João Simões

João Simões revela um percurso profundamente marcado pela terra, pela memória e pela relação íntima com os materiais que moldaram a sua identidade artística. Da infância vivida entre a Covilhã e Alcaide — onde a natureza, o trabalho agrícola e a observação do mundo foram raízes fundadoras — até à formação na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, Simões construiu uma linguagem visual que cruza desenho, pintura, escultura e assemblage. A sua obra nasce do contraste entre o universo rural e a vida urbana, entre a madeira quente e a argila fria, entre a memória e a transformação. Com dezenas de exposições individuais e coletivas desde 1984, e uma carreira paralela como professor de Desenho, João Simões mantém um percurso de criação contínua, guiado pela curiosidade, pela experimentação e pela convicção de que o processo artístico é sempre um caminho em aberto.
Como a sua infância na Beira Baixa continua a influenciar o seu trabalho artístico?
A minha infância e adolescência foram vividas na Beira Baixa, num ambiente muito ligado à terra e à vida rural. Foi uma experiência que me marcou profundamente. Juntamente com os meus irmãos, participava nas tarefas agrícolas da família e, desde muito cedo, tive um contacto próximo com as plantas e os animais que faziam parte da nossa quinta. Talvez por isso, tenha desenvolvido também, uma forma muito particular de observar aquilo que me rodeava. A natureza, nas suas diferentes representações, as estações ao longo do ano, os objetos, as formas e as pequenas coisas do quotidiano despertavam-me curiosidade. Hoje reconheço que muitas dessas experiências continuam presentes no meu trabalho, não necessariamente como uma representação direta daquilo que vivi, mas como uma memória, uma maneira de olhar, de me relacionar com o mundo contemporâneo e de o representar no meu modo . A representação de cruzamentos de linhas podem representar troncos entrelaçados, os espaços abertos nas esculturas que lembram o vazio existente entre os ramos de uma árvore, as linhas onduladas que representam o desenho de uma ribeira numa baixa de terra são alguns exemplos visuais dessas memórias. Também o ocre de uma peça de cerâmica procura a cor das telhas de um velho telhado ou o verde de uma escultura reflete as diferentes tonalidades de uma charca de água ao final do dia.



De que forma a relação com a natureza moldou a sua identidade criativa?
A vontade de criar surgiu de uma forma muito natural. Em criança gostava de construir objetos com paus, restos de madeira, cordéis e arames e, ao mesmo tempo, comecei a desenhar aquilo que observava. Eram coisas muito simples, feitas com os materiais que tinha à disposição, mas havia já uma necessidade de experimentar e de transformar aquilo que encontrava. Mais tarde, durante o ensino secundário, tive uma professora que tinha frequentado a Faculdade de Belas-Artes. As suas aulas foram particularmente importantes para mim porque me fizeram perceber que aquilo que fazia de forma espontânea poderia ter outra dimensão. Comecei então a olhar para o desenho não apenas como uma brincadeira ou uma atividade de que gostava, mas como uma possível forma de expressão e como um caminho que poderia seguir. Foi assim que surgiu a ideia de estudar Belas-Artes e de perceber até onde poderia levar essa vontade de criar.

O que representa para si trabalhar com materiais como a madeira e a argila?
Trabalhar com materiais como madeira e argila representa um regresso às origens, à matéria e ao contacto com a natureza. São materiais que possuem uma identidade própria, uma textura, um peso, uma memória que de certa forma dialogam com o artista que as trabalha. A madeira está ligada de um modo muito particular às vivências da minha infância / juventude , ao contacto com a terra, com as árvores e com os objetos que construí com os paus que encontrava de diferentes formas , a que atribuía os mais variados significados. A argila por sua vez permite uma relação mais plástica e intuitiva, em que as mãos podem transformar a matéria e dar-lhe forma volume e expressão. Ao esculpir a madeira ou moldar a argila, entro num processo de descoberta, em que a matéria por vezes sugere uma forma, fruto de uma descoberta. Existe neste processo uma dimensão quase sensorial e emocional em que memória, registo gráfico, desenho, gesto e matéria se encontram. No fundo trabalhar estes dois materiais, a madeira e a argila, permitem manter uma ligação entre aquilo que vivi, aquilo que observo e aquilo que procuro expressar através da arte.
Como o desenho se tornou o alicerce da sua evolução artística?
Desenhar é um verbo que implica uma ação que tem que ser realizada. O Desenho é o seu resultado. Os materiais necessários utilizados para realizar atividade são dois: um elemento riscador, o lápis, e um suporte, o papel. Nada
mais simples de descrever, simultaneamente por vezes o mais complexo de realizar. Este desafio que parece ter algo de mágico, pois mostramos o que vemos e simultaneamente o que sentimos, torna-se num vício que recorrente, necessito de realizar, pelas mais variadas razões e pelas saborosas descobertas que proporciona. Foram e continuam a ser estas descobertas que o desenho me proporciona que induzem a minha evolução artística. Posso defini-las como o elemento inicial que promove muitos dos projetos artísticos que promovo. Claro que para além do desenho existe a escrita na forma de apontamentos ou anotações em registos de ideias que tenho e fotografias que registo para memória futura.
Que transformações pessoais e artísticas resultaram da mudança para Lisboa aos dezoito anos?
A mudança para Lisboa foi uma transformação muito grande. Tinha crescido num ambiente rural, numa realidade muito diferente daquela que encontrei na cidade. Lisboa tinha outro ritmo, outra dimensão e uma enorme diversidade de experiências. Tudo parecia acontecer de uma forma mais rápida e intensa. Ao mesmo tempo, essa mudança permitiu-me conhecer outras pessoas, outras formas de pensar e outras experiências. A formação na Escola Superior de Belas-Artes foi também muito importante nesse processo. Frequentei o curso de Pintura e tive contacto com diferentes áreas e técnicas, desde o desenho e a pintura à cerâmica e à escultura.
Penso que o contraste entre esses dois mundos acabou por se tornar importante na minha maneira de olhar para a realidade. As memórias da infância e da natureza permaneceram comigo, mas passaram a coexistir com tudo aquilo que fui descobrindo em Lisboa. Esse diálogo entre experiências diferentes acabou por fazer parte do meu percurso artístico.
Qual é o significado da sua participação no projeto Realces e de que forma este diálogo com a arte sensorial se integra no seu percurso artístico?
O Projeto Realces tem para mim uma importância enorme, pois desta reflexão nasce o interesse por projetos entendidos como espaços entre a obra e o público onde a experiência artística se realiza através da ativação dos sentidos sem restrições de espécie alguma . A arte é um momento de liberdade e levar essa mesma arte a um público que a vê e explora de uma forma diferente, é muito gratificante saber que as minhas peças se tornam veículos para a criação de experiências em que a matéria , a textura , os relevos, as concavidades, e o espaço no vazio assumem um papel fundamental na construção de significados e emoções.
Assim, o Projeto Realces, integra-se no meu percurso como o prolongamento da pesquisa desenvolvida ao longo dos anos, reunindo memórias, experiências e aprendizagens numa abordagem que valoriza a percepção, a descoberta e a interação com elementos essenciais da criação artística.

