Ana Isabel Xavier
Secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação

Ana Isabel Xavier aborda a complexidade do cenário internacional atual, destacando a importância de uma matriz de atuação de longo prazo e a interdependência crescente entre a política externa e a vida quotidiana dos cidadãos. A entrevista explora o papel de Portugal como construtor de pontes no multilateralismo, a sua credibilidade internacional e a relevância dos seus ativos estratégicos, como a língua portuguesa e a Zona Económica Exclusiva. Uma perspetiva valiosa sobre os desafios e oportunidades que Portugal enfrenta no panorama global, e a forma como a diplomacia se torna um pilar essencial para a estabilidade, segurança e desenvolvimento do país.

O seu percurso académico e profissional sempre esteve profundamente ligado às áreas da segurança, das Relações Internacionais, da estratégia e da geopolítica, muito antes de assumir funções governativas. Num tempo em que a política tende, muitas vezes, a privilegiar ciclos curtos e respostas imediatas, sente que a sua formação mais analítica e estratégica lhe permite olhar para os desafios internacionais com uma profundidade diferente?
É verdade que a política atual vive, muitas vezes, condicionada pela espuma dos dias. E é aí que as Relações Internacionais são importantes, porque nos permitem olhar para o mundo que nos rodeia e compreender as dinâmicas de forma aprofundada. Permite que nos detenhamos sobre quadros teóricos analíticos que não podem ser nem reativos, nem de circunstância ou contexto, porque o que gerimos hoje é o resultado de tendências, ciclos, padrões que, na verdade, se desenham com cadência e regularidade. Por outras palavras, as Relações Internacionais ensinam-nos que nenhum acontecimento deve ser visto de forma isolada, mas sim como parte de um tabuleiro global, onde convergem diferentes atores, com diferentes interesses, objetivos e até conceções de poder.
Por isso, também a política externa não se pode guiar por uma matriz de atuação de curto prazo. Um pensamento mais analítico e estratégico é essencial para definir e executar políticas públicas, antecipar cenários, dar prioridade aos interesses permanentes do Estado, garantir a segurança e a estabilidade.
Desempenhar funções governativas é assumir este foco de responder às exigências do presente, mas sempre com a consciência clara do que é estrutural e que o “combate político diário” não pode ser trocado por uma visão de longo prazo.
De que forma esse percurso, feito entre investigação, pensamento estratégico, ensino e reflexão sobre segurança internacional, moldou a governante que é hoje e a forma como interpreta o papel de Portugal no mundo?
Esse percurso moldou-me num princípio que, para mim, é fundamental: não há capacidade de decisão sem compreender a realidade. Essa é a chave para qualquer decisor político dar prioridade ao rigor dos factos e não à desinformação, à clareza na comunicação e não ao ruído mediático, ao diálogo e à moderação e não ao fundamentalismo. Não se pode ser um decisor nem por impulso, nem de impulsos! A ação governativa deve ser fundamentada, ponderada e sustentada!
Quanto ao papel de Portugal no mundo, vimos muito recentemente na nossa campanha bem-sucedida a um lugar não permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, como Portugal é reconhecido como um construtor de pontes e um ator insubstituível na promoção do multilateralismo e na defesa intransigente dos Direitos Humanos, paz e segurança. Portugal apresenta uma credibilidade internacional irrepreensível como interlocutor fiável e cumpridor, com uma centralidade atlântica única e uma ligação histórica profunda a vários continentes.
Não somos um país pequeno e muito menos irrelevante como parceiro indispensável na arquitetura europeia e internacional. Como decisores políticos, cabe-nos potenciar as oportunidades ao máximo!


Ao longo da sua carreira, trabalhou e estudou temas relacionados com defesa, segurança internacional, terrorismo, alianças estratégicas e equilíbrio geopolítico. Quando olha para o panorama internacional atual, marcado pela guerra na Europa, pela crescente tensão entre potências globais, pela instabilidade no Médio Oriente e pela redefinição das cadeias de influência mundial, sente que o mundo atravessa apenas uma fase particularmente complexa ou estamos perante uma transformação estrutural da ordem internacional tal como a conhecíamos nas últimas décadas?
