José Ribeiro e Castro
Presidente da Sociedade Histórica da Independência de PortugaL

“Sem independência, Portugal simplesmente não existiria.” A frase resume bem a convicção com que José Ribeiro e Castro continua a olhar para a História do país que serviu durante mais de quatro décadas na política e que hoje procura preservar à frente da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. Nesta conversa, o antigo membro do Governo e eurodeputado fala do seu percurso, das figuras que mais o marcaram, da importância da língua portuguesa, dos desafios da memória histórica e da necessidade de reencontrar um patriotismo sereno e agregador, numa altura em que Portugal assinala os 900 anos dos marcos fundadores da nacionalidade. Um testemunho onde o passado surge, não como nostalgia, mas como inspiração para o futuro.

Ao longo de mais de quatro décadas de vida pública, passou pela advocacia, pelo Governo, pelo Parlamento português, pelo Parlamento Europeu e pela liderança partidária. Quando olha para esse percurso, quais considera terem sido os momentos mais determinantes na formação do homem e do cidadão que hoje preside à Sociedade Histórica da Independência de Portugal?
A escola teve uma importância enorme no meu percurso, porque acabou por influenciar de forma determinante a minha vida. Naquela altura, só se podia entrar para a escola com seis anos completos e, quando comecei, já sabia ler e escrever. Entrei para a escola já com quase sete anos, mas consegui concluir dois anos num só: fiz a primeira e a segunda classes no mesmo ano letivo. Isso fez com que passasse de ser o mais velho entre os mais novos para ser o mais novo entre os mais velhos. Pode parecer um pormenor, mas influenciou muito a forma como me relacionava com os outros e a maneira como fui crescendo. Mais tarde, no liceu, tive excelentes professores, alguns dos quais ainda hoje recordo com enorme admiração. Depois, veio a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, mas, pelo meio, aconteceu o 25 de Abril, que teve um efeito verdadeiramente cataclísmico na minha vida. O meu pai era governador-geral de Angola e tinha sido presidente da Câmara Municipal de Lisboa. As mudanças políticas afetaram profundamente a nossa família. A minha mãe faleceu pouco tempo depois, em junho de 1974, e acredito que todo aquele contexto também contribuiu para isso. O meu pai teve de partir para o exílio e, de um momento para o outro, a nossa vida mudou completamente.
Costumo dizer que pertenço à geração que fez quatro anos de Direito e um ano de Revolução. O último ano da faculdade foi um autêntico caos na Faculdade de Direito. Para quem queria seguir uma carreira universitária, aquele não era, definitivamente, um ambiente favorável.
Outro momento decisivo da minha vida foi a entrada para o CDS. Já conhecia Diogo Freitas do Amaral, que tinha sido meu professor de Direito Administrativo na Faculdade de Direito. Era um grande professor, um grande mestre e uma referência incontornável da escola de Direito Público de Lisboa. Depois, conheci Adelino Amaro da Costa, uma personalidade extraordinária, de quem me tornei muito próximo. Era, provavelmente, o meu melhor amigo e a sua morte na tragédia de Camarate, em 1980, foi uma perda profundamente marcante.
Para além deles, houve duas figuras fundamentais na minha formação: o meu pai e o meu tio. O meu pai foi um homem extraordinário, um exemplo de seriedade, dedicação e capacidade de realização. Colocou sempre essas qualidades ao serviço do país, quer enquanto presidente da Câmara de Lisboa, quer mais tarde no exercício das suas funções em Angola.


A experiência do CDS fundador foi extraordinariamente rica e intensa. Acabei por dedicar-me inteiramente ao partido, tornando-me um militante a 100 por cento e dirigente muito jovem. Fui eleito deputado à Assembleia da República com apenas 22 anos e tive a oportunidade de participar na construção política do partido e na afirmação da sua identidade doutrinária.
Mais tarde, já fora da atividade partidária direta, envolvi-me na candidatura presidencial de Diogo Freitas do Amaral, da qual fui diretor executivo entre 1985 e 1986. Entretanto, desempenhara funções governativas, como secretário de Estado de Freitas do Amaral, em governos presididos por Sá Carneiro e Pinto Balsemão.
Ainda hoje recordo com especial entusiasmo essas campanhas. A campanha do “P’rá Frente, Portugal” e o conhecido slogan “Soares é fixe” marcaram uma época e representam uma forma diferente de fazer política. Eram campanhas construídas com entusiasmo, criatividade e um forte sentido de propósito. Havia enorme capacidade mobilizadora e um ambiente muito positivo, algo que considero ter sido bastante marcante.
Do ponto de vista profissional, concluí a licenciatura em Direito em 1975 e realizei o estágio de advocacia aos pedaços, terminando-o só em 1998, porque o percurso foi sucessivamente interrompido pelas responsabilidades políticas e tive de recomeçar várias vezes. Foi um caminho acidentado, mas nunca perdi o gosto pelo Direito e mantive sempre essa ligação.
No entanto, uma das experiências profissionais de que guardo melhores recordações foi a participação no projeto fundador da TVI, onde tive diversas funções, entre as quais diretor de Informação. Tínhamos muito poucos recursos, mas uma equipa extremamente jovem, motivada e cheia de iniciativa. Havia muito entusiasmo, muita vontade de inovar e uma enorme disponibilidade para experimentar novas ideias. Sempre procurei dar espaço à criatividade da equipa e isso permitiu-nos desenvolver formatos e projetos verdadeiramente inovadores para a época.
Foi uma experiência profissional muito intensa, marcada pelo espírito de missão, pela criatividade e pela alegria de construir algo praticamente do zero. Ainda hoje recordo esse período com enorme satisfação.
Há figuras cuja carreira parece ser guiada por uma vocação profissional e outras por uma ideia de missão. No seu caso, sente que a defesa da identidade nacional, da memória histórica e da participação cívica sempre constituiu um fio condutor da sua vida pública, ou foi algo que se foi revelando progressivamente ao longo dos anos?
Creio que sempre foi assim. Sempre fui muito português, com aquilo a que, olhando ao futebol, costumo chamar um certo “espírito de cachecol”, esse entusiasmo genuíno por Portugal, pela sua identidade e por tudo aquilo que nos distingue. É algo que sempre procurei cultivar e também transmitir aos outros.
Desde muito cedo senti um enorme fascínio por descobrir novas dimensões da portugalidade. Sempre me interessou conhecer melhor aquilo que somos enquanto povo, a nossa cultura, a nossa língua e o nosso percurso histórico. Ao longo da vida, essas áreas acabaram também por vir ao meu encontro, quer através da atividade jornalística, quer da política, permitindo-me desenvolver projetos muito marcantes.
Um deles foi a celebração dos 800 anos da língua portuguesa, em 2014, assinalando os 800 anos do testamento de D. Afonso II, datado de 27 de junho de 1214, considerado o mais antigo documento oficial escrito em português de que há registo.
