Terry Costa

Falar de Terry Costa é falar de um dos mais incansáveis embaixadores culturais dos Açores e de Portugal no mundo. Fundador e diretor artístico da MiratecArts, Terry construiu, a partir do Pico, um ecossistema criativo que ultrapassa fronteiras, une artistas de múltiplas geografias e transforma a ilha num palco global de inovação artística. O seu percurso, marcado por uma visão disruptiva e por uma dedicação rara ao desenvolvimento cultural, tornou-o numa figura incontornável da promoção das artes contemporâneas no arquipélago. Nascido no Canadá e regressado às raízes açorianas com a convicção de que a cultura é motor de futuro, Terry Costa tem sido responsável por projetos que hoje fazem parte da identidade artística dos Açores: do Montanha Pico Festival ao Azores Fringe Festival, passando por residências artísticas, programas educativos e iniciativas que aproximam comunidades, criadores e territórios. A MiratecArts, sob a sua liderança, tornou-se um laboratório vivo onde a criatividade se cruza com a sustentabilidade, a identidade e a projeção internacional. Dizem que a arte tem o poder de mover montanhas, e na ilha do Pico, Terry Costa tem feito precisamente isso.

De ator a encenador, produtor e criador de eventos. Como carateriza a sua carreira?

Sou um artista multidisciplinar. Sempre trabalhei no mundo cultural artístico. É a minha vida e não só a minha carreira. Sigo as minhas paixões e aceito mudanças dependendo do que a natureza e as circunstâncias nos oferecem. A minha vida já tem três capítulos muito distintos. Nasci em Oakville, Canadá, mas meus pais voltaram à ilha quando eu era apenas bebé. Nos Açores, na ilha do Pico, passei a minha infância e aí o bichinho das artes nasceu. Voltei ao meu país para estudar e trabalhar em projetos teatrais, mas também, noutras disciplinas artísticas. O regresso ao Pico, já na minha “meia-idade”, levou-me a esta nova faceta: produção e apresentação, ainda que continue a criar. Estou apaixonado pelas ilhas. Já fiz muitos projectos, ora com os trocos que se encontram entre os coxins do sofá, ora com orçamentos robustos. Já aconteceu ser pago, pelo mesmo trabalho, com um jantar e no outro dia com uma viagem à volta ao mundo. A vida nas artes é assim…

© Pedro Silva
© Ana Goulart
© Terry Costa

O teatro é a sua área de formação, mas investiu em outras áreas como a música e a dança. Porquê esta diversidade?

Desde criança sempre participei nas artes. Primeiro aprendi o solfejo com o Maestro Francisco de Matos, na freguesia da Candelária, no Pico. A música e os instrumentos de corda sempre fizeram parte da minha infância. O bandolim foi o meu primeiro instrumento. Cantava com as Irmãs na Casa de São José e na igreja, até à minha adolescência. Nunca esqueço a Irmã Nivéria. Fazíamos teatro também. A minha família sempre me incentivou a ler, desde banda desenhada aos contos. Mas admito que talvez tudo começou quando desenhava galinhas nos cadernos escolares das minhas manas.
Os meus pais sempre me incentivaram a fazer o que me faz feliz.
Já no Canadá, na escola secundária, além de continuar no teatro, investi muito na dança contemporânea e na pintura, especialmente, desenhos de grande porte a giz e instalações que questionavam o papel dos géneros, algo que ainda hoje continuo. Depois, quando chegou a hora dos estudos pós-secundário escolhi licenciar-me na dramaturgia e artes teatrais, na Universidade de Toronto e ingressei no conservatório de teatro no Colégio Sheridan, porque, para mim o teatro é a arte mais completa. No teatro necessitamos do texto, da dança, da música, das artes plásticas. Cria-se a imagem e a mensagem final, aquilo que se oferece ao público. E foi aí que descobri que ser encenador era o que mais me apelava, tendo evoluído para encenador-produtor. Há mais de 40 anos representei “o menino pobre”, algo que nunca me considerei, mesmo que minha conta bancária o possa confirmar (sorrisos). Sempre me senti uma pessoa rica, porque tenho imaginação fértil e ideias sempre prontas a serem executadas. Admito que a minha arte não é comercial, mesmo que faça algumas criações que até tenham boas “vendas”. Já tive a oportunidade de trabalhar em empresas onde seria bem remunerado, mas nunca senti que era o meu lugar.
Sempre pergunto: sou o que faço, ou faço o que sou?

