A diáspora portuguesa

A afirmação de uma verdadeira política de captação de investimento estrangeiro

Portugal e os seus territórios perante o potencial económico
das comunidades no estrangeiro

Portugal gosta de se pensar como um país pequeno de vocação universal. Com pouco mais de 92 mil quilómetros quadrados e 10,5 milhões de residentes, o território metropolitano é apenas uma parte da equação nacional: segundo dados avançados na primeira edição do Fórum Portugal Nação Global, existem entre 20 e 23 milhões de descendentes de portugueses espalhados pelo mundo, aos quais se somam cerca de 1,8 milhões de emigrantes de primeira geração residentes fora do país. É uma nação global por demografia antes de o ser por estratégia — e é precisamente essa desconformidade entre a dimensão da diáspora e o seu aproveitamento económico que uma política séria de atração de investimento estrangeiro (IDE) já não pode ignorar.
O contributo financeiro direto da diáspora é, há muito, um pilar silencioso da economia nacional.
Em 2025, as remessas de emigrantes ascenderam a cerca de 4.387 milhões de euros, um valor cinco vezes superior ao que os imigrantes residentes em Portugal enviam para os seus países de origem. É um fluxo estável, resiliente aos ciclos económicos e distribuído por todo o território — ao contrário do investimento direto estrangeiro tradicional, que tende a concentrar-se nos grandes polos metropolitanos e nos corredores industriais do litoral.
Este dinheiro, contudo, continua a ser sobretudo consumo familiar e poupança, não investimento produtivo.

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É aqui que reside a oportunidade estrutural: transformar uma comunidade que já demonstra confiança financeira no país — através do envio regular de remessas, da manutenção de propriedade e de laços afetivos com a terra de origem — num vetor ativo de capital produtivo, tecnologia, redes comerciais e conhecimento.
Portugal tem vindo a bater recordes de captação de IDE — a AICEP contratualizou em 2025 um valor recorde de 3,58 mil milhões de euros em novos projetos de investimento, e o stock total de investimento direto estrangeiro no país atingiu 213,7 mil milhões de euros, o equivalente a 70% do PIB, contra apenas 46% em 2008.
São números que atestam a atratividade competitiva do país.
O que falta não é apetite pelo investimento estrangeiro em geral — é uma política dedicada que reconheça a diáspora como uma categoria de investidor com características, motivações e geografias de afinidade próprias, distintas do investidor institucional sem qualquer ligação a Portugal.
Essa distinção importa ainda mais quando se olha para o mapa. O investimento estrangeiro genérico segue a lógica da rentabilidade imediata e da infraestrutura já instalada — por isso gravita naturalmente para Lisboa, Porto e alguns eixos industriais específicos.
A diáspora, pelo contrário, mantém laços de afinidade com concelhos e regiões de origem que, em muitos casos, coincidem exatamente com os territórios do interior e da raia que mais sofrem com despovoamento e envelhecimento.
O próprio Presidente da República tem insistido, em deslocações recentes ao interior norte, que “um país coeso não se mede pela força das suas capitais, mas pela vitalidade dos seus territórios”, pedindo mais atenção, investimento e confiança nas autarquias locais.

É precisamente nesse ponto que a diáspora pode desempenhar um papel que nenhuma outra fonte de capital estrangeiro replica: o investidor da diáspora frequentemente escolhe onde investir não apenas por cálculo financeiro, mas por pertença. Uma política de captação de investimento que ignore essa geografia afetiva desperdiça o único mecanismo de mercado capaz de atrair capital privado, voluntariamente, para territórios de baixa densidade — sem depender exclusivamente de incentivos fiscais ou fundos públicos de coesão.
Portugal tem hoje as peças para essa política: uma diáspora numerosa, fiel e financeiramente ativa; instituições que começam a falar a mesma língua; e territórios que precisam, com urgência, de um investimento que só um vínculo de pertença consegue trazer sem depender apenas do erário público. Falta juntar essas peças numa estratégia coerente, sustentada no tempo e territorialmente diferenciada. É essa a distância que separa o discurso sobre a diáspora de uma verdadeira política de captação de investimento estrangeiro para Portugal e os seus territórios.

Fundação AEP

Rede Global da Diáspora

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