Editorial outubro

Caros Leitores,
Há edições que se organizam em torno de uma pergunta. Esta edição 70 nasce de várias, mas todas parecem conduzir-nos ao mesmo lugar: como se constroem comunidades, como se preservam memórias e como se prepara o futuro sem perder aquilo que nos reconhece?
Começamos pela intervenção de Manuel Casimiro sobre a Mona Lisa. Em Regresso décimo, Rodrigo Magalhães acompanha uma imagem envolta em brumas, saturação e inquietação. A obra convida-nos a olhar novamente para o que julgávamos conhecer e lembra-nos que a arte interroga o original e devolve-o ao presente com novas perguntas.
A AILD mostra como a cooperação fortalece comunidades, e o mecenato ajuda a sustentar esse trabalho, sem substituir a responsabilidade pública.
Conheça a Till uma consultora imobiliária centrada nas pessoas, e não perca a Grande Entrevista com José Manuel da Costa Soares, Presidente da Fundação INATEL, numa reflexão profunda sobre proximidade, inovação, envelhecimento ativo, turismo social, associativismo e o papel das instituições na construção de uma sociedade mais inclusiva e humana. Uma conversa inspiradora que nos recorda que modernizar não significa perder identidade, mas preparar o futuro sem esquecer as pessoas. Escutar é reconhecer também a voz de quem vive longe. A proposta de voto eletrónico em países em desenvolvimento, analisada por Filipe Silva, mostra que a participação política não pode depender da distância ou da fragilidade dos serviços postais. O caso de Timor-Leste confirma que esta é uma questão de inclusão democrática e igualdade.
Da cidadania passamos à Ilha de Moçambique, onde história, presença africana e arquitetura convivem. Joaquim Magalhães de Castro conduz-nos por ruas e fortalezas, enquanto Altina Ribeiro nos leva entre Portugal e França através da literatura.
Também o território guarda as marcas das partidas. Vítor Afonso interroga a contradição de um país com tantas casas vazias e tanta gente sem casa. Nas aldeias, as habitações fechadas guardam histórias de sacrifício e esperança; nas cidades, famílias e jovens enfrentam preços que tornam a habitação cada vez mais distante.
A poesia oferece uma outra proximidade. Em “Para Sempre, Luísa”, Sarah Luz, presta uma tocante homenagem a Luísa Ducla Soares. Um poema que celebra a amizade. Entre cozinhas conventuais e heranças árabes e mediterrânicas, a amêndoa recorda-nos que a gastronomia também conta a história dos povos e das viagens que moldaram as nossas tradições.
A saúde mental obriga-nos a uma pausa. Patrícia Câmara lembra que escutar e reconhecer o cansaço são gestos de cuidado.
Paulo Dinis analisa a diáspora qualificada como oportunidade estratégica para Portugal. Esse novo rosto da emigração aparece na história de Andreia Dias, de Lisboa para Bruxelas, entre independência, saudade e pertença.
A fotografia de Joaquim Proença Lobo devolve-nos aos dias da Independência de Angola. As imagens preservadas pelo Arquivo Municipal de Lisboa são testemunhos e formas de resistência ao esquecimento. A emigração prolonga-se na reflexão sobre uma geração que transformou a mala de cartão em diplomas e procura o reconhecimento académico. A língua testemunha essa transformação. As palavras misturam-se e ganham sentidos. Terminamos com uma reflexão sobre a contabilidade em ritmo lento.
Assim se constrói esta edição 70: entre a arte e a cidadania, a memória e a viagem, saúde e habitação, a língua e as nossas Comunidades. Que estas páginas sejam uma forma de encontro com histórias que ligam Portugal ao mundo.
Boas leituras! Encontro marcado para novembro.