É muito curiosa esta pergunta, porque nas Relações Internacionais estamos sempre à procura de momentos definidores de uma nova era ou transformadores da ordem mundial como a conhecemos: o fim da segunda guerra mundial e a criação da ONU, o fim da guerra fria e a queda do muro de Berlim, o 11 de Setembro, a pandemia, a invasão ilícita e ilegítima da Ucrânia… O que é que verdadeiramente conduz a uma reconfiguração ou transformação estrutural da ordem internacional?
Talvez seja redutor olhar para acontecimentos isolados como fases de complexidade cíclica. Inclino-me claramente para uma argumentação de acumulação de crises sucessivas, de tendências crescentes que foram revelando e acelerando uma escala, simultaneidade e profundidade que identificamos na realidade atual.
Claramente que há uma série de pressupostos que sempre tivemos como adquiridos que hoje estão a ser questionados: um mundo multipolar mais fragmentado e competitivo, com o multilateralismo a ser fortemente desafiado; uma progressiva transacionalidade da interdependência e da cooperação; a contestação às normas internacionais.
Mas o desafio maior do nosso tempo não é encarar a atual configuração internacional com fatalismo. Temos sim de assegurar que o nosso país está solidamente posicionado para defender os nossos princípios e valores, preparado para sermos mais comprometidos com o multilateralismo, com as alianças e as parcerias tradicionais e de futuro.
A sua entrada para o Governo aconteceu num momento particularmente exigente para a diplomacia portuguesa e europeia. Há uma crescente pressão sobre os Estados para responderem simultaneamente a crises humanitárias, desafios migratórios, conflitos armados, instabilidade económica e tensões diplomáticas. Como é que se governa uma área como os Negócios Estrangeiros e Cooperação quando praticamente todas as decisões internacionais passaram também a ter consequências internas muito diretas para os cidadãos?
Governa-se com a consciência do que acabou de afirmar: há uma enorme interdependência entre política externa e política interna. A política externa tem impacto na vida de todos os portugueses, mesmo que eu não determine o meu voto no partido x ou y apenas pela condução strictu sensu da política externa. Uma pandemia não se limita às fronteiras soberanas de um Estado. As ameaças viajam e são transfronteiriças. O conceito tradicional de fronteira dilui-se quando todos, independentemente da geografia, sofremos o impacto do aumento dos preços da energia e bens essenciais ou a disrupção das cadeias de abastecimento e infraestruturas críticas.
Por isso, um Ministério de soberania como o dos Negócios Estrangeiros não é uma área governativa isolada ou puramente de bastidores. Não é um exercício distante dos cidadãos. Trabalhamos diariamente, com todas as áreas governativas, para antecipar impactos e reforçar parcerias estratégicas para uma resposta integrada.
O que defendemos e negociamos nos fóruns multilaterais são posições e instrumentos para que Portugal e os portugueses continuem a viver com estabilidade, segurança e desenvolvimento. Porque uma diplomacia forte e credível está na primeira linha da defesa do bem-estar dos nossos cidadãos e das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Por isso, a diplomacia não é apenas uma representação institucional, é uma gestão permanente de interesses e valores concretos.
De facto, muitas vezes, a opinião pública olha para a diplomacia como uma realidade distante, feita apenas de reuniões institucionais e linguagem formal. No entanto, como disse, a política externa influencia diretamente questões como a economia, a segurança, a energia, a imigração ou até o custo de vida. Considera que ainda existe em Portugal uma insuficiente perceção da importância estratégica da diplomacia?
Tendo a concordar que ainda existe uma perceção insuficiente da importância estratégica da diplomacia, mas não só em Portugal. Tal deve-se desde logo ao facto de serem os assuntos relacionados com a saúde, a educação ou a economia a dominarem as grandes manchetes diárias da comunicação social e da vida de todos nós.
