O carisma de outras cozinhas

Batalhas do antigamente

Publicidade

Para mim sentar-me a uma mesa é muito mais do que uma necessidade alimentar. É, antes de mais, o gozo cultural em querer apreciar todos os atractivos que a mãe-natureza nos oferece numa refeição. Julgo, por isso, que a principal diferença entre alimentação e gastronomia consiste em que a alimentação é o contento de um aperto fisiológico enquanto a gastronomia permite elevar e sublimar essa função…

Daí que os animais na sua luta diária pela sobrevivência tenham de se alimentar e que o homem cedo descobriu que a natural alimentação não era apenas a fonte energética nem a reserva proteica para que a vida continuasse ao ritmo da primordialidade, mas, também, uma fonte inesgotável de outros prazeres: o prazer da própria intelectualidade, a alegria do excesso e da partilha, o desejo dos sentidos e das emoções, da satisfação e da exaustão … enfim, o prazer dos prazeres dos apetites. Aliás, foram estas recônditas aspirações e a angústia do fatídico envelhecimento que levaram o homem à procura dos alimentos mais prodigiosos… que reavivassem o fogo decrescente da sensualidade amorosa e dos prazeres do sexo. É por isso ― diz-se por aí ― que “envelhecer é mau para a saúde ou pelo menos é muito pior do que comer bem”. E nesta imperativa conveniência gastronómica, até os «olímpicos» deuses que festejaram o nascimento de Afrodite intentaram a mais sensata relação entre alimentos ingeridos e a «potência» libido sentiendi dos ciosos amantes. Aceitou-se, assim, que qualquer manjar dotado de poderes «afrodisíacos» exerceria um efeito estimulante nos dotes sexuais. Foi tal a excitação do invento que sábios e menos sábios, alquimistas, apotecários, druidas e feiticeiros, bruxas e benzedeiras (…) procuraram atormentadamente conhecer, minuciar, essas forças ocultas dos alimentos… e prometeram-nos as poções mágicas do amor ou os elixires da eterna juventude, condições necessárias para o remoçar dos amantes fatigados e já consumidos.

Diz a história alcoviteira que…
o nascimento do imperial príncipe Paulo, o filho da grande Catarina II e do deposto Pedro III, foi o resultado de um caótico e faustoso deleite de esturjão, caviar e vinhos exóticos na companhia do seu amante favorito [!] … a napoleónica frieza sexual da imperatriz Maria Luísa transformou-se em desejos ardentes graças a uma avinhada poularde truffé à la Périgueux… o nascimento do futuro Bom-Rei Henrique IV de França, Le vert-galant, terá sido consequência da gulodice de um paté de foie excessivamente trufado que o duque de Vendôme ofereceu a sua esposa Joana d’Albret… os cozinheiros de Madame La Comtesse du Barry, maîtresse-en-titre, davam a beber aos amantes da dita, para os arrastar a uma luxúria sem limites, um tónico de gengibre com gema de ovo… Rasputin, o místico aventureiro, protegido da imperatriz Alexandra Feodorovna, antes de se entregar à devassa não dispensava umas boas doses de caviar (…) já no outro lado do mundo, o imperador asteca Montezuma II tragava dúzias de chávenas de chocolate por dia que, pelos vistos, lhe aduzia energia suficiente para fazer amor com várias donzelas numa só noite (…) por cá, consta-se apenas por lá que a virilidade máscula dos barrosões se deve ao incenso do pote celta ou às ingestões extremas dos licores do druida de Vilar de Perdizes. Mas…

nestas contas históricas de prefixos e condões afrodisíacos as que melhor marcam os mistérios e a ousadia da gastronomia mística são acima de todas: as tais receitas, para aumentar o vigor sexual, da obra imortal do erotismo hindu, o clássico Kama Sutra de Vatsyayana, as fórmulas culinárias, para reconfortar corações e despertar desejos genitais, do poeta Kalyana Malla no seu Ananga Ranga, e o tratado de farmacologia chinesa Pen Ts’ao Kang Mu, onde se apresentam poções tão-tão mágicas que – a seu tempo – rejuvenescerão o homem, devolver-lhe-ão o vigor fálico e capacitá-lo-ão para suportar as mais duras batalhas… na cama e na mesa.
Por sua vez…
as tradições mitológicas e sociais das culturas greco-romanas também registaram orgias místicas de abusos gastronómicos e pretensas virtudes afrodisíacas… aos bolbos de formas genitais que levaram o latino Marcial a cantar num dos seus «Epigramas» “se a sua mulher é velha e o teu membro está defunto, não podes fazer outra coisa senão à força de bolbos” e o médico Marcelo Empírico a aconselhar: “se desejais ter esperma em abundância ou quando este falte, bebei uma decocção de saramago ou comei esta planta crua com frequência”; ou a acreditar em Plínio, o agrónomo romano que ensinava que a erva-do-salepo ― uma orquídea espontânea de tubérculos dependurados, conhecida na região por testículos-de-cão ― tinha eficácias erotizantes; ou que outros, já mais achegados aos nossos dias, afiançassem que o simples facto de trazer um pedaço de medula de titímalo, o portador sentir-se-ia propenso às mais atrevidas delícias amorosas. Pena foi que o filósofo peripatético, Teofrasto, não nos tivesse dito quais era as plantas que só com o respectivo contacto um varão pudesse praticar o coito mais de cinquenta vezes… ou porque é que o poeta-jesuíta de ascendência judaica, José de Acosta, afirmava que os pimentos em excesso eram prejudiciais para a saúde ― porque estimulavam o corpo, provocavam incontroláveis ardores sensuais e dificultavam os votos de castidade.

