Retratos da nova emigração

Andreia Dias, de Lisboa para Bruxelas

Andreia Dias tem 30 anos, é licenciada em Economia e tem um mestrado em Gestão. Nasceu e cresceu em Lisboa, mas vive há dois anos em Bruxelas, na Bélgica, para onde decidiu emigrar em busca de independência, de melhores condições de vida e de reconhecimento profissional. Encontrou tudo isso naquela que passou a ser a sua segunda casa, embora continue a sentir saudades da família e do clima português. Reconhece que, ontem como hoje, as motivações para deixar o país natal e partir em busca de uma vida melhor continuam a ser semelhantes. Nesta entrevista, fala do caminho que percorreu, das conquistas que alcançou e deixa alguns conselhos aos jovens que se questionam se devem ou não partir para trabalhar “lá fora”.

O que faz na Bégica?

Profissionalmente, trabalho numa empresa de investimento com impacto, cuja missão é financiar projetos de eletrificação em África. É um trabalho que me permite juntar a área financeira a um propósito com o qual me identifico e que, ao mesmo tempo, me tem dado a oportunidade de conhecer países e realidades que nunca imaginei vir a conhecer.

O que a levou a tomar a decisão de emigrar?

Desde que terminei a faculdade que tinha um bichinho dentro de mim a dizer-me que o mundo era enorme e que eu tinha de ir conhecê-lo. Na altura, achei que ainda não estava preparada e que precisava primeiro de ganhar alguma experiência profissional para, mais tarde, me poder candidatar a oportunidades no estrangeiro. Comecei, por isso, a trabalhar em Portugal. Fui ficando cada vez mais confortável e, aos poucos, a ideia de emigrar começou a ficar mais distante.
Aos 27 anos, ainda a viver em casa dos meus pais e um pouco mais insatisfeita com o meu trabalho, essa vontade voltou a crescer. Queria sair de casa dos meus pais, ter o meu próprio espaço e começar uma vida verdadeiramente independente. No entanto, sentia que o meu salário não me permitia arrendar uma casa, suportar as despesas e, ao mesmo tempo, continuar a ter uma vida social ativa e qualidade de vida. Foi aí que comecei novamente a olhar para o estrangeiro.

Que fatores em Portugal mais pesaram nessa decisão?

Queria viver a minha vida, crescer, ter a minha casa e ser independente, e sentia que em Portugal não estava a conseguir encontrar as condições para isso.
Cheguei a procurar outros empregos com salários melhores, mas muitas vezes vinham acompanhados de horários de trabalho que, para mim, não faziam sentido. Lembro-me perfeitamente de uma entrevista em que o entrevistador me disse, orgulhosamente: “Ontem saí daqui às 21h e hoje às 8h30 já cá estava.” O salário era, sem dúvida, bastante melhor, mas percebi que aquilo que poderia ganhar em termos monetários acabaria por perder em qualidade de vida, tempo para a família, amigos e para mim própria.
Não queria que a progressão profissional significasse necessariamente abdicar da minha vida fora do trabalho. Foi também isso que me levou a alargar a procura ao estrangeiro.

Quais foram as maiores dificuldades de adaptação?

Bruxelas é uma cidade bastante acessível para quem vem de fora. Há até quem brinque e diga que é difícil encontrar um belga em Bruxelas. É uma cidade extremamente internacional, o que faz com que seja relativamente fácil conhecer pessoas e comunicar. No entanto, a adaptação no trabalho foi um pouco mais difícil. A minha equipa é composta sobretudo por belgas e francesas e, apesar de a língua oficial de trabalho ser o inglês, no dia a dia os meus colegas comunicam muito em francês. E eu, que achava que percebia “um bocadinho grande” de francês, levei um verdadeiro balde de água fria. Lembro-me de chegar a casa a chorar no meu primeiro dia e pensar: “O que é que eu estou aqui a fazer?” Não percebia praticamente nada do que diziam à minha volta. Passar o dia inteiro a falar inglês e, ao mesmo tempo, tentar acompanhar as conversas em francês deixava-me com o cérebro em papa ao final do dia. Durante os primeiros tempos era normal chegar a casa com enormes dores de cabeça. Com o tempo fui-me habituando, o francês foi melhorando e aquilo que inicialmente parecia uma barreira enorme tornou-se apenas mais uma parte da experiência de viver fora.