Depois de mais de 20 anos de adulto no Canadá decidiu regressar à ilha do Pico. Que motivos o levaram a regressar à ilha da montanha?

Além dos meus pais viverem na ilha e eu estar a visitar constantemente, foi um impulso que pareceu um alinhamento dos astros. Necessitava de uma mudança na vida pessoal e pública/artística. Novos desafios. E claro, uma saudade da terra dos meus tempos de infância. Acho que podemos dar voltas ao mundo, mas é “a nossa terra” que nos chama e que nos faz mais felizes. Nas artes também não necessitamos de estar a residir nos maiores centros. Claro que a insularidade apresenta grandes desafios.

A insularidade é um desafio para a Associação?

A insularidade é sempre um desafio. Para a associação MiratecArts, um dos objetivos é dar a conhecer-mo-nos melhor inter-ilhas, sendo a mobilidade importante. Às vezes temos de investir 2 ou 3 dias extra para ter a certeza que se pode concretizar os planos de ilha para ilha. Além das ligações e dos altos custos de transporte, que são circunstâncias negativas, temos falta de equipamentos para certos projetos. Mas isso faz com que sejamos mais criativos. Quero deixar claro que nos Açores pode fazer-se tudo como em qualquer parte do mundo, no que respeita às artes. Às vezes temos é que nos adaptar. E, numa ilha somos mais criativos do que que numa grande cidade. Por isso, o que costumo a dizer aos artistas é que estamos no melhor lugar do mundo para criação, temos é de levar esses projetos além-mar…

Com MiratecArts tem sido um enorme impulsionador na criação de projetos como o Azores Fringe Festival, Montanha Pico Festival, Roteiro de Arte Pública na Madalena, o Festival Cordas e muitos outros. Quando fundou a Associação, esperava que tivesse a dimensão que tem atualmente?

Desde 2012, que a MiratecArts promove os Açores com arte e artistas. Temos festivais, falados e galardoados internacionalmente. Janeiro começa com o Montanha Pico Festival, dedicado a cinema de cultura montanhosa ou cenário montanhoso. Na primavera chegamos a todas as ilhas dos Açores com programação do Azores Fringe Festival, o mais democrático projeto no país, por ser um festival sem júri; a ideia é se consegues fazer, estás na agenda. O veráo é passado na vila das Lajes do Pico, no Forte de Santa Catarina, com concertos aos domingos ao pôr-do-sol, Música no Forte, e ainda o Lavadias, festival de cinema ao ar livre, que também tem a temática do mar, os oceanos, a água que nos rodeia. O Azores Birdwatching Arts Festival inicia o programa do outono. O Cordas World Music Festival é o mais galardoado e talvez mais conhecido no mundo porque a música é sempre mais fácil de ultrapassar barreiras. Já conseguimos dez edições, e acontece por todo o concelho da Madalena do Pico. AnimaPIX, o festival de animação, acontece na Biblioteca Auditório da Madalena com muitas atividades para os mais novos, desde o livro ilustrado ao filme animado.
A associação produz muitos projetos únicos, com artistas a solo, englobando todo o tipo de arte e artistas. Destaco na música o SOLO9VIOLA com Evandro Meneses que já foi até à Itália e ao Uruguai, e o projeto de escultura, Sorrisos de Pedra de Helena Amaral, que encontra-se em mais de duas dúzias de países. Já acolhemos mais de 3000 artistas de 64 países, incluindo, do norte a sul de Portugal, ilha da Madeira e das 9 ilhas dos Açores. A plataforma que criamos online, através do site oficial www.miratecarts.com inclui mais de 700 artistas das nove ilhas dos Açores, são os nossos colaboradores regulares.