Dos produtos que aportaram do novo mundo…
admito, ainda, para esta saga, o tomate que conseguiu atingir o epiteto mais sensual dos nossos dias, e quão tardiamente foi cultivado na Europa [!] já que as damas espanholas o olhavam com desconfiança e vergonha púdica. Abençoadas cortesãs francesas, mais libertinas do que as suas congéneres ibéricas, que o começaram a utilizar na cozinha a partir do século XVIII com alguma frequência, mesmo que timidamente, por ser considerado imoderadamente afrodisíaco. Foi, por este amontoado de suspeitas, baptizado de «maçã-do-amor» e em Itália, por razões de pudor, como «maçã-de-ouro» … na Alemanha, por ser símbolo dos sensuais e perdoáveis pecados, apenas como «maçã-do-paraíso». Actualmente, no nosso pais, é tão-só o legume para todo o serviço gastronómico (…). Sobre a baunilha, as lendas mexicanas são o maior dos desafios aos perfumes eróticos dos colonizadores ibéricos, que ainda hoje perduram na culinária duriense ― enigma semelhante ao da canela nas migas de peixe da Senhora da Ribeira/Carrazeda de Ansiães. Só que, nos nossos dias, os fálicos frutos do estado de Chiapas estão a ser substituídos por produtos sintéticos em que o afeiçoado prestígio se esfuma na pastelaria gordurenta dos snaks e fast food idiotas.

Não foi apenas privilégio das culturas orientais
(ou mitológicas dos povos mediterrânicos), esta sabedoria gastrófila de efeitos lúbricos, mas, também, da mais prodigiosa das modernas cozinhas europeias – a italiana – que, com as suas «estranhas» misturas, era capaz de fazer milagres inconcebíveis para os seguidores da privação e da descrença. Legaram-nos manjares de fazer enlouquecer de amor um homem, à base de testículos de coelho, fígado de pombas e sangue das próprias; receitas para comprovar a pureza de uma donzela… com pólen de açucena e uma pitada de âmbar; petiscos que serviam para o homem fazer-se amar por uma jovem beldade, confeccionados com plantas de amaranto; poções que impediam a separação dos amantes; outras que restauravam a aparência da virgindade (…) e ainda outras para provocar a impotência de maridos infiéis ― mas… escuso-me a fornecer-vos as respectivas fórmulas para não injuriar a ciência imemorável dos saberes populares (…). Nicolau Maquiavel, na sua apologia ao adultério – a comédia A Mandrágora – refere os dons eróticos da raiz desta planta, que, segundo muitas lendas à época, era a verdadeira árvore do paraíso. Aliás o misticismo da mandrágora perdurou até há bem pouco tempo, e pelas afirmações de Maquiavel salvou da esterilidade muitas damas, inclusive a própria rainha de França. Ele próprio teve a oportunidade de testar as suas virtudes… diz que quatro vezes. Ainda se alegava que onde a mandrágora tocasse florescia o amor e tamanhas riquezas, daí a utilização generalizada por bruxas e feiticeiros no preparo das poções mágicas. Consta-se, junto dos delatores bourguignons e das excomungadas invejas, que, por ter sido encontrado um ramo de mandrágora no leito de Joana d’Arc, se agravaram as acusações de bruxaria contra ela. Hoje sabemos que é uma planta tóxica, alucinógena, narcótica… dispensável à função (…). Outra receita correntia da época, pelas virtudes excitantes da sexualidade, eram as tortilhas de flor de sabugueiro ― confeccionadas com queijo, manteiga, ovos, canela, açúcar e água de rosas.