Que estereótipos tinha sobre a Bélgica e descobriu que não eram verdade?

Imaginava um país frio, sem sol, com comida sem sabor e com pessoas que não seriam propriamente as mais calorosas ou simpáticas do mundo. E, apesar de não ser totalmente mentira, sobretudo a parte do tempo, descobri que não há ninguém mais simpático do que um belga num dia de sol, especialment depois de várias semanas de chuva e céu cinzento. Quando aparece o sol, parece que a cidade inteira muda de personalidade.
A comida também me surpreendeu. Obviamente, não se compara à cozinha portuguesa (uma competição impossível) mas, depois de conhecer alguns belgas e provar pratos caseiros, percebi que a gastronomia belga não é assim tão má. Uma boa carbonnade flamande, por exemplo, é daquelas coisas que sabe especialmente bem num dia frio e cinzento. Quanto às famosas batatas fritas belgas, confesso que as expectativas eram tão altas que acabei por ficar ligeiramente desiludida. São boas, sem dúvida, mas, no final do dia…continuam a ser batatas fritas.

Já enfrentou situações de preconceito ou discriminação?

Não. Felizmente, até hoje, nunca senti grande nível de discriminação por não ser belga.

Como é o seu dia a dia atualmente?

Um dia normal de semana começa por volta das 9h. Atualmente, demoro cerca de 20 minutos a chegar ao trabalho, em vez da hora que chegava a demorar em Portugal, e essa diferença tem um impacto enorme na qualidade de vida. À hora de almoço, tento aproveitar para fazer exercício físico, vou ao ginásio ou vou correr. O escritório tem um pequeno balneário onde posso tomar banho depois, o que facilita bastante.
O meu dia de trabalho termina normalmente por volta das 17h. Quando está bom tempo, às vezes vou a pé para casa. O caminho atravessa dois parques e gosto muito de ver as pessoas a aproveitarem o bom tempo (talvez porque, em Bruxelas, aprendemos rapidamente a não desperdiçar um raio de sol!).
Ao final do dia, tenho tempo e energia para estar com amigos, fazer desporto ou simplesmente estar em casa. Essa possibilidade de conciliar a vida profissional com a vida pessoal é algo que valorizo imenso.

Sente que é mais valorizada na Bélgica do que em Portugal?

Sim, na Bélgica sinto que faço um trabalho de que gosto e que sou reconhecida por aquilo que faço. Apesar de existirem diferentes níveis de responsabilidade dentro da empresa, sinto que há menos barreiras hierárquicas. O CEO almoça no mesmo refeitório que toda a gente e existe uma proximidade que eu não estava habituada a encontrar.
Também não há hesitação em dizer “bom trabalho” quando alguém merece. E, mais importante, o reconhecimento não vem apenas sob a forma de uma palmadinha nas costas, também se traduz em progressão profissional e compensação salarial. Isso faz me sentir que o esforço e o trabalho são realmente valorizados.

O que mais o surpreendeu na Bélgica?

O tempo foi, sem dúvida, uma das maiores surpresas. Não estava à espera de sentir tanta falta de um dia de sol e, mais do que sentir falta, percebi que não ter sol também tem um impacto físico. Depois de quase três semanas sem um único dia de sol, apenas com chuva, frio e céu cinzento, lembro-me de me sentir desanimada e triste, apesar de estar envolvida em imensas atividades e de estar constantemente a conhecer pessoas novas.
Mas também aprendi uma coisa com os belgas: não existe um “dia morto” por causa do tempo. Faça chuva, vento, neve ou estejam -10 graus lá fora, a vida continua. Como já ouvi dizerem por aqui, “não existe mau tempo, apenas mau equipamento”.
Outra grande surpresa foram as pessoas. Inicialmente, sentia-me especial por ter saído de Portugal e começado uma vida noutro país. Depois cheguei a Bruxelas e conheci tantas pessoas que tinham feito o mesmo, e muitas que tinham ido ainda mais longe. Pessoas que já tinham vivido do outro lado do mundo, outras que estavam prestes a partir para uma nova aventura noutro continente. Essas conversas fascinavam-me e continuam a fascinar-me. Conhecer pessoas de todo o mundo, com experiências e percursos tão diferentes, só aumentou ainda mais aquele bichinho que sempre tive de conhecer o mundo.