Mas não tenhamos dúvidas que todas as crises globais têm um impacto local, mesmo que diferenciado, e nenhuma política pública hoje pode deixar de considerar variáveis externas. Consegue olhar para as questões como a economia, a segurança, a energia, a imigração ou até o custo de vida, como referiu, sem as relacionar com tudo o que diariamente se passa no mundo, é discutido nas Organizações Internacionais e até transposto para a nossa ordem jurídica interna?
Por isso, diria que o grande desafio é o de tornar a diplomacia mais compreensível, mais participada, mais próxima das preocupações dos cidadãos e de um debate público informado. É uma pedagogia importante, porque uma política externa eficaz precisa da legitimidade pública e da valorização dos nossos ativos estratégicos por parte de todos e não só de quem está na “bolha” do circuito decisório.
Ao longo dos últimos anos, Portugal tem procurado afirmar-se como um país moderador, dialogante e defensor do multilateralismo. Contudo, num cenário internacional cada vez mais polarizado e marcado pela lógica de blocos, até que ponto continua a haver espaço para países de pequena/média dimensão exercerem influência através da diplomacia e da construção de consensos?
Não é o facto de ser um país pequeno, médio ou grande na sua dimensão geográfica que condiciona, à partida, o grau de influência político-diplomática, mas sim como é que o país potencia os seus ativos estratégicos. Quando olhamos para o mapa, Portugal pode parecer pequeno na sua dimensão geográfica, mas a nossa Zona Económica Exclusiva é uma das maiores da Europa e do mundo. Portugal é simultaneamente europeu, atlântico e lusófono. A língua portuguesa é a mais falada do hemisfério sul e está no top 5 das mais faladas em todo o mundo e das mais utilizadas na internet.
São estes ativos estratégicos que permitem a Portugal ser influente e constituir um parceiro credível no panorama internacional. E a candidatura de Portugal a membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas para o biénio 2027-2028 mostrou-nos exatamente que é perante a crescente polarização internacional e o retraimento do multilateralismo que precisamos de países capazes de construir pontes entre diferentes regiões e sensibilidades políticas — seja na União Europeia, na CPLP, no Atlântico ou nas relações com África e América Latina.
Sejamos claros. A nossa voz ganha escala quando integrada em plataformas alargadas, onde podemos desempenhar um papel relevante precisamente por sermos vistos como um ator moderado, dialogante e credível. Não por sermos pequenos ou grandes, mas por sermos o país que consegue sentar diferentes interlocutores à mesma mesa. Mas aquelas plataformas ganham, também, com a nossa voz. Essa é a maior demonstração de relevância estratégica que um país pode ambicionar e Portugal tem-no demonstrado com grande sentido de responsabilidade.
Uma das áreas em que Portugal historicamente procura afirmar-se é na relação com os países lusófonos. No entanto, o contexto africano mudou profundamente nas últimas décadas, com novas potências globais a disputarem influência económica, política e estratégica no continente. Como é que Portugal pode continuar a construir relações fortes e equilibradas com os países africanos de língua portuguesa sem cair numa visão nostálgica do passado?
Em 2025, celebrámos os 50 anos das independências dos países africanos de língua portuguesa. Em todos os discursos, a nota dominante foi comum: temos de começar a escrever as páginas dos próximos 50 anos. É nesse espírito que as lideranças africanas e portuguesa estão empenhadas!
África deixou de ser uma periferia económica para se tornar um dos principais palcos da competição geopolítica global. Os países africanos têm hoje maior capacidade de decisão e privilegiam novas alianças internacionais fundadas na solidariedade sul-sul.
