Altina Ribeiro

Nascida a 25 de setembro de 1960, em São Vicente da Raia, no Nordeste de Portugal, Altina Ribeiro deixou o país com a família em 1969, rumo a França. A experiência da emigração, o choque entre duas culturas, a memória da ditadura salazarista e as histórias de quem viveu entre Portugal e França tornaram-se matérias centrais da sua escrita.
Depois de iniciar a vida profissional num escritório de advogados e de retomar os estudos já adulta, Altina Ribeiro estreou-se na literatura em 2005 com Le fado pour seul bagage, uma obra autobiográfica posteriormente adaptada ao teatro e traduzida para português com o título De São Vicente a Paris. Ao longo do seu percurso, publicou também obras como Alice au pays de Salazar, Dona Zezinha, Trois notes de blues pour un fado — em coautoria com Dan Inger — e o romance (Il)légitime. A sua escrita cruza memória pessoal, identidade, imigração, relações familiares, educação e história. Nesta entrevista, fala sobre as raízes da sua vocação literária, a importância de preservar as memórias da emigração e o modo como transforma testemunhos de vida em literatura.
A sua obra nasce frequentemente de histórias reais e de percursos de vida marcados pela emigração. O que a atrai nestas narrativas e porque considera importante preservá-las através da escrita?
A minha aventura literária começou pela escrita da minha história. As que seguiram, foram também histórias reais marcadas pela emigração porque as pessoas que me pediram para escrever os seus percursos de vida foram emocionadas pela maneira de eu escrever. O que me atrai nestas narrativas é o facto de serem histórias pessoais numa história coletiva. É importante preservar estas narrativas para não esquecer o que algumas pessoas tiveram de suportar para fugir à ditadura e para ter consciência da sorte que temos de viver em democracia.
Em “De São Vicente a Paris”, revisita a sua própria história e a da sua família. Como foi transformar memórias pessoais em literatura e que impacto teve esse processo em si?
Quando comecei a escrever a minha história, foi com o intuito de partilhar uma infância fora do comum que tive a sorte de viver na pequena aldeia transmontana onde nasci. Vivíamos sem conforto, mas ignorávamos a existência do que não tínhamos. Por isso, vivíamos muito felizes. Além disso, éramos ricos de ajuda mútua e de partilha. Éramos uma grande família. Foi muito importante para mim reviver os meus lindos momentos de criança durante a escrita deste primeiro livro.


Ao longo dos anos, tem retratado diferentes gerações de portugueses emigrados. Como vê a evolução da relação das comunidades portuguesas com as suas raízes e identidade cultural?
Todas as gerações das comunidades portuguesas têm uma relação muito grande com as suas raízes. As pessoas que vivem longe do país de origem sentem mais carinho pelo cantinho onde nasceram e pelo pais.
Muitas das suas personagens enfrentam desafios ligados ao desenraizamento, à adaptação e à procura de pertença. Considera que estes continuam a ser temas atuais para os emigrantes de hoje?
A emigração de hoje é diferente. Nos anos sessenta, a maior parte dos portugueses emigraram clandestinamente. Naquele tempo, a vida em Portugal era muito diferente. Entre a ditadura e a democracia, não há comparação. Agora, o desenraizamento não é tão forte porque já não existe tanta diferença entre Portugal e os países de acolhimento, como a França.

O livro “Dona Zezinha – A Vida Singular de uma Professora” recupera uma história inserida no contexto do Estado Novo. Que reflexões pretendeu suscitar sobre esse período da história portuguesa?
Esse livro trata de uma história que me foi contada pelo filho de uma regente escolar. O crescimento demográfico da época exigia a criação de postos de ensino suplementares, a nível nacional, para aliviar a sobrecarga das escolas situadas nas cedes de freguesia e levar instrução às aldeias isoladas, da qual muitas crianças viviam privadas por falta de docentes e de infraestruturas. Na minha autobiografia, descrevo a escola com o olhar de uma aluna que eu era. Fiquei muito interessada pelo tema do ensino durante o Estado Novo através a história de uma professora. Pretendi suscitar o interesse dos alunos atuais que não imaginam a sorte que têm de poder estudar e também a complexidade do ensino primário que era utilizado para a propaganda da ditadura.
Depois da autobiografia e da biografia, avançou para o romance com “(Il)légitime”. O que mudou na sua forma de escrever ao entrar mais profundamente no território da ficção?
A escrita do meu primeiro romance foi uma nova experiência. Apesar de ser inspirado de uma história verdadeira, a parte de ficção foi a mais importante. O exercício foi mais difícil porque tive que recorrer à minha imaginação. Mas foi também muito agradável porque senti-me mais livre.
Que desafios enfrenta uma escritora que vive entre duas culturas e duas línguas? Essa dualidade enriquece ou dificulta o processo criativo?
Viver entre duas culturas e duas línguas enriquece muito. Pessoalmente, escrevo em francês porque é nessa língua que me sinto mais à vontade. O meu desafio foi traduzir a minha autobiografia e “Dona Zezinha” em português. Precisei de ajuda e foi para mim um exercício muito enriquecedor.
Depois de vários livros dedicados a histórias humanas intensas e inspiradoras, que projetos literários tem atualmente em desenvolvimento e o que pode revelar aos seus leitores sobre o futuro da sua escrita?
O meu próximo livro trata da história de um exilado que fugiu a ditaduras e golpes de estado entre Portugal, Brasil, Chili e França.

Uma mensagem para todos os autores, criadores e artistas do mundo.
Desejo muita inspiração e muitas felicidades aos autores, criadores e artistas do mundo.