Como é viver longe da sua família e dos amigos de infância? O que significa “saudade” para si?

Não é fácil perder almoços, jantares, aniversários e encontros de família e amigos. Receber fotografias quando estão todos juntos provoca sempre um sentimento agridoce, fico feliz por vê-los, mas custa não estar lá.
A palavra “saudade” ganhou um significado diferente desde que emigrei. Descobri que aquilo de que sinto mais falta não são necessariamente os grandes momentos, mas as coisas mais pequenas e simples: um café ao final do dia com os amigos, jantar com os meus pais, uma corrida na marginal ou até um simples prego no prato no Rui dos Pregos.
São essas pequenas rotinas, que antes pareciam completamente banais, que ganham outro valor quando estamos longe.

Volta regularmente a Portugal? O que sente quando regressa?

Regresso pelo menos duas vezes por ano, no Natal e nas férias de verão. Antes de regressar, fico sempre ansiosa. Parece que o tempo não passa e que o dia de voltar nunca mais chega. As primeiras horas em Portugal também são curiosas, depois de passar meses a ouvir várias línguas todos os dias, de repente parece estranho ouvir português 100% do tempo à minha volta.
Há sempre aquela sensação inicial de “estou a voltar para casa”. Mas, depois de alguns dias, também percebo que aquela casa já não é exatamente a minha casa. A minha rotina, as minhas coisas e o meu dia a dia já não estão ali.
É uma sensação estranha perceber que podemos ter duas casas. Portugal continua a ser casa, mas Bruxelas também se tornou casa. Ainda assim, estar perto da família e dos amigos reconforta sempre o coração.

Como vê Portugal agora, estando longe?

Portugal é um bocadinho como aquele irmão com quem estamos sempre a discutir e que nos irrita imenso, mas de quem só nós podemos falar mal. Quando alguém de fora critica Portugal, aparece imediatamente o meu lado mais patriótico.
Descobri que gosto muito mais de Portugal do que imaginava. E também percebi que aquela ideia que muitas vezes temos de que os países do Norte da Europa são muito mais evoluídos em tudo não corresponde propriamente à realidade. Há muitas coisas das quais reclamamos em Portugal que funcionam exatamente da mesma forma, ou por vezes pior, em países que consideramos mais ricos e desenvolvidos. A distância fez-me olhar para Portugal com mais espírito crítico, mas também com muito mais carinho e orgulho.

Sente que mudou como pessoa depois de emigrar?

Sem dúvida. Mas acho que todos crescemos e mudamos consoante as experiências que vivemos e o ambiente em que estamos inseridos. Hoje vivo num contexto muito mais internacional, naquilo a que muitas vezes chamamos a capital da Europa, rodeada de pessoas de diferentes países e culturas. Tenho também um trabalho que me permite viajar para lugares do mundo onde nunca pensei vir a estar. Tudo isso mudou a minha perspetiva. Fez-me questionar algumas ideias que tinha como certas, tornou-me mais independente e ensinou-me a valorizar outras coisas. Acho que também me tornou mais curiosa e muito mais consciente de quão grande e diverso é o mundo e de quão privilegiada sou por ter nascido em Portugal.

Que valores portugueses leva consigo no dia a dia?

Sobretudo a importância da família. Longe ou perto, sei que a minha família vai estar sempre lá. Emigrar também me fez perceber os meus próprios limites em relação à distância. Antes imaginava-me perfeitamente a viver em África ou noutro continente. Hoje, apesar de adorar viajar para esses lugares, penso que, para viver, o meu limite provavelmente será a Europa. A ideia de estar tão longe que não possa chegar rapidamente à minha família caso alguma coisa aconteça deixa-me ansiosa. Por isso, prefiro continuar “perto”.

Sente-se mais portuguesa, mais europeia ou já com uma identidade “mista”?