O que mais o marcou nas várias exposições individuais e coletivas em que participou?
O que mais me marcou nas diversas exposições individuais e coletivas em que participei, foi partilhar o meu trabalho com públicos distintos e observar a forma como cada pessoa estabelece um relação única com as obras. Ver as minhas criações saírem do espaço íntimo do atelier para encontrarem novos olhares, interpretações e emoções tem sido uma das experiências mais enriquecedoras do meu percurso artístico. Nas exposições individuais é mais marcante a possibilidade de apresentar um conjunto coerente de trabalhos que refletem uma determinada fase da minha investigação e da minha evolução enquanto artista. Estes momentos permitem uma maior proximidade entre a obra e o público. Já nas exposições coletivas , valorizo o encontro e a partilha com outros artistas, a diversidade das linguagens e a troca de experiências que contribuem para o enriquecimento mútuo.
Acima de tudo o que permanece na memória são os encontros humanos proporcionados pela arte, as conversas, as interpretações e as emoções partilhadas que podem estabelecer pontes entre pessoas , culturas e formas distintas de ver o mundo.
Como encara o reconhecimento obtido através dos prémios recebidos ao longo da carreira?
Encaro o reconhecimento obtido através dos prémios recebidos com gratidão e humildade. Cada distinção representa uma valorização do trabalho desenvolvido ao longo dos anos e constitui um incentivo para continuar a minha pesquisa artística. Mais do que um objetivo os prémios são em si mesmo, um sinal de que a obra consegue estabelecer um diálogo com o público, os críticos e as instituições. Vejo-os como um momento de reconhecimento de um percurso marcado pela persistência, dedicação e pela experimentação e procura constante de novas e diferentes formas de expressão.




Pode-nos revelar alguns dos seus projetos para 2027?
Entre os projetos futuros destaca-se a realização de uma exposição centrada na figura humana, explorando particularmente o retrato e a expressão do rosto como território privilegiado da identidade , memória e emoção.
Este projeto, para o qual já estou a realizar desenhos, pretende desenvolver uma série de obras onde as caras e os retratos assumem o papel de protagonistas, não apenas como representação física do indivíduo, mas como reflexo das suas vivências, sentimentos e relações com o mundo. Através da tridimensionalidade utilizando a experimentação de diferentes materiais e técnicas , procurarei aprofundar a capacidade expressiva do rosto humano, captando gestos, olhares e marcas que revelam a singularidade de cada pessoa. Pretendo que esta exposição seja acessível a todo o tipo de público independentemente da capacidade de leitura das obras, visual, táctil, ou auditiva.
Uma mensagem para todos os autores, criadores e artistas do mundo.
A Arte é uma das mais belas formas de LIBERDADE e um dos mais profundos testemunhos da CONDIÇÃO HUMANA.
Através dela preservamos memórias, questionamos o presente, imaginamos o futuro, estabelecemos pontes inimagináveis com culturas , povos e gerações.
Não desistam, o caminho não é fácil mas a verdade, a autenticidade e a sensibilidade vencem as incertezas, as dificuldades. O mundo necessita da imaginação dos artistas para continuar a ser um espaço de encontro, diálogo e transformação.