Nesse cenário, Portugal pode continuar a ter relevância, desde que essa relação seja baseada em interesses mútuos, investimento e respeito pelas prioridades africanas, tendências aliás acompanhadas pela Estratégia da Cooperação Portuguesa 2030 e que consolida uma trajetória de desenvolvimento sustentável, inclusivo e resiliente. Para isso, temos que evoluir do assistencialismo para o investimento. As recentes iniciativas do nosso governo na definição de linhas de crédito ou de conversão da dívida para projetos de investimento nas áreas da transição energética ou economia digital com os PALOP é a ilustração clara que só há parceria com oportunidades concretas e que mais do que olhar para o passado, é preciso construir uma relação orientada para o futuro, adaptada às novas dinâmicas africanas e à crescente competição internacional no continente.
Para além dos PALOP, não quero deixar de referir a nossa cooperação com Timor-Leste, que continua a ser de uma importância e atualidade evidentes e que queremos reforçar.
Nos últimos anos, Portugal tem procurado reforçar o conceito de “Portugal Nação Global”, valorizando a ideia de um país com influência muito para além da sua dimensão territorial. Estamos a falar apenas da valorização das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo ou de uma estratégia mais ampla de projeção internacional que passa também pela cultura, economia, inovação, língua portuguesa e capacidade diplomática?
O conceito de “Portugal Nação global” tem vindo a ser trabalhado, e muito bem, pelo meu colega Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas e, na primeira edição do Fórum, realizada em abril deste ano, ficou claro que é muito mais do que a valorização das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, que continua a ser importantíssima. Creio que conseguimos passar a mensagem que Portugal não é apenas um país da diáspora, que continua a ser um ativo estratégico, mas também uma rede global, capaz de mobilizar talento, capital e conhecimento à escala internacional.
Um país com a escala territorial de Portugal não se pode dar ao luxo de ser apenas um Estado-nação estático. Tem de se assumir como uma plataforma de influência, através da afirmação e projeção da cultura, da língua portuguesa, da diplomacia, da economia e da inovação.
Num mundo cada vez mais competitivo em termos de influência global, sente que Portugal tem sabido capitalizar devidamente os seus ativos estratégicos, como a língua portuguesa, a posição atlântica, as relações históricas, a estabilidade política ou as comunidades emigrantes, ou continua a existir uma tendência para o país subvalorizar o seu potencial internacional?
Continua a subsistir um grande desconhecimento público do que Portugal faz internacionalmente, da importância dessas conquistas para o prestígio do nosso país e, muitas vezes, uma desvalorização da nossa capacidade de mobilização e projeção. Muitas vezes, os portugueses olham para si próprios com maior prudência, ceticismo e desalento do que outros olham para nós. E quando os outros olham para nós questionam: como é que um país “tão pequeno” consegue mobilizar a sua rede político-diplomática e eleger um Secretário-Geral da ONU, um Presidente do Conselho Europeu, um Presidente da Comissão Europeia, uma Provedora de Justiça Europeia? Da ONU ao Conselho Europeu, passando por agências reguladoras e grandes multinacionais, os profissionais portugueses são reconhecidos pela sua capacidade de negociação, flexibilidade cultural e competência técnica. O “estilo português de fazer diplomacia” funciona e é parte do nosso soft power.
A língua portuguesa, a posição atlântica, a estabilidade política, as relações históricas e a diáspora representam vantagens diferenciadoras num contexto global cada vez mais competitivo. Temos progredido imenso na valorização desses ativos, sobretudo através da diplomacia económica, da internacionalização da língua portuguesa, da aposta nas energias renováveis, da tecnologia e da afirmação de Portugal como plataforma atlântica entre Europa, África e Américas.
Mas podemos criar mais valor e alavancar todo o nosso potencial, criando ecossistemas que interliguem de forma sistemática as startups nacionais, os cientistas na diáspora ou as cátedras de português no estrangeiro e as embaixadas.
A Irlanda, por exemplo, com uma dimensão semelhante a Portugal, conseguiu um “milagre económico” em grande parte porque profissionalizaram a ligação à sua diáspora corporativa e científica, transformando cidadãos no estrangeiro em agentes ativos de captação de investimento e de influência política junto dos centros de decisão mundiais.
Durante décadas, Portugal habituou-se a olhar para a sua dimensão territorial e demográfica como um limite à sua capacidade de influência internacional. Hoje, Portugal está verdadeiramente preparado para pensar-se como um ator geopolítico com ambição própria? Ou continuamos, muitas vezes, excessivamente condicionados por uma visão pequena do nosso próprio potencial internacional?
A realidade mostra que Portugal tem capacidade de influência internacional para ser um ator geopolítico com ambição própria.
No entanto, continua por vezes a existir uma certa tendência para olhar para a dimensão territorial e demográfica como fatores limitadores. Historicamente, Portugal habituou-se a pensar-se mais como um país periférico do que como uma plataforma de ligação entre espaços geopolíticos distintos.
O desafio hoje passa precisamente por ultrapassar essa visão mais reduzida do potencial nacional.
Em várias ocasiões, tem sido sublinhada a necessidade de aproximar a política externa das novas gerações. Como é que se desperta o interesse dos jovens por temas como diplomacia, cooperação internacional e geopolítica numa época marcada pela rapidez da informação e pela aparente distância entre os cidadãos e as instituições?
Passa, antes do mais, por saber comunicar que estes temas não estão distantes da vida quotidiana. Sabemos que os jovens se preocupam profundamente com as alterações climáticas, com a justiça social, com o progresso digital e com o mercado de trabalho do futuro, o que é extremamente positivo.
Daí que seja importante demonstrar, através de exemplos práticos, que a pegada de carbono de uma t-shirt comprada numa aplicação de fast fashion envolve cadeias de abastecimento globais e direitos laborais na Ásia; que o preço do passe dos transportes públicos ou da eletricidade para carregar o telemóvel depende de gasodutos e consórcios no Norte de África; ou que a regulação da Inteligência Artificial também é decidida em Bruxelas.
Se a política externa for associada a algo concreto, as pessoas mobilizam-se de forma construtiva, aproximam-se da política e tornam-se cidadãos mais conscientes nas escolas, nas universidades, nas plataformas digitais ou nos espaços de debate público.
A este propósito, tenho de salientar a Estratégia Nacional de Educação para o Desenvolvimento (ENED 2026-2030), aprovada no final de 2025, que procura exatamente reforçar a literacia democrática e global, aproximando os cidadãos — sobretudo os mais jovens — dos grandes desafios internacionais.
Numa era de desinformação em massa e narrativas polarizadas nas redes sociais, envolver os jovens na geopolítica não serve apenas para recrutar os diplomatas ou os políticos de amanhã – serve para blindar a democracia de hoje e distinguir propaganda da realidade geoestratégica. Voltamos às Relações Internacionais como disciplina académica: compreender o mundo é a melhor ferramenta que as novas gerações têm para construir o seu próprio futuro!
A cooperação internacional deixou de ser apenas uma questão de ajuda ao desenvolvimento e passou também a envolver segurança, sustentabilidade, migrações, transição energética e estabilidade global. Como é que Portugal está a adaptar a sua estratégia de cooperação a esta nova realidade muito mais complexa e interdependente?
Este é um tema que acompanho de forma muito próxima, dada a tutela da minha Secretaria de Estado sobre o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P. que tem tido um papel absolutamente fundamental na implementação da Estratégia da Cooperação Portuguesa 2030 (ECP 2030), que assenta no princípio de que a estabilidade global é indivisível.
Garantir que um jovem em Maputo, Praia, Díli ou Bissau tem acesso a energia limpa, formação técnica e instituições seguras é a forma mais eficaz e sustentável de avalizar, a médio prazo, a própria segurança, a sustentabilidade económica e a resiliência de Portugal no xadrez internacional.
Portugal tem vindo a adaptar a sua política de cooperação internacional a uma realidade muito mais ampla e interdependente, em que desenvolvimento, segurança, clima, energia e estabilidade global estão cada vez mais interligados. A cooperação deixou de ser vista apenas numa lógica tradicional de ajuda, doação ou assistencialismo e passou a integrar uma dimensão mais estratégica e multidisciplinar de investimento e parceria.
A estratégia de cooperação portuguesa também se diferencia pela aposta na capacitação das instituições de segurança dos países parceiros, através da Cooperação no Domínio da Defesa (CDD) e da Cooperação Técnico-Policial, focadas na cooperação institucional, na formação e nas assessorias técnicas.
Mas Portugal também reposicionou a sua cooperação para liderar na diplomacia climática e transição energética. O país tem focado a sua atuação na transferência de tecnologia limpa, no apoio à transição para energias renováveis e na capacitação para a resiliência costeira. O exemplo mais tangível desta adaptação é o pioneirismo nos acordos de conversão da dívida bilateral em fundos climáticos (como o celebrado com Cabo Verde), onde os montantes que seriam reembolsados a Portugal são canalizados diretamente para investimentos locais em transição ambiental.
Ao mesmo tempo, Portugal tem procurado reforçar modelos de cooperação mais horizontais e de parceria, valorizando a capacitação institucional, a partilha de conhecimento e a cooperação triangular com organizações multilaterais e parceiros europeus, servindo também de catalisador e executor dos grandes fundos europeus, através da cooperação delegada e Iniciativa Global Gateway.
O espaço atlântico voltou a ganhar centralidade geopolítica, seja pela segurança marítima, pelas rotas comerciais, pela energia ou pela competição tecnológica e militar. Portugal, pela sua posição geográfica e histórica, pode desempenhar aqui um papel mais relevante?
Apesar da realidade geopolítica, por vezes, nos desviar a atenção para o Indo-Pacífico, o Atlântico nunca deixou de ser relevante.
No entanto, a necessidade de diversificação das rotas energéticas, a vulnerabilidade dos cabos submarinos de dados, a pirataria no Golfo da Guiné, o degelo das rotas do Ártico e o reposicionamento da NATO, transformaram o Atlântico — Norte e Sul — num dos palcos mais críticos da competição entre grandes potências.
Estou convicta que Portugal pode desempenhar um papel mais influente precisamente por funcionar como ponto de ligação entre Europa, África, Américas e espaço atlântico alargado. A sua localização, associada à estabilidade política, à integração europeia e à experiência diplomática e marítima, dá-lhe condições para afirmar uma visão estratégica do Atlântico baseada em cooperação, segurança e conectividade.
O desafio para Portugal passa por transformar essa vantagem geográfica e histórica numa estratégia consistente de longo prazo, capaz de reforçar a sua centralidade internacional num contexto global cada vez mais competitivo.
Nos últimos anos, as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo têm ganho uma relevância crescente não apenas social e cultural, mas também económica e diplomática. Que papel estratégico atribui às comunidades portuguesas na projeção internacional do país?
O nosso Governo tem uma visão muito contemporânea sobre o papel estratégico da diáspora portuguesa e vai para lá da leitura tradicional das comunidades enquanto realidade apenas consular ou afetiva do “mercado da saudade”.
O meu colega Emídio Sousa, ao organizar a primeira edição do Fórum Portugal Nação Global, demonstrou que a diáspora está muito bem estruturada e alinhada com as novas dinâmicas da diplomacia contemporânea, representando o ativo mais capilar, resiliente e dinâmico da política externa nacional.
Por isso, é particularmente relevante a noção das comunidades portuguesas como “embaixadas informais” e redes de influência distribuída, algo que hoje ganha crescente importância num mundo assente em conectividade, conhecimento e relações transnacionais. A valorização da diplomacia científica, da inteligência económica e da influência política indireta traduz bem a evolução qualitativa da emigração portuguesa nas últimas décadas.
Também é muito interessante a manutenção do vínculo das novas gerações à língua portuguesa no seio da diáspora.
A crescente competição global pelo talento, pela inovação e pelo conhecimento tornou-se um dos grandes desafios das economias modernas. Como é que Portugal pode afirmar-se internacionalmente não apenas como um país turístico, mas também como um centro de conhecimento, inovação, ciência e qualificação?
Sabemos bem que a imagem de Portugal associada ao turismo e à hospitalidade é um ativo económico estratégico, mas encerra em si mesma o risco de aprisionar o país numa “armadilha de valor acrescentado baixo”. Esta transição de “destino de férias” para “centro de conhecimento” exige transformar os nossos ativos estruturais — universidades, talento qualificado, língua, estabilidade política, posição atlântica e qualidade de vida — numa estratégia consistente de atração e manutenção de capital humano. A nossa afirmação deve ser feita pela especialização em nichos estratégicos e pela internacionalização das nossas academias.
Portugal tem uma comunidade científica brilhante, mas precisa de dialogar mais com o tecido empresarial para que o conhecimento se traduza em valor económico. Precisamos de potenciar a transferência de tecnologia para as empresas, atrair e manter os mais qualificados, desburocratizar e criar competitividade fiscal para que os empregos tenham um elevado valor acrescentado.
Também aqui há trabalho a fazer, e está já a ser feito, pois mudar o posicionamento internacional de Portugal exige uma alteração na nossa própria narrativa. O turismo constrói a nossa reputação de simpatia; a ciência e a inovação garantirão a nossa relevância em investir, empreender e inovar! O turismo é uma porta de entrada estrutural, mas não o limite da nossa ambição se nos quisermos afirmar como um hub global de conhecimento e inovação.
A relação entre Europa e África será provavelmente uma das mais decisivas das próximas décadas, seja em matéria económica, energética, migratória ou de segurança. Que papel pode Portugal desempenhar nessa aproximação estratégica entre os dois continentes, tendo em conta a sua posição histórica, geográfica e diplomática?
A relação entre a União Europeia e o continente africano não é apenas uma prioridade de vizinhança – é o eixo que definirá o equilíbrio geopolítico e demográfico do Ocidente neste século.
Neste tabuleiro de interdependências, Portugal espelha uma conjugação única de geografia, história e capital diplomático que lhe confere o papel de ponte estratégica entre a Europa e África.
Na União Europeia, temos reforçado exatamente essa mudança de paradigma da narrativa europeia: passar da “ajuda ao desenvolvimento” para acordos de investimento estratégico mutuamente benéficos, onde a Europa entra com capital e tecnologia, e África participa como parceira de pleno direito na cadeia de valor.
Ao mesmo tempo, áreas como energias renováveis, economia azul, segurança marítima, formação, inovação, transição digital ou cooperação empresarial oferecem oportunidades concretas para uma parceria moderna e equilibrada entre Europa e África. Por isso, a expetativa e contributo ativo de Portugal é que a “Europa global” olhe para o “Sul plural”!
A governação na área internacional implica muitas vezes decisões discretas, silenciosas e pouco visíveis publicamente, apesar da enorme complexidade e impacto que carregam. Como se gere o peso dessa responsabilidade num tempo em que a política vive cada vez mais da exposição mediática e da pressão permanente do comentário imediato?
Gere-se com discrição, prudência e rigor. Estive mais de 10 anos a comentar política internacional na televisão nacional e sei bem o que é a exposição mediática e a pressão permanente do comentário imediato. O exercício de funções governativas não se compadece com “a espuma dos dias”, nem com o imediatismo da comunicação ou com o ruído das redes sociais a ditarem a agenda política.
Na diplomacia deparamo-nos todos os dias com negociações sensíveis, equilíbrios delicados e processos que dependem de confiança, lealdade e reserva para produzir resultados. Há uma obrigação ética de preservar espaços de negociação silenciosa, essenciais para evitar escaladas, construir consensos ou proteger interesses estratégicos. Temos de ouvir, muito mais do que precipitarmo-nos em falar.
