Seminário Diplomático

O Instituto Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros organizou nos dias 5, 6 e 7 de janeiro o Seminário Diplomático, uma iniciativa anual que reúne membros do Governo, quadros da Administração Pública, empresas, Universidades e demais setores estratégicos, com os Chefes de Missão de Portugal no estrangeiro e responsáveis do Ministério dos Negócios Estrangeiros para refletir e debater os principais temas de interesse para a política externa portuguesa.
À imagem da edição do ano transato, o Seminário Diplomático 2026 decorreu em duas cidades: Lisboa e Porto, com o primeiro dia do Seminário a decorrer em Lisboa, no Palácio das Necessidades e na Fundação Calouste Gulbenkian.
Na sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros, a manhã do primeiro dia, contou com a presença de Hakan Fidan, Ministro dos Negócios Estrangeiros da Turquia, convidado de honra numa sessão em que partilhou com os diplomatas portugueses a sua perspetiva sobre o relacionamento bilateral entre os dois países e abordou a necessidade de uma diplomacia proativa, materializada no papel decisivo desempenhado pela Turquia na mediação de conflitos, reforçando o seu papel na promoção da estabilidade e segurança global.
De seguida, durante a tarde do primeiro dia, foram realizadas no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian as sessões públicas do Seminário, contando com a presença de António Feijó, Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian e Nuno Botelho, Presidente da Associação Comercial do Porto; estando assim representadas as duas instituições que acolheram esta edição do Seminário Diplomático.


A sessão pública de abertura contou igualmente com a intervenção da Diretora do Instituto Diplomático, Embaixadora Ana Paula Zacarias, que nesta ocasião homenageou António Guterres, o Secretário-Geral das Nações Unidas que termina este ano o seu mandato à frente da Organização. Destacou o seu “compromisso inabalável com a paz, o multilateralismo, os direitos humanos, o desenvolvimento, a sustentabilidade ambiental e, acima de tudo, a dignidade da pessoa humana”, na sessão em que estava inicialmente prevista a sua presença, que não se verificou em resultado da convocatória de uma sessão de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre a situação na Venezuela.


O Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, deu continuidade à sessão de abertura, numa breve intervenção em que realçou a volatilidade do cenário internacional através do impacto que este teve na organização e no programa do Seminário Diplomático. Continuou a sua intervenção apresentando os temas que viriam a ser abordados nos dias seguintes e explanando a sua visão para o Seminário Diplomático, defendendo que este deve aproximar-se de um “retiro”, que permita uma maior introspeção e interação entre os diplomatas portugueses e os oradores convidados. Terminou a sua intervenção com uma breve homenagem ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em final de mandato, elogiando a sua contribuição para a política externa portuguesa e agradecendo os seus “dez anos de serviço àquela que é a afirmação de Portugal no Mundo”.


A intervenção de fundo da tarde do primeiro dia ficou a cargo do Ministro de Estado e das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, que apresentou uma análise detalhada sobre o percurso da economia portuguesa e a sua inserção global. O Ministro caracterizou Portugal como um “caso de sucesso” no contexto da Zona Euro, sublinhando a transformação estrutural da sua economia ocorrida nos últimos 15 anos. Destacou que o país superou a média europeia nos principais indicadores, apresentando um crescimento económico sólido, um mercado de emprego resiliente, com salários em subida, e uma trajetória de equilíbrio orçamental que permitiu uma redução histórica da dívida pública. Esta robustez macroeconómica, segundo o Ministro, foi fundamental para que Portugal recuperasse a sua credibilidade externa perante os mercados e as agências de rating.
No centro desta transformação estiveram as exportações, que registaram um salto qualitativo e quantitativo sem precedentes. Apresentou uma análise detalhada das razões que levaram Portugal a passar de um peso das exportações de cerca de 28% do PIB antes da crise de 2008 para valores próximos dos 50% na atualidade. Mais do que o volume das exportações, Joaquim Miranda Sarmento enfatizou a diversificação. O sucesso atual não depende apenas do setor do turismo, mas de uma crescente capacidade de exportar serviços tecnológicos, de saúde e produtos industriais de alto valor acrescentado. Identificou investimentos estratégicos recentes como as giga-factories de baterias de lítio, centros de dados e no cluster aeronáutico, reforçando que a diplomacia económica deve continuar a ser o braço operacional da internacionalização, focando-se agora em aumentar a produtividade nacional e em reter o talento jovem qualificado que o país forma.
A segunda parte do evento teve como anfitriã a Associação Comercial do Porto e os trabalhos decorreram no Palácio da Bolsa, tal como na edição anterior. Esta componente do evento decorreu num registo mais privado, em que os executores da política externa portuguesa reuniram com convidados de alto nível para debater os temas que se encontram na ordem do dia, do ponto de vista das relações internacionais e que vão marcar a atividade do Ministério dos Negócios Estrangeiros durante 2026.
Ao longo dos dois dias em que o Seminário Diplomático decorreu no Porto foram abordados temas, que incluíram a candidatura de Portugal ao Conselho de Segurança das Nações Unidas para o biénio 2027-28, as Comunidades e Diáspora Portuguesas, a Política de Internacionalização da Economia Portuguesa, a política de Cooperação Portuguesa e as questões de Segurança e Defesa, com a participação de membros do governo, convidados estrangeiros e académicos.
A candidatura de Portugal ao Conselho de Segurança das Nações Unidas para o biénio 2027-28 é uma das prioridades centrais da diplomacia para 2026 e foi também tema de discussão no Seminário Diplomático. A ambição de Portugal em aceder a este órgão está firmemente ancorada na visão do multilateralismo como a solução primordial para as crises internacionais. Com o lema ‘Prevent, Protect, Partnership’, Portugal propõe uma aposta na diplomacia preventiva e no combate a ‘multiplicadores de ameaças’, como as alterações climáticas e a pobreza, promovendo um Conselho de Segurança mais transparente e mais próximo dos restantes órgãos da ONU.


