Simone Veloso

O Minho e a alta costura francesa cruzam-se de forma única no trabalho de Simone Veloso. Nascida em França, mas com o coração enraizado em Guimarães, a designer transforma tecidos, bordados e cores do folclore português em autênticas joias têxteis contemporâneas. Num momento em que a moda procura novas narrativas e identidades fortes, Simone Veloso afirma-se como uma voz que reivindica o valor cultural do território. A sua obra não é apenas estética: é também memória, reivindicação e futuro. Cada peça nasce de uma pesquisa profunda sobre símbolos, gestos e histórias do Minho, reinterpretados com a precisão técnica e o rigor conceptual da alta costura francesa. Conversamos com a criadora por trás da Simone Veloso Couture para perceber como a tradição do norte de Portugal ganha uma nova vida, sofisticada e internacional, através das suas mãos.
Como surgiu a ideia de transformar o folclore do Minho em bijuteria e joias têxteis?
A ideia de transformar o folclore do Minho em joia de autor nasceu da minha própria história. Cresci imersa no folclore português: vesti estes trajes, dancei, vibrei ao ritmo desta cultura e vivi esta tradição por dentro.
Estas não são matérias simples — são materiais cintilantes, quentes e profundamente coloridos, que carregam em si uma energia, uma emoção e uma memória. Trazem-me de volta as memórias de infância, os momentos de partilha e essa ligação tão forte às minhas raízes.
Através da joia de autor, procuro preservar e transformar esta emoção numa criação contemporânea. Cada peça torna-se, assim, uma forma de dar nova vida ao folclore do Minho, mantendo a sua alma, a sua riqueza e toda a força simbólica que representa para mim.



O que define uma ‘joia têxtil’ e como diferencia este conceito da bijuteria tradicional?
Uma joia têxtil é uma joia criada essencialmente a partir de materiais têxteis — tecidos, fios, fibras, bordados ou feltro. Ao contrário da joalharia tradicional, valoriza a matéria, a textura e o saber-fazer artesanal. Este conceito distingue-se, antes de mais, pela sua identidade singular: um universo festivo, colorido e leve. Propõe uma abordagem diferente da ornamentação, explorando as texturas, os volumes e o movimento. A joia têxtil torna-se, assim, um acessório vivo e expressivo, que alia criatividade, originalidade e conforto.

De que forma a sua vivência em França influencia o olhar sobre as tradições artesanais portuguesas?
Nasci em França, filha de pais portugueses, e cresci num ambiente onde a cultura portuguesa ocupava um lugar essencial. O meu pai, envolvido há 45 anos numa associação portuguesa, ajudou a manter vivo este vínculo com as nossas origens, as nossas tradições e os valores desta cultura. Esta transmissão familiar permitiu-me desenvolver, desde muito cedo, um profundo apego à história, aos costumes e à identidade portuguesa.
Paralelamente, o meu percurso em França conduziu-me ao mundo da costura desde os 13 anos, evoluindo mais tarde para uma formação em alta-costura. Esta aprendizagem incutiu-me as exigências do saber-fazer artesanal francês: a precisão do gesto, a técnica, o rigor, a paciência e o respeito pelo trabalho bem feito.
Assim, o meu olhar sobre as tradições artesanais portuguesas constrói-se no encontro destes dois legados. A minha cultura familiar deu-me uma sensibilidade especial e uma ligação profunda às tradições portuguesas, enquanto a minha formação francesa me trouxe um
olhar profissional sobre o valor dos gestos, das técnicas e da transmissão dos saberes-fazer.
Esta dupla influência permite-me hoje ter um olhar simultaneamente pessoal, cultural e profissional sobre o artesanato português, sensível à sua história, à sua identidade e à excelência do trabalho artesanal.
Onde encontra a inspiração e os tecidos e padrões que servem de base para as suas peças?
A minha inspiração vem principalmente do traje tradicional português, mais concretamente do traje tradicional da região de Guimarães, de onde sou originária. Este traje representa para mim uma ligação profunda às minhas raízes, à história da minha terra e às tradições transmitidas ao longo das gerações. Inspiro-me também na riqueza dos símbolos da cultura portuguesa, como o coração de Viana, a sardinha, a andorinha, o galo de Barcelos ou os azulejos. Cada um destes símbolos carrega uma história, um significado e uma identidade que desejo valorizar através das minhas criações.
Relativamente aos tecidos e aos motivos que servem de base ao meu trabalho, procuro-os diretamente em Portugal, junto de fornecedores de confiança e especializados. Dou particular importância aos materiais provenientes da região de Viana do Castelo, reconhecida pelos seus tecidos ligados ao folclore e ao traje tradicional português. Estes tecidos constituem a base das minhas joias têxteis. Através das minhas criações, procuro estabelecer um diálogo entre o património do vestuário português e uma abordagem contemporânea, transformando estas matérias tradicionais em peças únicas, que preservam a sua essência ao mesmo tempo que lhes dão uma nova expressão.
Como funciona o processo de criação de uma peça, desde o desenho até ao acabamento final feito à mão?
A minha inspiração vem principalmente do traje tradicional português, mais concretamente do traje tradicional da região de Guimarães, de onde sou originária. Este traje representa para mim uma ligação profunda às minhas raízes, à história da minha terra e às tradições transmitidas ao longo das gerações.
Inspiro-me também na riqueza dos símbolos da cultura portuguesa, como o coração de Viana, a sardinha, a andorinha, o galo de Barcelos ou os azulejos. Cada um destes símbolos carrega uma história, um significado e uma identidade que desejo valorizar através das minhas criações. Relativamente aos tecidos e aos motivos que servem de base ao meu trabalho, procuro-os diretamente em Portugal, junto de fornecedores de confiança e especializados. Dou particular importância aos materiais provenientes da região de Viana do Castelo, reconhecida pelos seus tecidos ligados ao folclore e ao traje tradicional português. Estes tecidos constituem a base dos meus joalhos têxteis. Através das minhas criações, procuro estabelecer um diálogo entre o património vestimentar português e uma abordagem contemporânea, transformando estas matérias tradicionais em peças únicas, que preservam a sua história, as suas cores e a sua alma.
Como é que o público em França e noutros países reage a uma estética tão ligada à cultura tradicional de Portugal?
O público francês, e também o dos países vizinhos, reage muito positivamente a uma estética profundamente ligada à cultura tradicional portuguesa. As minhas criações despertam frequentemente curiosidade, interesse e emoção, pois propõem uma verdadeira viagem através dos símbolos, das cores e das tradições de Portugal. Através do meu trabalho enquanto criadora, não apresento apenas peças inspiradas no folclore português: partilho também uma história — a de um povo, das suas tradições e do seu percurso. As minhas criações tornam-se uma forma de dar a conhecer a riqueza da cultura portuguesa, seja através dos trajes tradicionais, da música, da literatura, das artes populares ou da história da imigração portuguesa. Permitem igualmente abrir um diálogo sobre a integração e a presença da comunidade portuguesa nos países onde se estabeleceu. O público descobre, por vezes, uma cultura que conhece pouco, e passa a olhar para Portugal de forma nova, com interesse e apreço. Através das minhas criações, procuro assim transmitir uma imagem viva e autêntica da cultura portuguesa, criando uma ligação entre a herança tradicional e a abertura ao mundo.