Por isso, no meu dia-a-dia, tento manter serenidade e clareza de objetivos, estabilidade emocional e sentido de Estado. Nem sempre as decisões mais importantes são as mais visíveis publicamente. Muitas vezes, o sucesso diplomático e a salvaguarda do interesse nacional medem-se precisamente pela capacidade de prevenir crises, evitar conflitos ou criar entendimentos, sem necessidade de protagonismo, autopromoção ou soundbytes.
Vivemos um tempo em que a política internacional parece atravessar uma espécie de crise de confiança global. Enquanto Secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, continua a acreditar que a diplomacia, o diálogo e a cooperação internacional conseguem verdadeiramente mudar o rumo do mundo?
Se não acreditasse, não teria aceite este desafio! Mas acredito, sinceramente, que precisamos de diplomacia, diálogo e cooperação internacional mais do que nunca!
Não foi por acaso que o mote da nossa candidatura a membro não permanente do Conselho de Segurança foi “Prevent, Protect, Partner”. São três pilares fundamentais, realistas e pragmáticos, para que a diplomacia perdure e vingue como resposta às crises de confiança, ao retraimento do multilateralismo, à violação dos Direitos Humanos ou ao colapso do Estado de direito.
Portugal tem um capital diplomático único, com alianças europeias e transatlânticas firmes, de diálogo partilhado com o sul plural. Perante a natureza das ameaças atuais, nenhum país isolado pode responder de forma eficaz. Perante o isolacionismo, o diálogo é a maior demonstração de força. Perante uma arquitetura tendencialmente transacional, precisamos de países construtores de pontes. A resposta nunca será menos diplomacia, mas mais e melhor diplomacia!


Se tivesse de definir qual deverá ser a grande ambição internacional de Portugal para a próxima década, qual gostaria que fosse?
Definiria duas grandes ambições à escala internacional para a próxima década: primeira, posicionar Portugal como um ator distintivo na economia azul e sustentabilidade dos oceanos; e, segunda, potenciar a língua portuguesa como um ativo económico e geopolítico estrutural.
Os próximos dois anos, enquanto membros não permanentes do Conselho de Segurança, vão dar a Portugal uma visibilidade insubstituível. Temos de ser capazes de mostrar como as duas ambições que referi se traduzem de forma concreta e como influenciamos soluções e decisões. Portugal pode afirmar-se como um hub logístico e tecnológico de entrada da Europa para o Atlântico, com infraestruturas portuárias de ponta e atração de cabos submarinos de dados, focado na criação de valor.
E a língua portuguesa pode ir mais além e afirmar-se como um ativo verdadeiramente geopolítico! Para isso, temos de ter a capacidade de atrair mais valias para a formação e ensino do português.
O que considera essencial garantir hoje para que o país consiga afirmar-se, no futuro, como uma verdadeira referência diplomática, estratégica e global?
Considero, desde logo, que temos que nos libertar de duas amarras que continuam a condicionar os nossos desígnios estratégicos: primeiro, não é a escala demográfica ou territorial de um país que dita a dimensão da sua influência, mas sim como se maximizam os ativos estratégicos; e, segundo, Portugal não é apenas um país confiável, é um parceiro estratégico indispensável para construir pontes entre continentes.
Não tenhamos dúvidas: a credibilidade externa diplomática de Portugal é amplamente reconhecida e o nosso papel no diálogo norte-Sul e no equilíbrio europeu e transatlântico é o nosso maior soft power. Onde outros se deparam com barreiras, Portugal é um facilitador natural de consensos, seja na União Europeia, na NATO, na CLPL ou no espaço ibero-americano.
E termino regressando à diluição do interno e externo, porque o melhor cartão de visita internacional que podemos ter é a estabilidade política interna, sem sobressaltos permanentes, com ímpeto e concretização reformistas e equilíbrio das contas públicas, tal como temos demonstrado nestes últimos dois anos.



