Naturalmente…
todos os povos improvisaram e percorreram a imaginação na busca de comeres afrodisíacos, e os franceses não descuidaram esta pesquisa inglória, nem que fosse para manter as cortes lascivas e de volúpia constante do reino. Disso se consta da rainha Margarida de Navarra e das suas cunhadas que levaram uma vida tão perversa e desenfreada de adultério que só os misteriosos ensalmos e as poções secretas conseguiram manter o apetite sexual continuado. Azar da rainha que provocou as iras do rei enfastiado e viu-se perdida destes prazeres genitais.

[…] Das receitas da época
refere-se a extravagância dos ovos assados no espeto com ervas aromáticas e as ceboladas de ostras ou a crueldade de um guisado de miolos de pardal-macho e de borrachos que ainda não tenham começado a voar com puré de grão-de-bico, leite de cabra, nabos, cenouras e sementes de trevo. Até o afamado médico da peste, Nostradamus, mais conhecido pelas suas profecias, deixou receitas de doçaria que muito contribuíram para vulgarizar o uso do açúcar… que pretendiam atenuar a frieza da mulher no leito nupcial ou proporcionar o cumprimento das funções matrimoniais aos homens incapazes (…). Foram, ainda, muitos os mestres de cozinha que recomendaram o mais variado receituário para fortalecer o vigor sexual ou despertar os apetites genésicos ― as favas com toucinho, especiarias e saramago; as saladas de estragão, orégãos, chupa-mel, pimpinela, medula de sabugueiro, azeite e açúcar; a lampreia assada no espeto com vinho fortificado; as carpas com cerveja e aguardente, bem condimentadas de cheiros e sumo de laranja; o caldo de pontas de cornos de veados ou as pastilhas de chocolate, baunilha e tintura de cantáridas que o Marquês de Sade distribuía nas festas mundanas que organizava e que deixavam os convidados possuídos de tais e tantos ardores sexuais. E não julguem que o amante mais famoso de todos os tempos – Giacomo Casanova – nas suas maratonas estafadas de sexo se aliviava do estímulo fortificante das quarentas ostras diárias, caviar, trufas, chocolate quente e da sua salada preferida com um molho de pimenta preta, cebola, sálvia, hortelã-pimenta, vinagre e gemas de ovo.

Mas a história foi acertando a ideia da perigosidade
que podem ter as fórmulas afrodisíacas… e também as agonias que podem ocorrer aos que chegados à velhez e se arriscam a desposar mulher jovem e ambiciosa quando os anos já começaram a fazer os inevitáveis estragos. Deixo, no entanto, que a pesquisa vos abra o apetite, a ansiedade não vos demande aos chás de pau de cabinda ou aos pós de corno de rinoceronte e o encontro vos abnegue os viagras e os sex-shops de prazeres frustrados e iludidos.

Neste florilégio erótico-gastronómico
em que os agentes da alimentação convivem com os intermediários dos prazeres do amor e do sexo, o vocabulário amorável também se confunde com alguns dos produtos da criação gastronómica. Assim se assemelham os marmelos aos seios da mulher, a bêbera (figo grande) e a alcachofra à genitália feminina… ou se comparam os tomates com os testículos do homem e o pepino com o penduricalho que os acompanha. Com carinhos poéticos se diz que uma mulher tem olhos amendoados, pele cor de avelã, a maçã do rosto avermelhada ou lábios a saber a cerejas maduras. E com a brejeirice própria dos latinos mais facilmente se apregoa em relação à mulher que é boa como o milho, está apetitosa, comestível… e mordia-a, comi-a toda, nem que fosse com os olhos (…). Por último…

se Eros é o deus do amor […]
do capricho, do belo ou da inteligência feita carne-comestível, ou nutrição das paixões, a gastronomia terá de ser erótica porque é um canto ao apetite, à fome não saciada ou ao gozo à sabedoria do viver e do querer. E… nesta sequela erótica ou não da cozinha gastronómica assenta ainda a influência recíproca entre os prazeres da boca e os do sexo. A boca foi-nos dada para comer mas também para acariciar. É por isso que lábios meigos sugerem o amor sensual e, reciprocamente, a satisfação do instinto temperamental incita ao prazer gastronómico. O amor é na verdade uma guloseima que um bom espumante bem frio acrescenta de sensualidade.

Fico-me por aqui… porque sei que a castidade não se pode guardar, nem esconder, quando as comidas são muitas e boas, principalmente a «tal» sopa de feijão que Héracles devorou antes de desflorar quarenta e cinco virgens numa só noite…

O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico

Deixe um Comentário

Your email address will not be published.

Start typing and press Enter to search