Uma História Com Holandeses

Em Setembro de 1988 fui, como de costume, com o Ministro Deus Pinheiro à abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas. Como queríamos que no discurso dos Doze, que Andreas Papandreou, como Presidente das Comunidades Europeias, iria proferir no dia seguinte, fosse incluída uma menção a Timor Leste, o Rui Quartim Santos, que tinha em mãos esse processo, veio connosco, tendo escrito uma frase, cuidadosamente redigida, por forma a não criar, em princípio, grandes problemas aos nossos parceiros. Como havia tempo para a reunião comunitária convocada para aprovar o texto do discurso ainda fui ver um filme que acabara de se estrear em Nova Iorque e de que gostei muito.
Refiro-me a “The Unbearable Lightness of Being”, com Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin, de que gostei muito. A primavera de Praga vista de uma maneira original.
À hora marcada lá estava eu na Delegação da Grécia. O texto preparado pelos gregos foi acrescentado com alguns parágrafos introduzidos por outros parceiros. Mas o texto que eu apresentei provocou um silêncio apenas quebrado por um “niet” vigoroso do representante holandês, Adriaan Szeged, se bem me lembro do nome. A explicação dada foi a das relações muito estreitas com a Indonésia. Perguntei então aos outros se tinham, por eles, qualquer objecção ao meu texto. Todos disseram que não, mas que compreendiam as razões de Haia. E eu voltei a insistir: “No caso dessa reticência dos Países Baixos, por algum motivo for retirada, a frase passa?” E todos voltaram a dizer que sim, incluindo o inglês que eu sabia que estava muito confortável com a atitude dos holandeses, que assim, o dispensava de gastar um cartucho que mais tarde lhe poderia ser útil.
Voltei para o hotel e contei ao Ministro o sucedido. O Rui Quartim prontificou-se para apresentar outra versão do papel, mas era evidente que qualquer que fosse o papel os holandeses não iriam mudar.
E então, eu sugeri que o Ministro contactasse pessoalmente o seu colega dos Países Baixos, Hans Van den Broek, que eu considerava um tipo decente (que mais tarde me veio a convidar quando Comissário, para ocupar o cargo de Director para a Política Externa, que recusei).
Eu sabia que nessa noite, o Presidente Reagan convidava para jantar todos os Chefes de Delegação presentes em Nova Iorque naquele dia, e achei que tinha que ser ali que havia que procurar uma resolução para o problema. A questão era que cada convidado se podia apenas fazer acompanhar por um segurança. “Mas isso não tem importância nenhuma”, comentou o Ministro, “Manel tu vens como segurança.”
E assim foi. Entrámos e eu juntei-me aos seguranças, enquanto João de Deus Pinheiro abordava o seu colega Van den Broek que já se encontrava na sala. Eu, do local onde estava, vi que ele puxou dum papel e lhe mostrou. O holandês olhou para o papel enquanto o nosso Ministro lhe dizia umas palavras que o convenceram, porque passados dois minutos, se tanto, Van den Broek sacou da caneta, escreveu algo no papel, e devolveu-o. Por um sinal a chamar-me, percebi que tudo tinha corrido bem e aproximei-me, agarrei o papel e voltei para o hotel. Telefonei para o representante dos Países Baixos e disse-lhe triunfante: “Adriaan, se estás em pé senta-te, porque o meu papel passou.”
Cerca de uma hora depois, o incrédulo holandês pegou no papel que lhe entreguei onde se lia, em letra bem desenhada: “OKAY. Van den Broek.”
No dia seguinte, o Primeiro Ministro grego, Andreas Papandreou, leu o discurso das Comunidades Europeias, onde figurava o texto sobre Timor, que embora não tenha produzido o menor efeito, a nós, especialmente ao Rui Quartim Santos, deu uma enorme satisfação.
O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico



