Ricardo Dias dos Santos

Ricardo Dias dos Santos é uma figura central no panorama do metal português, guitarrista fundador e compositor da banda Heavenwood. Nascidos no fervilhar criativo dos anos 90, os Heavenwood afirmaram-se rapidamente como uma das bandas mais singulares e consistentes do metal português. Desde cedo, ultrapassaram fronteiras, levando a sua “Portugalidade musical pelos 4 cantos do mundo”, construindo um legado que combina ambição, identidade e uma notável capacidade de adaptação. Entre edições internacionais, colaborações com produtores de renome e atuações históricas — incluindo a primeira presença portuguesa no Wacken Open Air — a banda consolidou um percurso raro no panorama nacional. Hoje, continuam a reinventar-se sem perder a essência, guiados por uma filosofia simples mas poderosa: fazer música com alma. Nesta entrevista exploramos a sua jornada musical, os desafios e triunfos da banda, e a sua visão sobre o futuro do metal.
Os Heavenwood foram formados em 1992 e rapidamente se tornaram um dos nomes mais respeitados do metal português. Como descreveria a visão inicial que impulsionou a criação da banda e como essa visão evoluiu ao longo de mais de três décadas?
Heavenwood formou-se nos inícios da época dos saudosos anos 90, conforme a generalidade das bandas nacionais e internacionais denominadas de “bandas de garagem”. Um grupo de jovens amigos de escola, apaixonados pela transcendência que a música lhes transmitia e ao mesmo tempo ajudava a expressar e lidar com um sem número de sentimentos. Independentemente das parcas condições técnicas, no que a equipamento de som e instrumentos musicais diz respeito, aliado às ainda inocentes limitações técnicas e domínio dos seus instrumentos musicais, nada disso foi impedimento para conceber e dar á Luz esta fonte de criatividade musical portuguesa. Um legado mantido e preservado até aos dias presentes, espalhando a sua Portugalidade musical pelos 4 cantos do mundo ao longo de seis registos discográficos, lançados por editoras internacionais, desde a Alemanha, Japão ou França. Trabalhando em estúdio com os melhores produtores musicais do género, também eles de nacionalidades estrangeiras, de modo a potencializar e profissionalizar ao máximo a qualidade da fonte sonora “made in Portugal”. Essas parcerias estratégicas, ao trabalhar com produtores alemães, suecos, polacos ou franceses, além de alicerçar os padrões de qualidade de um banda musical do Sul da Europa, garantiu o selo de qualidade imperativo para as músicas serem escutadas, apreciadas e consumidas até aos dias de hoje pelos fans das mais variadas gerações, culturas ou estratos sociais. Este é o poder da música: criar pontes e estabelecer cadeias de união entre seres humanos.



O álbum de estreia, “Diva” (1996), foi um marco, sendo o primeiro lançamento de uma banda portuguesa de metal a ser oficialmente editado no Japão. Que memórias guarda desse período e qual o impacto que esse reconhecimento internacional teve na trajetória dos Heavenwood?
Foi uma surpresa enorme, além de sermos a primeira banda portuguesa a conseguir editar nesse mercado acabou por abrir as portas para outros licenciamentos noutros formatos. Recordo que no início dos anos 90 existiam um sem número de países dentro e fora da Europa com escasso ou limitadíssimo acesso a cds, de modo que em inúmeros países de Leste e Médio-Oriente o recurso a cassetes era o principal veículo de divulgação dos lançamentos discográficos de qualquer banda ou género musical. Tal modus operandi e circunstâncias levou Heavenwood a chegar a fans de países e culturas inesperadas, tais como Síria, Palestina, Ucrânia, Iraque, Líbano, Kuwait, Israel, China, Rússia. No caso do Japão, o registo foi lançado em CD pela editora Avalon / Marquis Belle Epoque e hoje em dia é um item com valores interessantes para os colecionadores, nos outros casos existem no mercado várias edições em Cassete. Se não tivesse sido assim jamais teríamos sido chamados para tocar nos Emirados Árabes Unidos, no Dubai e enquanto a primeira banda portuguesa de Heavy Metal a lá atuar e com devida autorização governamental/emirado.
A banda partilhou palcos com nomes como Cradle of Filth, In Flames e Moonspell, e foi a primeira banda portuguesa a atuar no Wacken Open Air. Quais foram os momentos mais marcantes dessas experiências e como elas moldaram a identidade musical dos Heavenwood?