Na altura era deputado na Assembleia da República, quando um cidadão de origem brasileira, Roberto Moreno, me apresentou a ideia de assinalarmos essa data. O contexto era particularmente interessante: nesse ano realizava-se o Campeonato do Mundo de Futebol no Brasil, um país de língua portuguesa, e coincidia também com o centenário das federações de futebol de Portugal e do Brasil. A partir dessa conjugação de circunstâncias nasceu um movimento que procurou valorizar a língua portuguesa como um património comum, festejando o 8.º centenário.
Embora a iniciativa não tenha tido, nem em Portugal nem no Brasil, a projeção que esperávamos, conseguimos reunir um conjunto muito significativo de apoios internacionais. Foi elaborado um manifesto que contou, entre outros, com a assinatura de Xanana Gusmão, de um senador brasileiro e do Presidente da República de Cabo Verde. Paralelamente, desenvolvemos diversas iniciativas em articulação com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Um dos resultados mais importantes desse trabalho foi a consagração do então Dia Internacional da Língua Portuguesa, adotando o 5 de maio, que a CPLP já tinha escolhido, anos antes, como seu Dia da Língua e da Cultura. E, mais tarde, graças ao trabalho do embaixador Sampaio da Nóvoa, este mesmo dia viria a ser reconhecido pela UNESCO como Dia Mundial da Língua Portuguesa.
Dessa iniciativa nasceu também o Prémio de Revelação Literária UCCLA – Câmara Municipal de Lisboa – Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa, que já vai na 11.ª edição e que considero um verdadeiro “filho” desse movimento dos 800 anos da língua portuguesa.
Sempre defendi que a língua portuguesa é o maior capital estratégico que Portugal possui. É uma das poucas línguas do mundo faladas, como língua materna ou oficial, em todos os continentes. Costumamos dizer que é uma língua europeia, mas ela é também uma língua africana, americana, asiática e da Oceânia. Essa presença global reflete, de certa forma, a própria História de Portugal.
A língua é muito mais do que um instrumento de comunicação; é uma das maiores expressões da identidade de um povo. Infelizmente, penso que os próprios políticos e diplomatas portugueses nem sempre sabem valorizá-la como deveriam.
Dou muitas vezes um exemplo. Quando dirigentes políticos dos países lusófonos participam em reuniões internacionais, nomeadamente na União Europeia, seria importante que utilizassem o português. Não por rejeição das outras línguas, mas porque isso também afirma o espaço internacional do português. Hoje, muitos responsáveis optam automaticamente por falar em público em inglês ou outra língua estrangeira e, com isso, acabam por diminuir a visibilidade e o eco da nossa língua. Naturalmente, há contextos em que é necessário recorrer a uma língua comum para facilitar o debate e evitar as limitações da tradução simultânea. Não sou contra isso. Mas há momentos de representação e comunicação formal em que a afirmação da língua portuguesa tem um valor político, cultural e simbólico que não deve ser desperdiçado.
Recordo, por exemplo, a assinatura do Acordo de Parceria Estratégica entre a União Europeia e o Mercosul, em Assunção. António Costa, enquanto presidente do Conselho Europeu, discursou em espanhol. Na minha opinião, teria sido mais adequado falar em português, nem que fosse como forma de reconhecer o peso do Brasil dentro do Mercosul e de afirmar a nossa língua como uma das grandes línguas internacionais.
Existe, por vezes, uma certa falta de confiança da própria classe dirigente portuguesa na projeção da nossa língua. E isso faz com que o português perca influência e visibilidade no plano internacional. Esta tem sido uma das causas que mais me mobiliza e que está profundamente ligada à ideia de portugalidade. O mesmo acontece com a História. Portugal possui um percurso absolutamente singular e é essencial conhecê-lo para o compreender, estimar e valorizar. Somos um caso muito particular entre as nações europeias. Pode dizer-se que os portugueses se foram construindo à medida que Portugal se foi formando. Não existia um povo português antes da fundação do Reino; foi a própria História de Portugal que foi formando os portugueses. Essa construção fez-se através da integração de pessoas de diferentes origens, de sucessivas migrações e de um extraordinário cruzamento de culturas. Mais tarde, com os Descobrimentos, esse processo intensificou-se e enriqueceu ainda mais a nossa identidade. A própria língua portuguesa é reflexo dessa História. Incorporou palavras vindas do latim, do francês, do inglês, mas também do quimbundo e de tantas outras línguas dos povos com quem Portugal contactou ao longo dos séculos, em todos os continentes. Isso mostra a enorme capacidade de integração, adaptação e diálogo que caracteriza os portugueses.
Curiosamente, muitas vezes são os estrangeiros que melhor reconhecem essa riqueza e essa singularidade. Talvez porque, por estarmos tão habituados a ela, nem sempre tenhamos plena consciência do extraordinário património histórico, cultural e linguístico que possuímos.


Foi uma das vozes mais reconhecidas da política portuguesa durante várias décadas. O que aprendeu sobre Portugal através da política que dificilmente teria aprendido noutra atividade, e de que forma esse conhecimento influencia hoje a sua visão sobre a História e o futuro do país?
Uma das maiores riquezas que a vida pública me proporcionou foi a oportunidade de conhecer praticamente todo o país. Creio que já estive em quase todos os concelhos de Portugal e apenas me faltam visitar três ilhas dos Açores (Santa Maria, Graciosa e S. Jorge). Esse contacto direto com o território permitiu-me conhecer melhor as pessoas, as suas realidades e as diferentes formas de viver Portugal.
Ao mesmo tempo, tive também a oportunidade de conhecer grande parte do espaço da lusofonia. Uma parte conheci ainda antes do 25 de Abril e outra já depois, no exercício de funções políticas. Essa experiência reforçou profundamente a minha consciência da dimensão internacional da portugalidade.
Tenho um fascínio muito especial por Cabo Verde e uma enorme admiração pelo povo cabo-verdiano. Como deputado ao Parlamento Europeu, a minha ação foi fundamental para o estabelecimento, em 2007, da Parceria Especial União Europeia/Cabo Verde. Vejo muitas semelhanças entre Portugal e Cabo Verde. São países com recursos naturais limitados, mas com enorme potencial humano. No fundo, a principal riqueza de ambos está nas pessoas, na sua capacidade de trabalho, de adaptação e de superação.
Sempre acreditei que essa confiança nas pessoas e a convicção de que é possível fazer melhor devem constituir a nossa principal força motriz. Essa deve ser a alavanca que nos impulsiona para a frente e que alimenta uma atitude reformista, assente na vontade permanente de melhorar.
Outra dimensão que sempre me fascinou foi o debate político. Gosto da política pelas ideias e não pelo poder. Sempre procurei identificar ideias que pudessem ser desenvolvidas, defendidas e concretizadas, porque acredito que são as ideias – e não os interesses – que verdadeiramente mobilizam as pessoas em geral.
Quando as comunidades se unem apenas em torno de interesses particulares, dificilmente conseguem gerar um compromisso duradouro. Pelo contrário, quando se mobilizam em torno de uma ideia de bem comum, despertam o melhor que cada pessoa tem para oferecer. É isso que permite construir comunidades mais fortes, mais coesas e mais generosas. Tenho para mim uma convicção muito simples: quem orienta as suas decisões pelo bem comum dificilmente toma um mau caminho. Quando o propósito é genuinamente servir a comunidade, cria-se uma capacidade extraordinária de mobilização e de participação.