Os desafios económicos colocados a Portugal e à União Europeia, impostos pelas tarifas norte-americanas, bem como a incerteza da situação económica global foram abordados na intervenção da Secretária de Estado dos Assuntos Europeus, Inês Domingos, que reforçou a importância do multilateralismo económico.
A Cooperação para o Desenvolvimento e a promoção da Língua e Cultura Portuguesa foram abordados num painel que contou com a participação da Secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, Ana Isabel Xavier, que, recordando mais uma vez a emergência de diversas situações de conflito, um pouco por todo o mundo, reforçou o papel de Portugal na promoção do Desenvolvimento Humano e elencou as oportunidades e desafios para a cooperação portuguesa, num painel que realçou igualmente o papel da Língua e Cultura Portuguesa como instrumento de diplomacia cultural.
Não seria possível abordar as prioridades da diplomacia consular sem abordar os desafios e oportunidades associados à Diáspora Portuguesa. Janeiro foi um mês particularmente crítico neste âmbito, com a preparação das eleições presidenciais, realizadas a duas voltas, com um elevado esforço e complexidade logística exigido aos postos consulares na procura de garantir que todos os portugueses tivessem possibilidade de exercer o seu direito de voto. De igual forma, o apoio às Comunidades Portuguesas em diversas situações de exceção e emergência foi apontado pelo Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa, uma preocupação constante – com particular ênfase à data do Seminário para a preocupação com a situação vivida pela comunidade portuguesa residente na Venezuela.
Os novos paradigmas de segurança e defesa foram também uma temática abordada ao longo do Seminário, contando com a participação do Ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, a Secretária-Geral Adjunta da Nato, Radmila Shekerinska e o Comissário Europeu para a Defesa e Espaço, Andrius Kubilius. Num momento em que a Europa inaugura uma nova era na sua arquitetura de segurança e em que os Estados-membros da NATO reforçam o compromisso orçamental com o investimento em defesa, esta temática assume uma relevância acrescida. Ficou demonstrado que, perante os desafios da nova ordem global, a diplomacia e a defesa assumem uma relevância e interdependência crescentes, sendo necessário a todos os países aliar a capacidade de diálogo com uma maior robustez a nível das capacidades de segurança.
O Seminário Diplomático representa o momento de maior visibilidade do Instituto Diplomático, conjugando num só evento múltiplas das suas atribuições. A elevada visibilidade mediática deste evento aliada à transparência que o Instituto procura impor a este evento, através da transmissão em direto de todos os momentos públicos do Seminário no Canal YouTube do Ministério dos Negócios Estrangeiros, tornam o Seminário um momento particularmente relevante para a Diplomacia Pública Portuguesa. É igualmente um momento que permite o contacto dos diplomatas portugueses com o Presidente da República, com o Presidente da Assembleia da República e com o Primeiro-ministro ao longo do Seminário. Finalmente, permite uma reflexão alargada sobre a política externa portuguesa, reunindo todos os seus executantes num só local, garantindo assim a coesão, coordenação e o alinhamento estratégico na atuação das estruturas da diplomacia portuguesa, a nível global e em todas as suas vertentes.

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