Ter sido a primeira banda portuguesa a atuar no maior festival de Heavy Metal do mundo é outro marco e legado que Heavenwood carrega. Neste caso, a Alemanha sempre foi o coração e motor deste mercado, alinhando com a gestão dos mercados G/A/S (Alemanha, Áustria e Suíça), bem como com o mercado Benelux (Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo). Tudo isto são estruturas e dinâmicas de mercado que me parecem ainda desconhecidas (mesmo em 2026) das bandas portuguesas e que são vitais para singrar primeiramente na Europa. Atuar com essas e outras bandas a tais como os noruegueses Theatre of Tragedy, os suecos Lake of Tears, os germânicos Atrocity ou os Americanos Solitude Aeturnus permitiu a banda estar exposta a milhares de fans nas extensas tours efetuadas, lidas com a imprensa internacional do género. Acredito que o espírito de missão cumprida e com sucesso ajudou a criar uma Fan base fiel, independentemente da futura regularidade dos lançamentos discográficos ou atuações no estrangeiro.
Após um hiato, a banda regressou com “Redemption” (2008), marcando uma nova fase criativa. Quais foram os principais desafios e motivações para esse regresso, e como a experiência acumulada influenciou a sonoridade e a composição desse álbum?
Na época, por exemplo, ter a missão de criar um novo álbum com mais maturidade musical, mas sem adulterar a essência de Heavenwood. Estar ao nível dos padrões de qualidade exigidos pelo produtor sueco Jens Bogren e os seus Fascination Studios, em Örebro. Seríamos a primeira banda de metal portuguesa a trabalhar com um produtor que estava nessa época a assinar produções de gigantes do género como Opeth, Katatonia, Amon Amarth ou Paradise Lost. Essa época ficou marcada pela exportação da banda através da edição via editora nacional, a Recital Records, que acreditou e investiu com sucesso nos resultados alcançados em todos sentidos. O culminar, para mim, foi o facto de ter conseguido ser a primeira banda de Heavy Metal portuguesa a atuar na Casa da Música, fez-se História.
Álbuns como “Abyss Masterpiece” (2011), inspirado na Marquesa de Alorna, e “The Tarot of the Bohemians – Part I” (2016), baseado em estudos esotéricos, demonstram uma profundidade artística notável. Como aborda o processo de composição e a incorporação de elementos literários e esotéricos na música dos Heavenwood?
O álbum de 2011 “Abyss Masterpiece” foi uma experiência inesquecível em todos sentidos, desta feita misturado e masterizado na Alemanha pelo conceituado produtor alemão Kristian Kohler que hoje detém a empresa de áudio digital Kohler Audio Kult. Nova casa / editora, de um pais bem próximo de todos os portugueses, a França e que na época tinha no seu portfólio a banda francesa que inaugurou os últimos jogos olímpicos de Paris com uma performance estonteante: os Gojira. A Listenable Records fez um excelente trabalho na promoção de Heavenwood na França, Países Francófonos e restante mundo. Relativamente a uma das primeiras grandes poetisas portuguesas, a Alcipe, conforme era conhecida no mundo literário da época e na Nova Arcádia (levada para lá às escondidas e em papel pelas mãos do seu amigo Bocage, uma vez que no século XVIII era impossível o convívio entre mulheres e homens), tive na época em 2010 imensas dificuldades em ter acesso aos seus sonetos e obras, para mim era inacreditável esta jovem portuguesa que efetuou as primeiras traduções de Goethe para português e que mais tarde criaria a Sociedade da Rosa, estar “apagada” ou “escondida”. Certo que recentemente e felizmente surgiram edições literárias e bibliográficas acerca de D.Leonor, mas em 2010 não. Consegui ter acesso às suas obras digitalizadas e guardadas na Biblioteca Digital de Washington e para mim quando as descobri foi aquele momento “Eureka”!! Relativamente ao filantropo, médico, físico e ocultista francês/espanhol do século XVIII, Dr Gerard Encausse (ou Papus conforme é conhecido no universo esotérico) recorde ter lido um pequeno artigo acerca dele e de ser referenciado também de forma sintetizada num artigo da Blavatsky que me suscitou imensa curiosidade. Esta personalidade e personagem francesa transmitiu-me a sensação de ser um estudioso do físico e do metafísico, esotérico mas também científico, o que acabei por comprovar ao ler algumas obras suas (raras também) sentido uma vontade enorme de lhe prestar tributo. Mais tarde viria a constatar que o mesmo serviu de base e inspiração, consulta para inúmeros outros mais contemporâneos.