Ao longo da minha carreira tive também o privilégio de ser deputado ao Parlamento Europeu e de conhecer por dentro o funcionamento das instituições europeias. Foi uma experiência extremamente enriquecedora.


A União Europeia tem muitos aspetos positivos, embora também apresente fragilidades que não devemos ignorar.
Continuo a acreditar profundamente no ideal europeu. A construção da unidade europeia foi um dos maiores projetos políticos do século XX e nasceu da vontade de impedir que o continente voltasse a conhecer uma guerra devastadora como a Segunda Guerra Mundial. O grande sonho que esteve na origem da integração europeia foi precisamente o de garantir uma paz duradoura entre os povos da Europa.
É verdade que o mundo continua a conhecer conflitos, mas a integração europeia conseguiu evitar que o continente voltasse a mergulhar em guerra generalizada entre os seus Estados, o que representa um feito histórico de enorme importância.
Ao mesmo tempo, acredito que esse projeto só será bem-sucedido se conseguir respeitar plenamente a identidade, a soberania e a individualidade das nações que o compõem. A Europa nunca foi uma realidade uniforme; pelo contrário, a sua maior riqueza reside precisamente na diversidade das suas culturas, das suas histórias e das suas identidades nacionais. A Europa é um verdadeiro mosaico de povos. É essa pluralidade que constitui o seu maior tesouro, que deve ser preservado.
Vejo igualmente um enorme valor nos princípios que sustentam a União Europeia, nomeadamente a cooperação entre os Estados e as quatro liberdades fundamentais de circulação. Esses princípios criaram um espaço particularmente favorável ao desenvolvimento económico, ao fortalecimento das relações democráticas e à construção da convivência pacífica entre os povos europeus.
Por isso, considero um privilégio ter acompanhado este processo ao longo da minha vida pública. Ao mesmo tempo, mantenho posição crítica relativamente às tendências excessivamente centralizadoras de Bruxelas. Receio que um excesso de centralização possa enfraquecer precisamente aquilo que faz da Europa um projeto tão singular: a capacidade de unir povos diferentes sem lhes retirar a sua identidade própria. Esse equilíbrio entre unidade e diversidade é, para mim, uma das condições essenciais para o futuro do projeto europeu.
Ao assumir a presidência da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, sentiu que estava a iniciar uma nova etapa da sua vida pública ou, pelo contrário, a dar continuidade a uma missão que sempre o acompanhou?
A minha ligação à Sociedade Histórica da Independência de Portugal foi-se construindo de forma gradual. Curiosamente, trata-se de uma instituição com mais de 165 anos de existência e, no entanto, continua a ser muito pouco conhecida da maioria dos portugueses. Muitas pessoas nem sequer sabem que ela existe e eu próprio também só a fui descobrindo aos poucos.
Quando era rapaz, com 9 e 10 anos de idade, participei, na Mocidade Portuguesa, nos desfiles realizados na Avenida da Liberdade. No final, passava frequentemente em frente a este edifício para apanhar o autocarro para casa. Via o edifício, mas não fazia ideia de que era aqui que funcionava a Sociedade Histórica da Independência de Portugal, fundada precisamente neste local e onde ainda hoje mantém a sua sede.
Foi apenas muitos anos mais tarde que conheci a Sociedade, sobretudo através da leitura e do estudo da sua história. Mas posso dizer que foi a chamada “crise do feriado”, em 2012, que me aproximou definitivamente da instituição.
Na altura era deputado e fiquei profundamente surpreendido e chocado com a decisão de eliminar o feriado do 1.º de Dezembro. Nunca concordei com essa medida, porque entendi que não estava apenas em causa um dia de descanso laboral, mas um símbolo da nossa identidade nacional e da Restauração da Independência.
Foi nesse contexto que me aproximei da Sociedade Histórica e, juntamente com outras pessoas igualmente preocupadas com esta decisão, promovemos a constituição do Movimento 1.º de Dezembro.
Desde o início tivemos consciência de que era fundamental preservar a independência da Sociedade Histórica relativamente ao combate político-partidário. A Sociedade tinha uma missão institucional e histórica que não podia ser confundida com a disputa política do momento. Por isso, estabelecemos um protocolo que permitiu desenvolver diversas iniciativas em conjunto, mantendo sempre essa separação.
Ao mesmo tempo, acreditávamos que a eliminação do feriado dificilmente seria definitiva. Era uma decisão mal fundamentada e sem verdadeira justificação histórica ou cultural. Estávamos convencidos de que, mais cedo ou mais tarde, o feriado acabaria por ser reposto, se lutássemos por ele e representássemos o inconformismo.
Foi também durante esse processo que descobri um aspeto muito interessante da nossa História: pode dizer-se que o feriado do 1.º de Dezembro é, de certa forma, um “filho” da Sociedade Histórica.
Depois da implantação da República, em outubro de 1910, foram criados cinco novos feriados nacionais: o 1.º de Janeiro, o 31 de Janeiro, o 5 de Outubro, o 1.º de Dezembro e o 25 de Dezembro. Poucas semanas depois, um novo decreto associou ao 1.º de Dezembro à Festa da Bandeira. Ora, celebrando-se em dezembro, logo a seguir a outubro, este facto do calendário fez com que o primeiro 1.º de Dezembro, em 1910, fosse precisamente o primeiro desses novos feriados a ser celebrado. Foi-o como “dia da autonomia da pátria portuguesa e da bandeira”.
Tudo isto resultou, em grande medida, do trabalho desenvolvido pela Sociedade Histórica. A instituição foi fundada em 1861 com o nome de Comissão Central 1.º de Dezembro de 1640, adotando a designação atual apenas em 1927. Os fundadores tinham um objetivo muito claro: dignificar e perpetuar a memória da Restauração da Independência através da celebração do 1.º de Dezembro. Convém recordar que, durante a Monarquia Constitucional, não existiam feriados nacionais como os conhecemos hoje. Foi esta Comissão que começou a organizar, de forma sistemática, as comemorações anuais do 1.º de Dezembro, precisamente a partir do, então, Palácio dos Condes de Almada, hoje Palácio da Independência, que continua a ser um lugar profundamente simbólico da memória nacional.
Foi essa história que fui descobrindo ao aproximar-me da Sociedade Histórica e que reforçou ainda mais a convicção de que a preservação da memória da Independência é uma causa que continua plenamente atual.
A Sociedade Histórica da Independência de Portugal nasceu da vontade de preservar a memória da Restauração de 1640 e dos valores associados à independência nacional. Num contexto profundamente diferente daquele em que a instituição foi criada, como interpreta hoje a relevância dessa missão?
O 1.º de Dezembro é absolutamente fundamental, porque representa o valor coletivo mais importante de qualquer nação: a sua independência. Sem independência, Portugal simplesmente não existiria como país. É um dia que simboliza a capacidade dos portugueses para defenderem a sua soberania e decidirem o seu próprio destino. Por isso, não faz sentido desvalorizar uma data com um significado tão profundo para a nossa História.