Ainda mais portuguesa agora. Estou muito bem onde estou e Bruxelas tornou-se uma segunda casa, mas Portugal será sempre o meu país e a minha primeira casa. Não há sol, mar, comida ou pessoas que, para mim, se comparem ao que temos em Portugal.
Ao mesmo tempo, viver em Bruxelas tornou-me provavelmente mais europeia na forma como vejo o mundo. Convivo diariamente com diferentes nacionalidades, culturas e formas de pensar. Mas isso, curiosamente, não diminuiu a minha identidade portuguesa, acho que até a tornou mais forte.

Sente que seria uma pessoa diferente se tivesse ficado em Portugal?

Sem dúvida. As experiências que tenho tido aqui, as pessoas que conheci e as conversas que tenho diariamente dificilmente seriam as mesmas se tivesse ficado em Portugal. A nível profissional, também acredito que teria sido difícil encontrar em Portugal um trabalho com o mesmo impacto daquele que faço atualmente. Não quer dizer que a pessoa em que me teria tornado em Portugal fosse melhor ou pior, seria simplesmente diferente. Emigrar obrigou-me a sair da minha zona de conforto, a tornar-me mais independente e a confrontar-me com situações que provavelmente nunca teria vivido se tivesse ficado.

Que imagem têm os belgas dos portugueses?

Quando digo que sou portuguesa, a primeira reação é sempre “Cristiano Ronaldo!”
Também existem alguns estereótipos mais antigos, sobretudo associados aos portugueses que emigraram para a Bélgica em gerações anteriores, nomeadamente a ideia de que os portugueses trabalham principalmente nas obras. E há ainda um estereótipo mais engraçado em que associam os homens portugueses a serem peludos. Não sei se é uma opinião generalizada entre os belgas, mas já ouvi esse comentário algumas vezes. Mas, de uma forma geral, sinto que existe uma imagem positiva dos portugueses. Somos vistos como acolhedores, pessoas que vêm de um país com bom tempo, boas praias e boa comida.

Vê uma nova “geração de emigrantes portugueses” diferente das anteriores?

Sim e não. No fundo, acho que a motivação principal continua a ser semelhante: procurar melhores condições de vida e melhores oportunidades. A grande diferença está talvez no perfil de quem emigra.
Tenho a sensação de que hoje há muitos mais jovens altamente qualificados a sair do país. Pessoas que estudaram durante anos, com licenciaturas e mestrados, e que sentem que o mercado de trabalho português não lhes oferece salários, progressão profissional ou condições compatíveis com a formação e o esforço que fizeram. Não são necessariamente pessoas que queiram abandonar Portugal.
Muitas vezes, é uma geração que sente que precisa de sair para encontrar lá fora a valorização profissional e a independência financeira que não consegue encontrar em “casa”.

Pondera regressar de foma definitiva? Em que condições o faria?

Neste momento, não pondero regressar definitivamente. Sinto que ainda tenho muito para explorar fora de Portugal e que esta experiência ainda está longe de terminar. A Bélgica também se tornou casa, é a minha casa longe de casa. Construí aqui uma rotina, amizades e uma vida profissional de que gosto bastante. Não me imagino a envelhecer na Bélgica, mas também não me imagino a sair daqui tão cedo. Talvez um dia Portugal volte a fazer sentido. Por agora, estou feliz em deixar essa decisão em aberto.

Que conselhos daria a jovens portugueses que estão a pensar emigrar?

Façam-no! Não vai ser fácil. Haverá dias em que vão questionar a decisão de ter saído, dias em que todas as burocracias parecem querer engolir-nos vivos e outros em que só apetece apanhar o primeiro avião e voltar para casa, para o colo da mãe.
Mas, fazendo o balanço, acredito que vale a pena. Nem tudo o que nos faz crescer é fácil.
Eu não podia estar mais grata por estes dois anos, por tudo o que aprendi, pelas pessoas que conheci, pelos lugares que tive oportunidade de descobrir e também pela relação que mantive com a minha família e os meus amigos, que continuam todos os dias a mostrar-me que 1.900km não têm de significar distância.
E acho que esse seria o meu principal conselho: não encarem a decisão de emigrar como uma decisão definitiva. Experimentem! Portugal não vai desaparecer. Se correr bem, descobriram um novo mundo, se não correr, podem sempre voltar para casa. Mas, pelo menos, nunca ficarão a pensar: “E se eu tivesse ido?”

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