Em 2025, os Heavenwood assinaram um contrato mundial com a Mighty Music Records/Target Group para o lançamento de “The Tarot of the Bohemians – Part II”. O que podem os fãs esperar deste novo capítulo e como a banda tem conseguido preservar a sua essência enquanto se move para o futuro?
É o culminar e encerrar de um capítulo iniciado em 2016, com a primeira parte. Um álbum que reúne musicalmente todo o espectro musical criado desde 1996, onde cada tema é uma espécie de banda sonora do significado esotérico das cartas maiores arcanas, em específico, estudadas, analisadas e justificadas por Papus na sua obra literária.
Os temas, também eles, tem um script musical além do script lírico e o interessante disto tudo é o transportar conhecimento do século XVIII para o século XXI.
Com a sua vasta experiência na indústria musical, como avalia a evolução da cena do metal em Portugal ao longo dos anos e quais os principais desafios que as bandas portuguesas enfrentam atualmente para alcançar reconhecimento internacional?
Portugal prima por ser um dos poucos países Europeus com maior percentagem per capita de bandas de Heavy Metal, suplantado pelos países nórdicos que são efetivamente os Players do Mercado.
As grandes diferenças é que a cultura nórdica tem imensos apoios e fundos estatais que permitem aos musicais e artistas trabalhar com as melhores ferramentas, dedicarem 100% à sua arte e apoios na exportação, distribuição e implantação da cultura nórdica em termos globais. O ditado “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” é adequado à estratégia dos governos e ministérios da cultura dos países nórdicos relativamente à cultura, isto porque esse investimento foi efetuado a médio longo prazo e agora recolhem os respetivos frutos. Por exemplo, em 1996 os portugueses Heavenwood foram fazer literalmente tudo aquilo que os suecos In Flames foram fazer: Gravação de um disco, edição e promoção além-fronteiras, a diferença é que os Portugueses tiveram zero apoio financeiro e os suecos com total apoio — recordo na altura conversa acerca disto e eles ficarem incrédulos.
Hoje em dia já existem algumas plataformas nacionais de apoio, que certamente não chegará para todos os projetos nacionais. No caso de Heavenwood, nunca recorremos a nenhuma delas e não foi por esse motivo que o trabalho não apareceu feito.
O que falta às bandas nacionais do género?
Talvez definir mais a sua essência musical com base nas tradições portuguesas, desde o sentimento e conteúdo das palavras até à génese e harmonia / melodias mais características. Isto porque copiar aquilo que já foi copiado levará a lado algum, num mercado global cada vez mais competitivo, filtrado e exigente. Sei e acredito que existe um fator que ainda impera e vinga na arte musical, independentemente da nacionalidade ou cultura: Fazer música com Alma.
Enquanto guitarrista e compositor, quais são as suas principais influências musicais e como as íntegra no som distintivo e melancólico dos Heavenwood?
Eu sou um músico eclético, tenho o meu “guilty pleasure” que são as músicas intemporais dos anos 80, os clássicos dos 70 também. Posso definir como uma viagem entre Metallica, The Sisters of Mercy, Dura Duran e Prokofiev.
A reedição de luxo de álbuns como “Diva” e “Swallow” em 2024 e 2025 celebra o legado da banda. Qual a importância de revisitar e preservar a história dos Heavenwood para as novas gerações de fãs e músicos?
Muito importante também porque ambos foram editados pela primeira vez em vinil, com uma apresentação deluxe que resultaram num estrondoso e saboroso resultado de vendas e feedback muito positivo, vindos de fans espalhados pelo mundo fora. Serviram para comprovar a vitalidade, importância e necessidade de continuar a alimentar esse legado em respeito por mim próprio e pelos fans. Sim, imensos músicos conhecidos da atualidade da cena e panorama a internacional consideram ainda hoje os álbuns “Diva” e “Swallow” como um marco na sua juventude até aos dias de hoje é isso é de sentir uma espécie de orgulho humildemente falando.


Olhando para o futuro, para além do lançamento de “The Tarot of the Bohemians — Part II”, quais são os próximos objetivos e ambições de Ricardo Dias dos Santos e dos Heavenwood, tanto a nível criativo como de digressões e presença global? Pode-nos revelar alguns dos seus projetos para 2026?
A preparação de um espetáculo simbólico ao vivo em jeito de celebração, não apenas do novo álbum, mas de tudo isto: de mim, de ti e de nós.
Uma mensagem para todos os autores, criadores e artistas do mundo.
Um bem-haja a todos e que jamais deixem de acreditar nos seus desejos, projetos e sonhos porque, “There’s a Light that never ends”.