Ao longo do nosso percurso histórico houve momentos em que os portugueses tiveram de lutar para preservar essa independência. Houve mesmo duas ocasiões em que foi necessário romper com a dinastia reinante para colocar no trono quem estivesse verdadeiramente comprometido com a defesa de Portugal. Foram decisões difíceis, mas tomadas em nome do interesse nacional e da continuidade do país.
No século XVII, por exemplo, uma parte significativa da nobreza portuguesa permaneceu em Madrid depois da Restauração. Alguns escolheram outro lado da História e chegaram mesmo a ser considerados traidores. Seguiu-se uma guerra extremamente dura, que começou em 1640 e só terminou em 1668. Foram vinte e oito anos de conflito, um período que demonstra bem a enorme resiliência, determinação e capacidade de resistência do povo português.
Mais tarde, também durante as Invasões Napoleónicas, os portugueses voltaram a demonstrar essa capacidade de resistência. Foram três invasões sucessivas e, em todas elas, o país soube defender-se com o apoio dos ingleses. Aliás, esse será um dos temas que o Museu da Independência irá também assinalar, porque faz parte desse longo percurso de afirmação nacional.
Esse sentimento continua presente nos portugueses. O patriotismo não desapareceu. O desafio está em saber recuperá-lo e valorizá-lo de forma positiva, como um fator de união e de serviço ao bem comum, e não como um instrumento de divisão.
Vimos isso recentemente em vários momentos, como nas grandes competições desportivas, em que milhares de portugueses, dentro e fora do país, manifestam um enorme orgulho em representar Portugal. O desporto acaba, muitas vezes, por ser uma das expressões mais visíveis desse sentimento de pertença.
A política tem perdido capacidade para compreender e mobilizar esse patriotismo. Durante muito tempo, os líderes políticos souberam falar também à alma das pessoas. Hoje, fala-se demasiado de interesses e demasiado pouco de valores, de causas e de propósitos.
As pessoas percebem facilmente quando quem está a falar acredita verdadeiramente naquilo que diz. Pelo contrário, quando o discurso parece artificial ou meramente calculado, acabam por se afastar. Vivemos numa época muito marcada pela política-espetáculo e por uma certa artificialidade na comunicação pública. Há demasiado “postiço”, demasiada encenação.
Os cidadãos podem não dominar todos os temas técnicos ou económicos, mas têm enorme sensibilidade para distinguir aquilo que é autêntico daquilo que não é. Percebem quando alguém fala com convicção e quando está apenas a repetir uma mensagem preparada. Como é natural, as pessoas só acreditam em quem mostra que acredita naquilo que diz. A autenticidade e genuinidade são fundamentais para o fator confiança.
Creio que Portugal enfrenta hoje desafios muito exigentes e, para os superar, precisará de recuperar esse espírito de patriotismo cívico, assente no sentido de serviço, na responsabilidade coletiva e na vontade de contribuir para o bem comum. É essa confiança no país e nas pessoas que, em última análise, sempre permitiu aos portugueses ultrapassar os momentos mais difíceis da sua História.
Tem defendido diversas vezes que um povo sem memória corre o risco de perder referências essenciais. Considera que Portugal vive atualmente uma crise de memória histórica ou acredita que existe uma renovada curiosidade pelo passado nacional?
Acredito que Portugal precisa de recuperar uma curiosidade renovada pela sua História. É precisamente para isso que temos vindo a trabalhar na Sociedade Histórica da Independência de Portugal. Uma das iniciativas de que mais me orgulho foi a conceção e o lançamento das comemorações dos 900 anos de Portugal, uma ideia que a Sociedade tem vindo a promover de forma muito empenhada. Defendemos e temos vindo a construir o que chamo de “ciclo largo” para essas comemorações.
O objetivo passa por assinalar, de forma faseada e com o tempo que a História merece, os quatro grandes momentos fundadores da nacionalidade: a Batalha de São Mamede, em 1128; a Batalha de Ourique, em 1139; a Conferência de Zamora, em 1143; e a bula Manifestis Probatum, do Papa Alexandre III, em 1179. Estes quatro acontecimentos representam as etapas essenciais do processo de afirmação de Portugal como reino independente e soberano. A nossa intenção é que estas comemorações não sejam apenas um conjunto de cerimónias ou efemérides, mas antes uma oportunidade para os portugueses se reencontrarem com a sua História, compreenderem melhor as suas origens e, sobretudo, redescobrirem a inspiração que dela pode resultar.
Não se trata de cultivar uma nostalgia pelo passado, mas de conhecer a nossa História. São coisas diferentes. A História não serve para viver voltado para trás; serve para compreender quem somos e encontrar referências que nos ajudem a construir o futuro.
Nesse sentido, a epopeia dos Descobrimentos continua a ser um dos capítulos mais extraordinários da nossa História. Portugal teve um papel absolutamente decisivo na revelação do mundo. Não apenas porque descobriu novos territórios, mas porque aproximou civilizações que até então desconheciam a existência umas das outras.
Hoje parece-nos evidente que o mundo sempre esteve interligado, mas, naquela época, isso não acontecia. Portugal teve a primeira História Global da História da Humanidade. A América era um continente desconhecido do resto do mundo e, dentro do próprio continente americano, muitos povos desconheciam a existência uns dos outros. Os portugueses abriram rotas marítimas, do ocidente ao oriente, estabeleceram ligações entre continentes e criaram novas formas de comunicação, de comércio e de contacto entre diferentes culturas.
Pode dizer-se, por isso, que Portugal esteve na origem da primeira grande globalização da História. Foi um momento único, que alterou profundamente a forma como o mundo passou a relacionar-se.
Mas essa dimensão global não pertence apenas ao passado. Continua muito presente na realidade portuguesa de hoje. Basta olhar para a diáspora. Milhões de portugueses e lusodescendentes vivem espalhados pelos cinco continentes e mantêm viva essa extraordinária capacidade de Portugal para criar pontes entre diferentes povos e culturas.
Essa vocação universal faz parte da nossa identidade e constitui um dos maiores legados da nossa História. É também uma das razões pelas quais considero tão importante que os portugueses conheçam melhor o percurso do seu país e sintam orgulho, não por um passado idealizado, mas por uma História que continua a ter muito para ensinar sobre quem somos e sobre o lugar que podemos ocupar no mundo.
Que avaliação faz do conhecimento que os portugueses têm da sua própria História? Há episódios, figuras ou períodos históricos que considera particularmente subvalorizados ou insuficientemente compreendidos?
Sim, sem dúvida. Existem muitos episódios e muitas figuras da nossa História que continuam pouco conhecidos e que mereciam uma divulgação muito maior.
Um exemplo muito interessante é a relação estabelecida entre a corte de D. Manuel I e o rei D. Afonso I do Reino do Congo. Era uma relação de grande proximidade política, diplomática e cultural, que revela bem a natureza dos contactos que Portugal foi estabelecendo com diferentes povos.