Quem é a pessoa que procura e usa as peças da Simone Veloso Couture?
As mulheres que procuram e usam as peças da Simone Veloso Couture são, acima de tudo, mulheres sensíveis à autenticidade, à criatividade e ao saber-fazer artesanal. Gostam de peças marcantes, coloridas e cheias de vida, que chamam a atenção e revelam uma personalidade.
Procuram também criações únicas, feitas à mão, com uma história e um significado especial. Para elas, a compra não representa apenas a aquisição de um acessório ou de uma peça de moda: é também a escolha de uma peça que transmite valores, uma herança cultural e uma emoção.
Existe, no entanto, uma grande diversidade entre as mulheres que usam as minhas criações. Vêm de origens diferentes, mas partilham o desejo de vestir ou usar uma peça singular, autêntica e com significado.
Que novos materiais ou elementos da cultura portuguesa gostaria de explorar nas suas próximas criações?
Um elemento da cultura portuguesa que gostaria particularmente de explorar nas minhas próximas criações é o croché feito à mão pelas artesãs da região do Minho. O meu objetivo é valorizar este artesanato tradicional e reinventá-lo numa abordagem contemporânea.
É uma técnica que encontramos, nomeadamente, nos saiotes do folclore português, e que possui uma riqueza estética extraordinária. Já comecei a trabalhar em torno deste universo e quero continuar a fazê-lo evoluir nas minhas criações, especialmente através da minha linha de pronto-a-vestir, desenvolvida em paralelo com o meu trabalho em joalharia.




Quais são os grandes objetivos para o futuro da marca?
Os grandes objetivos para o futuro da marca passam, antes de mais, por desenvolver o seu reconhecimento em Portugal, valorizar o meu saber-fazer artesanal e criar uma verdadeira ligação entre tradição e criação contemporânea.
Regresso do salão FIA de Lisboa, um evento dedicado ao artesanato, onde tive a oportunidade de apresentar o meu trabalho e de ser selecionada entre os novos talentos emergentes. Esta experiência confirmou o meu desejo de dar a conhecer o meu universo ao público português e de dar maior visibilidade a este artesanato no próprio país onde ele nasceu.
A longo prazo, gostaria de desenvolver projetos em torno desta joia, transmitir este saber- fazer através da formação de novas pessoas e, quem sabe, criar uma dinâmica em torno deste artesanato, para que possa tornar-se uma identidade cultural contemporânea em Portugal. O meu desejo é que o meu trabalho seja reconhecido no país que o inspira, e que possa contribuir para a valorização e projeção de um património reinventado.
Uma mensagem para todos os autores, criadores e artistas do mundo.
A mensagem que gostaria de transmitir a todos os artesãos, criadores e artistas do mundo é que nunca deixem de acreditar naquilo que fazem.
A expressão artística nasce muitas vezes de uma emoção profunda, algo que vem do interior e que sentimos necessidade de partilhar, de exteriorizar e de transformar em criação. Como dizia Albert Einstein: «A criatividade é a inteligência a divertir-se.» Esta frase traduz bem aquilo em que acredito: criar é deixar a nossa sensibilidade, a nossa imaginação e o nosso saber-fazer encontrarem-se, para dar origem a algo único. Mas dar vida à nossa arte exige também tempo, anos de trabalho, perseverança, coragem e determinação, com momentos de dúvida e outros de conquista.
O mais importante é permanecermos fiéis aos nossos valores, às nossas ideias e à nossa visão, porque é assim que crescemos na nossa arte e construímos algo que verdadeiramente nos representa.









Reis Luisa
6 horas agoParabéns Simone e boa continuação nos seus projetos e criatividade ✨👌
Gostei muito de a conhecer na FIA de Lisboa e realmente, com um pouco de imaginação temos o mundo ao nosso alcance 🫶
Beijinhos e tudo de bom 😘 😘