Obra de Capa
Regresso décimo
Lembram-se ainda daquela operação de criação2, ou seja, da recriação da criação em que víamos surgir na Mona Lisa dois ovóides, um preto e um outro azul de maiores dimensões? Lembram-se ainda da luta titânica que travaram para se tornarem no actor principal no teatro monalisiano? Pois bem, eis o regresso notório desta temerária disputa pelo poder. Só que, desta feita, como insolente transgressor que Casimiro é, decidiu dar-lhes “menos palco” a favor de uma saturação cromática de enevoamentos e brumas misteriosas (não escuras como o breu, mas vibrantes e quentes enquanto atmosferas sensíveis). Trabalho de readequação, de remontagem, de refortificação da estrutura prévia, já que o artista parece sentir um terrível e angustiante mal-estar, ou incómodo nefasto, quando percebe que os seus exercícios de ultrapassagem e transgressão do original se tornam eles próprios acomodados e aclimatados à tepidez do “já visto”.
Se já foi visto, faça-se outra vez, mas nesta ocasião, transmute-se a significância e a importância dos agentes ovoidais, retirando-lhes a conduta central, para a própria Mona Lisa poder obter alguma consideração. Se o seu orgulho narcísico, ferido e melindrado pela pouca atenção, levou Casimiro, num acto de grande compaixão e caridade pelo próximo, a encobrir os ovóides, o artista provoca-lhe novamente um grande desgosto quando, em vez de lhe limpar o espaço de representação, de maneira a elevá-la para o plano central, decide enclausurá-la numa híbrida ligação colorista, enjaulando-a numa celebração à pintura com cor. Já o tínhamos dito e voltamos a reforçar, o artista é um eterno incorrigível que não pode ver a sua recriação cair na simples reprodução ou duplicidade daquilo já feito, mas sim envolver a reprodução numa contínua mutação, em sucessiva alteração.
Rodrigo Magalhães
O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico

Rodrigo Magalhães
Rodrigo Magalhães. Nasceu em 1993. Doutorado em História da Arte. Colaborador mensal no jornal As Artes Entre As Letras, colaborador da ArteCapital. Participa em revistas e catálogos de Arte e exerce trabalho de curadoria. Os interesses de investigação ancoram-se na História da Arte, nomeadamente na análise e historiografia de tendências, movimentos e desenvolvimentos estéticos da arte contemporânea, desdobrando-se consequentemente numa ramificação com outras vertentes artísticas como a literatura, o cinema, a música, dando expressão à capacidade polivalente da arte no período contemporâneo.