O filho de D. Afonso I, D. Henrique, veio estudar para Portugal, foi ordenado sacerdote e tornou-se o primeiro bispo natural do Congo. Foi nomeado pelo Papa e é reconhecido como o primeiro bispo negro da África Subsaariana na era moderna. É um episódio extraordinário da nossa História e, no entanto, continua a ser praticamente desconhecido da maioria dos portugueses.
Há outro exemplo que considero igualmente revelador. No final do século XVII, um régulo da Guiné, o rei Bacampolo Có, enviou o seu filho, o príncipe Batonto, para ser batizado em Lisboa. Adotou o nome cristão de D. Manuel de Portugal pelo batismo realizado em outubro de 1694 na Capela Real, sendo padrinho o rei D. Pedro II de Portugal. Também este é um episódio que ilustra a profundidade das relações que Portugal estabeleceu com diferentes povos e culturas ao longo dos séculos.
Creio que valeria a pena conhecermos muito melhor estas histórias, porque ajudam a compreender a dimensão humana, cultural e diplomática da presença portuguesa no mundo. São episódios que enriquecem a visão da nossa História e que mostram uma realidade muito mais complexa e interessante do que, por vezes, é transmitido.
Da mesma forma, deveríamos dar maior destaque a personalidades que pertencem simultaneamente à História de Portugal e à História de outros países da lusofonia. Existem figuras que ajudaram a construir comunidades, instituições e relações duradouras entre diferentes povos e que merecem ser mais conhecidas.
Penso em pessoas como Dona Ana Joaquina, uma notável empresária cuja história continua pouco divulgada, apesar da importância que teve no contexto da época, em Luanda. Tal como ela, houve muitos portugueses e lusodescendentes que, sem exercerem cargos de poder político, contribuíram decisivamente para o desenvolvimento económico, social e cultural das comunidades onde viveram.
Essas pessoas ajudaram a construir o espaço lusófono através do seu talento, da sua iniciativa e da sua capacidade de criar pontes entre diferentes culturas. Também essa é uma parte muito importante da nossa História e uma dimensão que vale a pena preservar e dar a conhecer às novas gerações.

A Sociedade Histórica tem vindo a promover conferências, publicações, prémios, visitas culturais e iniciativas educativas destinadas a públicos muito diversos. Qual é hoje a principal missão prática da instituição e que impacto procura gerar na sociedade portuguesa?
A Sociedade Histórica da Independência de Portugal não é uma academia, nem um centro de investigação. Essa não é a nossa missão, nem dispomos dos recursos necessários para desenvolver esse tipo de trabalho. O nosso papel é outro: somos, acima de tudo, uma instituição dedicada à divulgação da História e da memória nacional.
Procuramos promover o conhecimento histórico através da organização de debates, conferências, colóquios e outras iniciativas que estimulem a reflexão e o diálogo em torno da História de Portugal.
Um bom exemplo foi o ciclo “Camões no Tempo da Sociedade Histórica”, que realizámos recentemente. Foram cinco conversas cruzadas, moderadas pela jornalista Helena Matos, que fez um trabalho extraordinário de preparação e condução dos debates.
A ideia era perceber de que forma a sociedade portuguesa e o próprio Estado olharam para Camões desde a fundação da Sociedade Histórica, em 1861, até aos nossos dias. Cada sessão abordou um período diferente: Camões e a Geração de 70, Camões e o Fim do Século XIX, Camões e a Primeira República, Camões e o Estado Novo e Camões e a Democracia. Foi um ciclo muito interessante, que mostrou como uma mesma figura histórica pode ser interpretada de formas diferentes ao longo do tempo.
Tudo isto é feito com recursos muito limitados. Somos apenas seis pessoas e toda a Direção exerce funções em regime pro bono. Isso significa que temos de fazer muito com muito pouco.
Gostaríamos de desenvolver muitos outros projetos. Um deles seria criar, na própria Sociedade Histórica, um curso permanente de Língua Portuguesa e História de Portugal destinado a imigrantes e aos seus filhos. Acredito que seria um serviço muito útil para a sociedade portuguesa, contribuindo para uma melhor integração através do conhecimento da nossa língua e da nossa História. Não é um projeto particularmente difícil de concretizar, mas exige algum financiamento. Precisaríamos do apoio do Ministério da Educação, da Câmara Municipal de Lisboa ou de outras entidades públicas. Até agora, infelizmente, esse apoio ainda não surgiu.
No plano editorial, procuramos também manter uma atividade regular de publicação. Para além do nosso site e das redes sociais, editamos um boletim trimestral dirigido aos sócios e relançámos recentemente a revista Independência.
Esta publicação atravessou várias dificuldades desde o 25 de Abril, sobretudo porque uma revista em papel implica custos muito elevados. Por isso, optámos por um novo modelo digital, em que os conteúdos vão sendo publicados ao longo do semestre. A solução revelou-se bastante positiva, porque reduziu significativamente os custos e permitiu dar maior visibilidade a novos autores. Aliás, a revista tem vindo a afirmar-se também como um espaço importante para investigadores e estudantes universitários, muitos dos quais têm dificuldade em encontrar locais onde possam publicar os seus trabalhos académicos. Conseguimos, assim, prestar também esse serviço à comunidade universitária.
Outro aspeto em que temos investido muito é na renovação das comemorações do 1.º de Dezembro, que considero serem, de certa forma, o nosso grande cartão de visita.
Procurámos modernizar profundamente a forma de celebrar esta data. Por um lado, melhorámos o protocolo oficial da cerimónia; por outro, criámos novas iniciativas capazes de aproximar as comemorações do público, sobretudo dos mais jovens.
Um dos exemplos mais emblemáticos é o Desfile Nacional de Bandas Filarmónicas. Todos os anos, na tarde de 1 de dezembro, cerca de 35 bandas percorrem a Avenida da Liberdade e terminam com um grande concerto coletivo, que reúne entre 1.500 e 1.900 músicos a interpretar três hinos muito simbólicos: o Hino da Maria da Fonte, o Hino da Restauração e o Hino Nacional.
Criámos também o Concerto do 1.º de Dezembro, realizado atualmente no Teatro Municipal São Luiz, habitualmente a 29 de novembro, que marca o início do programa comemorativo. O nosso desejo é que, com o tempo, este concerto adquira prestígio e tradição, tornando-se uma referência cultural, tal como acontece com o célebre Concerto de Ano Novo de Viena.
Promovemos igualmente o Libertunas, um encontro de tunas académicas provenientes de várias cidades universitárias, procurando envolver os estudantes nestas celebrações e aproximar da História nacional as novas gerações.
Entretanto, estabelecemos um protocolo com a Fundação Batalha de Aljubarrota, que tem desenvolvido um trabalho notável na valorização dos campos de batalha portugueses e da nossa História militar.
A Sociedade atribui ainda vários prémios anuais. O principal é o Prémio Aboim Sande Lemos – Identidade Portuguesa, que distingue personalidades pelo seu contributo excecional para áreas como a cultura, a ciência ou as artes. Este ano foi atribuído ao engenheiro Armando Martins, fundador do Museu de Arte Contemporânea Armando Martins.
Além deste, distinguimos anualmente projetos através do Prémio Mares da Lusofonia e do Prémio Imprensa Regional, procurando reconhecer iniciativas que contribuem para a valorização da língua portuguesa, da cultura e da coesão do território.