Lançou o seu primeiro livro infanto-juvenil “Néveda nos Açores” em 2019, o qual o incentivou a fundar uma editora. Na sua opinião, a literacia infantil deve continuar a ser promovida e mais desenvolvida?

Os projetos mais importantes que podemos desenvolver são os dedicados aos mais novos ou, melhor ainda, que tenham sua participação. É imperativo que se desenvolva crianças com mais sensibilidade e a cultura artística é fundamental. Mentes abertas são mentes mais ricas. Criar a personagem da Néveda, e ter a Vera Bettencourt a ilustrar o primeiro livro foi um dos meus sonhos concretizados. O primeiro livro já está disponível em cinco línguas, e parece que vai ser publicado em mais línguas em breve. O livro já chegou a 300 livrarias em 45 países, em português, inglês, espanhol, francês e italiano. Por causa de ser uma nova paixão, pois nunca imaginava produzir para a criança em todos nós, fundei a Néveda Ent como uma editora dedicada ao livro ilustrado de grande porte. Além das aventuras da Néveda que já tem disponível outros livros, “Névda nas Américas” e Néveda na Paisagem da Cultura da vinha da Ilha do Pico”, também publicamos livros de outros autores, destaco “O menino que queria ver a baleia azul a passar nos Açores” e livros traduzidos para português, como agora acabamos de adquirir direitos para os livros do suéco Sven Nordqist, “Pedro e Riscas”. Através da MiratecArts vamos usar a Néveda para avançar a promoção de mais arte, mais apoio à cultura artística, mais programas educativos de artistas açorianos. A MiratecArts incentiva o público infanto-juvenil pois, como diz o ditado: ‘de pequenino se torce o pepino’.

Que projetos prevê para o futuro?

Além dos festivais, que estão em constante adaptação, especialmente devido a falta de apoios e a necessidade de renovar, pretendo continuar a desenvolver cada vez mais a faceta de publicação de livros e focar um pouco mais no audiovisual. MiratecArts começou o Prémio Curta Pico para incentivar filmar na ilha montanha e o primeiro projeto conseguido foi “First Date” de Luís Filipe Borges, uma curta que já chegou a mais de 60 festivais, em todos os continentes, angariou 22 prémios e este mês arranca no streaming da Filmin. Este tipo de projeto dá uma visibilidade à ilha, aos Açores e o trabalho que aqui fazemos, como nunca tivemos antes. Com o cinema nem sempre necessitamos de lá estar, depois do trabalho estar concluído. O filme fala por si e chega a muitos cantinhos do mundo que nós às vezes não podemos chegar pessoalmente. Eu próprio tenho uma trilogia de curtas que desejo produzir, cada uma inspirada por uma escrita de três gerações diferentes da ilha. Outra faceta do nosso trabalho que desejo investir mais é a propriedade sede da MiratecArts, a Galeria Costa, que são 2,6 hectares de terreno para os artistas desenvolverem. Neste momento temos mais de 40 obras na propriedade, visitável a qualquer hora. Entre vinhas, floresta, zona costeira da ilha, os artistas podem desenvolver novas obras, criar novos projetos, ou apenas se incentivar para algo no futuro Temos que aproveitar cada vez mais o que a natureza nos oferece e assim também oferecer arte à natureza.
Promover os Açores com arte e artistas é o meu objetivo principal; continuar a desenvolver um turismo cultural para as ilhas; criar projetos que tenham pernas para irem além arquipélago. A arte é educação, e é das ferramentas mais diversificadas da atividade humana. A arte é também, um chamamento turístico. A arte vale a pena!

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