decisão emocionalmente difícil para a família, sobretudo pela distância, senti sempre apoio e compreensão, o que foi fundamental para avançar com mais tranquilidade.

Que fatores em Portugal mais pesaram nessa decisão?

O principal fator foi o salário real, ou seja, a relação entre o rendimento auferido e o custo de vida. Para além disso, pesou também a limitação de oportunidades profissionais e de progressão em determinadas áreas. Senti essencialmente vontade de partir, movida pela curiosidade, pelo desejo de crescimento pessoal e pela expectativa de uma nova etapa da vida.

O que procurava no estrangeiro que sentia não existir em Portugal?

Procurava um melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional, bem como oportunidades diferentes, nomeadamente em empresas com maior dimensão e estruturas internacionais, algo ainda pouco comum em Portugal. Tinha um plano bem definido. O facto de se tratar de uma transferência interna dentro da mesma empresa deu-me segurança e estabilidade desde o início do processo. A transferência interna foi proposta pela minha entidade empregadora, que também prestou apoio em todo o processo burocrático e na procura de habitação, o que facilitou bastante a adaptação inicial. Esperava contactar com diferentes formas de trabalhar, de comunicar e de encarar o quotidiano profissional, obrigando-me a adaptar, a aprender e a crescer enquanto pessoa e profissional. O contacto com outras culturas transforma-nos inevitavelmente. Tornei-me mais confiante, mais paciente e mais resiliente.

Como foi a sua chegada? Quais foram as maiores dificuldades de adaptação?

A chegada definitiva foi relativamente tranquila, uma vez que já tinha tido experiências anteriores de curta duração no país, o que ajudou a reduzir o impacto inicial.
A língua foi, sem dúvida, a maior dificuldade. Não falo fluentemente alemão. Tenho apenas conhecimentos básicos, adquiridos sobretudo no dia a dia e em situações práticas. Uma das situações mais marcantes e até engraçadas foi a nossa primeira ida ao supermercado, em que tivemos de recorrer ao Google Tradutor para perceber o que estávamos a comprar.
O clima, mais frio e cinzento durante grande parte do ano, também exigiu um período de adaptação.

Que estereótipos tinha sobre o país e descobriu que não eram verdade?

Tinha a ideia de que o custo de vida seria muito mais elevado, mas percebi que, apesar de alguns custos mais altos, a relação entre salário e despesas acaba por ser mais equilibrada.

Já enfrentou situações de preconceito ou discriminação?

Não vivi situações claras de discriminação, mas notei alguma resistência por parte de algumas pessoas em comunicar noutra língua que não o alemão. A imagem dos Portugueses aqui é bastante positiva. Somos vistos como trabalhadores fiáveis, dedicados e versáteis.

Como é o seu dia a dia atualmente?

O meu dia a dia é bastante rotineiro e organizado: acordo, preparo-me, tomo o pequeno-almoço com o meu marido, utilizo os transportes públicos para ir para o escritório, cumpro o horário de trabalho e, ao final do dia, dedico-me às tarefas domésticas ou a algum hobby. Em Munique, a nossa vida é mais calma, organizada e centrada na rotina diária. Mantenho contacto maioritariamente com portugueses, o que acaba por criar uma rede de apoio mais próxima culturalmente. A construção de uma rede social foi um processo lento e desafiante.? Viver longe da sua família e dos amigos de infância é, provavelmente, a parte mais difícil de todo o processo de emigração.

A distância afetou as suas relações pessoais ou familiares?

Não considero que tenha afetado negativamente. As relações transformaram-se, mas, em muitos casos, tornaram-se até mais frequentes e próximas.

Sente que é mais valorizada na Alemanha do que em Portugal?

Sim. Sinto maior valorização profissional, tanto pela recetividade às minhas ideias como pela abertura a novas oportunidades e desafios. Trabalho na minha área de formação, o que me permite aplicar e desenvolver as competências que adquiri ao longo do meu percurso académico. As condições de trabalho são superiores, sobretudo ao nível da carga horária semanal, do número de dias de férias, do respeito pelo tempo pessoal e do salário. Fiquei surpreendida com a forma direta, objetiva e pragmática com que as pessoas comunicam e trabalham.

Há algo em que considera que Portugal está mais avançado do que a Alemanha?

Sim. Portugal está claramente mais avançado na digitalização e simplificação de processos burocráticos, tornando muitos procedimentos mais rápidos e eficientes.

O que mais a desilude quando pensa no seu país?

A falta de uma visão clara de futuro, que faz com que muitas gerações cresçam a acreditar que os seus objetivos não são alcançáveis. Por vezes sentimos que a diáspora é esquecida.
Portugal continua a ser casa, mas vejo-o também como um país extraordinário onde, infelizmente, muitas pessoas vivem em modo de sobrevivência. O acesso à habitação tornou-se mais difícil, o custo de vida aumentou e a instabilidade política continua a gerar incerteza quanto ao futuro.

Que aspetos positivos encontra em Portugal e que acha que deviam ser mais valorizados?

As pessoas. Somos um povo que sabe receber, trabalhar e adaptar-se, com uma mão de obra altamente qualificada, muito para além da formação académica.

Volta regularmente a Portugal?

Sim, regressamos com bastante regularidade, em média de três em três meses. Sinto que o ritmo acelera. Há sempre compromissos, encontros e coisas para fazer.

O que significa “saudade” para si?

“Saudade” é um eco de felicidade. Só sente saudade quem amou, quem viveu intensamente e quem criou memórias verdadeiras. A comida é, sem dúvida, aquilo de que mais sinto falta. Mesmo quando encontro produtos portugueses, os preços são significativamente mais elevados.

Considera a emigração como solução temporária ou definitiva?

Vejo a emigração como uma solução temporária. Apesar de estarmos integrados, sentimos que Portugal será sempre a nossa casa e o lugar onde imaginamos o futuro. O regresso definitivo é algo que discutimos, mas que é influenciado por muitos fatores. Neste momento, Portugal não oferece condições para o nosso regresso.

Vê uma nova “geração de emigrantes portugueses” diferente das anteriores?

Claramente.
É uma geração mais qualificada, mais informada e com acesso a meios de comunicação e transporte que tornam a experiência de emigração muito diferente da do passado. A razão principal pela qual os jovens hoje emigram mantém-se: procurar melhores condições de vida.
No entanto, hoje existe também a procura de desafios e oportunidades profissionais inexistentes em Portugal.

Se tivesse de enviar uma mensagem aos jovens que vivem e trabalham em Portugal, qual seria?

Se emigrar é algo que ponderam, devem experimentar. Cada experiência é única e depende muito do país e das pessoas que cruzam o nosso caminho. Somos um país à beira-mar plantado, com um clima extraordinário, uma gastronomia única e, acima de tudo, com pessoas de alma cheia.
Durante muito tempo ouvimos que fora se faz sempre melhor. Não aceitem essa ideia sem questionar.

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