O Palácio da Independência é simultaneamente um símbolo histórico e um espaço vivo de cultura. Que papel pretende que este edifício desempenhe na aproximação dos portugueses à sua História coletiva?
Antes de mais, o Palácio tem de ser mais conhecido. Fico muito surpreendido por tantas pessoas não saberem o que é o Palácio da Independência. Estamos aqui no Rossio, junto à Igreja de São Domingos e ao Teatro Nacional D. Maria II, num dos locais mais movimentados da cidade e, se perguntarmos a alguém onde fica o Palácio da Independência, a maioria das pessoas não sabe responder.
Isto também está relacionado com a pouca atenção e divulgação que existe em torno do edifício. Por isso, é muito importante que as atividades promovidas pelo Palácio e pela Sociedade Histórica tenham maior notoriedade. É necessário acabar com esta espécie de cultura de silêncio que existe na comunicação social portuguesa em relação ao Palácio da Independência e à Sociedade Histórica. Raramente se fala de nós, a não ser quando há alguma polémica ou algo negativo.
Dou-lhe um exemplo. Quando surgiu a pandemia, fomos obrigados a cancelar as cerimónias comemorativas do 1ª de dezembro durante dois anos. Em 2020 era inevitável, porque tudo estava encerrado e não havia condições para realizar qualquer celebração. Em 2021, tínhamos preparado tudo. No Verão, as restrições tinham sido levantadas e organizámos o desfile de bandas e todas as restantes cerimónias. No entanto, apenas dois dias antes do evento, o Governo anunciou novas medidas restritivas com efeitos a partir de 1 de dezembro. Tivemos de cancelar tudo. Era uma grande cerimónia. Conseguimos ainda avisar as bandas e todos os participantes e, apesar do desagrado de muitos, tudo foi suspenso. Acabámos por realizar apenas uma cerimónia muito mais simples, com a presença das forças de segurança, das autoridades, do Presidente da República, do Primeiro-Ministro, de diversas individualidades e do Presidente da Câmara, junto ao Monumento aos Restauradores. Entretanto, preparámos um novo protocolo, mais adequado às circunstâncias, embora tudo acabasse por ser alterado. Depois, os meios de comunicação entrevistaram o Primeiro-Ministro. O Presidente da República preferiu não prestar declarações. As imagens foram recolhidas junto ao Monumento aos Restauradores, precisamente no Dia da Restauração da Independência. No entanto, todas as perguntas foram apenas sobre a Covid-19. Não se falou de mais nada.
Ou seja, realizaram-se as cerimónias de um dos dias mais importantes da História nacional, mas a cobertura mediática limitou-se à pandemia. É esta a agenda dominante. Existe uma verdadeira cultura de cancelamento – não sei se deliberada ou não – que torna muito difícil comunicar aquilo que fazemos.
Por isso investimos nas redes sociais e temos procurado melhorar a nossa comunicação. Conseguimos chegar a mais pessoas com os meios de que dispomos. A nossa página de Facebook já tem cerca de 35 mil seguidores, o que não é pouco.
Também temos instagram, embora neste momento esteja inativo. Utilizávamo-lo para um projeto muito interessante: publicávamos diariamente uma fotografia de um fotógrafo português. Mais tarde, esse trabalho deu origem a um livro, que considero um dos mais belos álbuns fotográficos sobre Portugal. A iniciativa utilizava hashtags relacionadas com a beleza do país, como “Que belo é o meu país” e “Que lindo é Portugal”. Todos os dias era publicada uma fotografia de uma paisagem portuguesa de grande significado. Entretanto, o projeto foi suspenso e permanece em pausa.
Continuaremos a desenvolver estas atividades e a colaborar com vários municípios do país. Todos os anos organizamos uma iniciativa no Porto, a 4 de Março, para assinalar o nascimento do Infante D. Henrique. Muita gente nem sabe que nasceu no Porto; pensa que nasceu, viveu e morreu em Sagres. Não é verdade. Nasceu no Porto. Dessa forma prestamos homenagem à cidade e valorizamos uma figura central da nossa História.
Muitas destas iniciativas não obtêm cobertura jornalística. É uma dificuldade com que continuamos a lidar e que faz com que muitas pessoas nunca cheguem a conhecer o nosso trabalho.
Apesar disso, acredito que a nossa missão é essencial. Precisamos de aproximar as pessoas da História, promover um patriotismo saudável e dar maior valor cultural ao nosso património. Também devemos mostrar ao mundo razões para termos orgulho em sermos portugueses. Creio sinceramente que somos um dos povos mais extraordinários do mundo.
Temos de cultivar esse orgulho. Sou um pouco como o ex-Presidente Marcelo Rebelo de Sousa quando sempre diz que os portugueses têm qualidades extraordinárias. Outros povos têm as suas; nós temos as nossas, e devemos valorizá-las.
Sem exageros nem triunfalismos, mas devemos fazê-lo. Costumo dizer, e muitos sorriem quando me ouvem, que a missão da Sociedade Histórica é muito simples: gostar de Portugal.
Gostamos de Portugal, gostamos dos portugueses, gostamos daquilo que é português, daquilo que construímos, dos nossos cientistas e da nossa gente. O importante é vencer este pessimismo e esta tendência para desvalorizar tudo aquilo que é nosso, uma atitude que entrou na cultura portuguesa no final do século XIX e que ainda hoje persiste.
Isto não significa que não devamos ser críticos. Devemos sê-lo. Não temos de aceitar tudo sem questionar. Mas também devemos sentir orgulho naquilo que fizemos.
Poucos povos realizaram aquilo que Portugal realizou. Ao longo da História, existiram conflitos e episódios de violência, como acontece em todas as sociedades. Ainda assim, acredito que o modelo português foi, em muitos aspetos, mais moderado e conciliador.
Porquê? Porque éramos poucos. Não tínhamos capacidade para tudo dominar pela força. Tivemos de construir alianças. Todo o nosso processo de expansão e crescimento cultural assentou na criação de alianças. E isso é positivo. Se tivéssemos sido uma potência como outras da época, provavelmente a nossa história teria sido diferente.
A cultura portuguesa formou-se de uma maneira própria. É uma cultura que absorve, que integra e que constrói. Resulta da posição geopolítica que ocupamos.
Estamos no extremo ocidental da Europa. Costumo dizer que somos os fenícios do Atlântico. Os Fenícios abriram e desenvolveram o Mediterrâneo; nós abrimos e desenvolvemos o Atlântico e, a partir deste, o Índico e o Pacífico também. É isso que devemos admirar e valorizar.
Um dos grandes projetos que temos atualmente passa por reforçar as relações com as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, porque são elas que mantêm viva a ligação a Portugal.
Estamos, por exemplo, a iniciar relações com uma fundação relativamente recente, a Fundação António Pargana. Conhecíamos o seu fundador e queremos desenvolver projetos em conjunto. Também colaboramos com o Conselho da Diáspora Portuguesa. Temos alguns representantes, embora ainda não tenhamos tido oportunidade de aprofundar esse trabalho.
A colaboração com o Conselho da Diáspora é muito importante. Gostaríamos de ter representantes em diversos países e regiões. A ideia é que existam delegados em vários locais do mundo: em Nova Iorque, Paris, Bordéus, Estrasburgo e noutras cidades onde existam comunidades portuguesas fortes. Temos já alguns contactos, incluindo um representante italiano. É uma frente de trabalho fundamental. Dessa forma estaremos presentes junto das nossas comunidades e poderemos mostrar melhor aquilo que Portugal representa.
Todo este trabalho junto da diáspora portuguesa é essencial: junto dos portugueses, das comunidades judaicas de origem portuguesa, dos lusodescendentes espalhados pelo mundo e também de outras comunidades com fortes ligações ao nosso país.


Em 2012 publicou o livro “1 de Dezembro, Dia de Portugal”, num contexto em que estava em debate a eliminação do feriado da Restauração da Independência. Mais do que uma reflexão histórica, a obra assumiu-se como uma intervenção cívica em defesa de um símbolo nacional. O que o levou a sentir que era importante transformar essa causa num livro e que mensagem procurava deixar aos portugueses sobre a importância de preservar momentos que definem a nossa memória coletiva?
Esse livro é uma compilação de textos, sum testemunho da luta desenvolvida para defender o feriado do 1.º de Dezembro e preservar o seu significado histórico. Esse período levou-nos a refletir novamente sobre a importância de manter viva esta data e continuar a celebrá-la.
A sociedade portuguesa parecia ter deixado de valorizar esta comemoração e foi necessário voltar a chamar a atenção para ela. É por isso que critico quando um Primeiro-Ministro não participa nas cerimónias oficiais do 1.º de Dezembro. Na minha opinião, isso revela uma cultura que tende a desvalorizar a História nacional.
Em qualquer país, o Primeiro-Ministro deve estar presente nas comemorações do Dia da Independência. Nem é tanto uma crítica, mas um convite mais intenso. Nós queremos o Primeiro-Ministro presente. Trata-se de um feriado nacional e de um dos maiores símbolos da identidade coletiva de um povo. É impossível ignorar esse significado.
O Presidente da República sempre atribuiu grande importância a esta data. Ficámos muito agradecidos ao Professor Marcelo Rebelo de Sousa, porque esteve sempre presente nas comemorações. Além disso, também deu grande atenção às comunidades portuguesas no estrangeiro e à diáspora. Nas primeiras comemorações em que participou, em 2016, proferiu um discurso marcante e, desde então, nunca deixou de marcar presença.
Recentemente, alterámos um pormenor das cerimónias que valoriza imenso a presença do Presidente da República. Hoje, as coroas de flores de várias entidades já estão depositadas na base do Monumento aos Restauradores, desde manhã cedo. No momento próprio, o Presidente da República passou a ser o único que se desloca ao obelisco para, simbolicamente, compor a sua coroa. E, enquanto soam os três toques militares de homenagem aos Heróis da Restauração e aos mortos em combate, o Presidente, perfilado, sozinho no meio da Praça de frente para o Monumento, representa-nos a todos, com toda a solenidade. É um momento particularmente bonito e significativo das cerimónias. É um momento de enorme simbolismo, que justifica plenamente a presença do Chefe de Estado.
Esperemos que o Presidente da República volte a marcar presença e a cumprir este protocolo, que é particularmente tocante. Infelizmente, o mesmo não tem acontecido com o Primeiro-Ministro,. o que transmite uma mensagem errada. As pessoas perguntam-se como é possível que, na data mais importante da independência nacional, o chefe do Governo esteja ausente.
É necessário devolver ao dia 1 de Dezembro o lugar de destaque que merece na memória coletiva dos portugueses.
No livro há um texto de que gosto particularmente. Nele coloco uma pergunta: o que teria acontecido se o 1 de Dezembro de 1640 não tivesse existido?
Muito provavelmente o Brasil não existiria e não seria o que hoje conhecemos. Poderia ter sido dividido entre holandeses e franceses e a História teria seguido um rumo completamente diferente. Talvez Portugal desaparecesse ou fosse retalhado, não voltando como Estado independente. Não existiriam muitas das referências culturais que hoje fazem parte da nossa identidade, como Amália Rodrigues, Eusébio ou Cristiano Ronaldo. O próprio fado…. Devemos muito à Restauração da Independência e à recuperação da soberania portuguesa em 1640.
O livro reúne muitos textos escritos em épocas diferentes, reflexões pessoais e alguns discursos. Gostaria um dia de o rever e transformá-lo numa obra mais completa e mais coerente.
Enquanto dirigente de uma instituição dedicada à preservação da memória coletiva, preocupa-o a crescente tendência para interpretar o passado exclusivamente à luz dos valores do presente?
Preocupa-me muito. Não faz sentido julgar todas as épocas da História apenas com os critérios morais atuais. Antes de mais, é preciso compreender o contexto em que os acontecimentos ocorreram.
Hoje, o direito de conquista já não existe, nem é aceite internacionalmente. Mas, durante séculos, foi precisamente assim que o mundo funcionou.
Portugal conquistou territórios, mas também descobriu novos espaços. Os Açores e a Madeira são um excelente exemplo. Eram ilhas desabitadas quando foram descobertas e integradas no território português. São as últimas parcelas do nosso território nacional. É algo de que os portugueses se devem orgulhar.
As conquistas, as guerras e até as cruzadas só podem ser entendidas à luz da realidade do seu tempo. Também os muçulmanos invadiram a Península Ibérica no século VIII e permaneceram durante vários séculos, até o seu domínio ser expulso. Tudo isso faz parte da História.
O mesmo acontece com a escravatura. A escravatura foi uma realidade profundamente injusta, cruel e violenta. Mas é errado tentar cancelar esse passado, eliminando livros, retirando estátuas ou destruindo pinturas. A História deve ser estudada e compreendida, não apagada.
Todos os povos praticaram a escravidão. Mesmo as próprias comunidades que se revoltaram contra ela, em alguns momentos históricos, também possuíram escravos. A escravatura existia muito antes da expansão europeia. Havia escravos entre os Maias, os Astecas e muitas outras civilizações. Os árabes e vários reinos africanos já participavam no comércio de escravos antes da chegada dos portugueses à costa africana. Muitos soberanos africanos também enriqueceram através desse comércio.
O tráfico transatlântico de escravos foi uma das maiores tragédias da História da Humanidade. Milhões de pessoas foram transportadas em condições absolutamente desumanas ao longo de alguns séculos. É impossível olhar para essa realidade sem reconhecer a enorme violência e sofrimento que provocou.
Atualmente, segundo dados das Nações Unidas, estima-se que existam entre 40 e 50 milhões de pessoas a viver em situação de escravatura moderna. É uma realidade que continua a existir e, no entanto, parece não mobilizar a mesma atenção. Fala-se muito do passado, mas pouco do que acontece no presente. Não faz sentido!
Lembro-me de que, quando era criança, havia uma série televisiva muito marcante sobre a escravatura, “Kunta Kinte”, baseada na história de um escravo afro-americano que contava a vida da sua família ao longo de várias gerações. Essa obra mostrava o sofrimento humano de uma forma muito poderosa. É importante conhecer essa dor. Mas o essencial não é recordar o sofrimento; é compreender o que se passou e saudar que a escravatura tenha sido abolida. Há mais de século e meio. A abolição nunca acontecera. É extraordinário tê-lo feito e conseguido. A História deve ser sempre entendida dentro do contexto em que aconteceu.
Ao longo da sua vida pública, teve oportunidade de conhecer líderes políticos, académicos, diplomatas e personalidades da cultura. Que figuras mais o marcaram e que ensinamentos transporta dessas experiências para o trabalho que desenvolve atualmente?
Sem dúvida que as pessoas que mais me marcaram foram o meu pai e o meu tio Gilberto.
O meu tio, militar, o “Comando n.º 1”, foi o herói da minha infância. Tinha um enorme amor por Portugal e um profundo sentido de serviço público. Foi uma figura que sempre admirei e que deixou uma marca muito forte na minha formação.
O meu pai foi outro grande exemplo. Era um homem de enorme energia, iniciativa e capacidade de realização. Destacava-se pela sua integridade, pelo sentido de justiça, pela criatividade e pelo espírito empreendedor. Dedicou toda essa capacidade ao serviço do país, tanto enquanto presidente da Câmara Municipal de Lisboa como no exercício de outras funções públicas. E, quando entendeu que o seu ciclo na vida política tinha terminado, retirou-se com grande naturalidade e dignidade. Foi um exemplo de serviço e de verticalidade..
Mais tarde, tive a felicidade de conhecer pessoas que influenciaram profundamente o meu percurso político e intelectual. Uma delas foi, naturalmente, Diogo Freitas do Amaral, que primeiro conheci como professor e que viria depois a tornar-se um dos grandes mestres da minha vida política.
Outra figura absolutamente determinante foi Adelino Amaro da Costa. Era, provavelmente, o meu melhor amigo. A sua morte foi uma tragédia pessoal e política. Através dele aproximei-me também de Roberto Carneiro, seu cunhado, com quem construí uma amizade que nunca cessou de crescer.
Quando Roberto Carneiro assumiu o cargo de Ministro da Educação, tive oportunidade de colaborar de perto com ele, sobretudo na preparação de discursos, em diversos projetos políticos e, em particular, na reforma dos Ministérios da Educação e do Desporto. Foi uma colaboração muito enriquecedora, construída sobre uma amizade de muitos anos. Hoje continuo muito ligado à família e sou, inclusivamente, padrinho de uma das suas filhas.
Na minha opinião, Roberto Carneiro foi um dos melhores ministros da Educação que Portugal teve – e do Desporto. Desenvolveu uma visão profundamente inovadora para a educação e deixou também uma marca muito importante na área do desporto, promovendo uma reforma legislativa estruturante, na qual tive igualmente o privilégio de participar. Para além da atividade governativa, destacou-se como professor universitário e dirigiu o CEPCEP, da Universidade Católica Portuguesa, um centro dedicado ao estudo dos povos, das culturas e das grandes questões internacionais.
Quanto a Adelino Amaro da Costa, tinha uma capacidade extraordinária para aproximar pessoas e construir pontes.
Diogo Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa eram personalidades muito diferentes. Freitas do Amaral era mais reservado, mais analítico, mais racional e dedutivo. Já Adelino era intuitivo, espontâneo e profundamente humano. Enquanto um refletia longamente antes de decidir, o outro tinha uma enorme capacidade para perceber rapidamente as pessoas e as circunstâncias.
O Adelino desempenhou um papel absolutamente decisivo dentro do CDS. Como brincadeira, digo que era um verdadeiro “explicador recíproco”. Costumava explicar a Freitas do Amaral que o partido não era tão mau como por vezes pensava e, ao mesmo tempo, explicava ao partido que Freitas do Amaral também não era tão mau quanto alguns pensavam. Tinha uma enorme capacidade de mediação. Era um parlamentar brilhante, respeitado por todo o espectro político.
A sua morte representou uma perda irreparável para o CDS. Costumo dizer que, num partido político, é muitas vezes mais difícil substituir um número dois do que um número um. A ausência de Adelino Amaro da Costa criou um vazio que, na minha opinião, o partido nunca conseguiu verdadeiramente ultrapassar.
No plano internacional, também tive o privilégio de viver uma época marcada por grandes líderes mundiais.
João Paulo II foi, sem dúvida, o Papa da minha geração e da minha vida. Para além da sua dimensão espiritual, teve uma enorme influência política e moral num período decisivo da História contemporânea.
Recordo também Ronald Reagan, cuja reeleição acompanhei na Convenção Republicana de Dallas. Foi um líder de enorme importância para o mundo ocidental, tal como Margaret Thatcher, cuja ação política marcou profundamente o Reino Unido e a Europa.
Estas figuras, juntamente com outras grandes personalidades do mundo anglo-saxónico, exerceram uma influência muito significativa na evolução política do final do século XX. Tive a oportunidade de acompanhar esse período de muito perto e guardo dessas experiências uma memória muito rica, tanto do ponto de vista político como humano.
Se tivesse de se apresentar às novas gerações não através dos cargos que ocupou, mas através dos valores que procurou defender ao longo da vida, quem é verdadeiramente José Ribeiro e Castro?
Acho que sou, acima de tudo, uma pessoa comum. Tive uma educação que costumo dizer ter sido de “salão e de rua”. Cresci numa família de classe média, com uma educação muito típica da classe média portuguesa, assente em valores, disciplina e sentido de responsabilidade. Mas, ao mesmo tempo, tive também uma verdadeira educação de rua, no contacto com outras pessoas e com a realidade do dia a dia. Creio que essa combinação foi muito importante para a minha formação.
Fui igualmente aluno da escola pública e devo-lhe parte muito significativa daquilo que sou hoje. Foi aí que recebi a base da minha formação académica e social. Continuo a defender a liberdade de ensino e de educação, mas nunca deixo de reconhecer tudo aquilo que a escola pública me proporcionou e o papel determinante que teve no meu percurso.
A certa altura da minha vida, comecei a interrogar-me sobre a melhor forma de definir aquilo que sou. Assim como Mário Soares, que de si dizia ser “republicano, laico e socialista”. Acabei por encontrar uma fórmula que costumo utilizar como brincadeira, precisamente por ser provocatória: CCCP. Quem conhece a História associa imediatamente essa sigla, escrita em caracteres cirílicos, à antiga URSS, a União Soviética. Mas, no meu caso, significa algo completamente diferente.
Para mim, CCCP quer dizer Católico, Centrista, Conservador e Português. E, quando digo português, digo-o com convicção. Muito português.
É uma forma simples, bem-humorada e até fácil de memorizar, ao resumir aquilo que considero serem as minhas principais referências pessoais e cívicas.
Por isso, se as novas gerações quiserem saber, em poucas palavras, quem é José Ribeiro e Castro, essa é a resposta mais simples: sou CCCP– Católico, Centrista, Conservador, Português.



























