Rui Gomes da Silva
Advogado, político, Presidente da Câmara do Comércio Luso-Árabe, Membro do Conselho Superior da Magistratura

Quase cinco décadas depois de se ter iniciado na política, ainda estudante de Direito num país em ebulição pós-revolucionária, Rui Gomes da Silva, antigo dirigente social-democrata, revisita um percurso que cruza poder, bastidores e rutura. Entre a influência fundadora de Francisco Sá Carneiro, o exercício governativo e a atual aproximação a André Ventura, traça um retrato crítico da evolução do sistema partidário português, aponta falhas estruturais da justiça e das instituições e deixa um diagnóstico marcado por uma palavra: inquietação.

O seu percurso público cruza, de forma muito particular, o Direito, a política e o comentário público, três dimensões que, em Portugal, nem sempre se relacionam de forma tranquila. Começando pelo princípio, gostaria de lhe pedir um exercício de memória e de reflexão: que influências pessoais, académicas e cívicas moldaram o jovem estudante de Direito que viria a tornar-se advogado, dirigente partidário, governante e uma voz regular no debate público? Em que medida o ambiente político e social do país nas décadas que se seguiram à consolidação democrática contribuiu para a construção da sua visão sobre o papel do Estado, das instituições e da própria política?
Esta é, de facto, uma pergunta que quase daria uma tese sobre a minha vida — sobre as razões que me levaram às escolhas que fiz e sobre o percurso que construí. Mas, no fundo, a explicação é simples. Com 18 anos, nascido e criado no Porto, onde vivi praticamente toda a minha vida até essa altura, fui para a Faculdade de Direito de Lisboa. Na altura, não existia curso de Direito no Porto — apenas em Coimbra e em Lisboa — e, simultaneamente, jogava hóquei no Académico do Porto. Entretanto, surgiu a oportunidade de ir para o Benfica, e a decisão, minha e da minha família, foi seguir para Lisboa.
Recordo-me bem desse momento de partida, na estação de Campanhã, quando o meu pai pediu-me duas ou três coisas. Uma delas foi clara: que não me envolvesse na política. É curioso, porque talvez tenha sido precisamente esse o único pedido que não cumpri.
E não cumpri por uma razão muito simples: era praticamente impossível chegar à Faculdade de Direito de Lisboa naquele contexto e não nos envolvermos na política. Nem um ano havida passado desde o 25 de novembro de 1975, num ambiente político extremamente intenso, com a Constituição da República Portuguesa de 1976 ainda muito recente. Lisboa era o centro do debate político e a Faculdade de Direito era um dos seus principais palcos.
Além disso, em casa já existia uma forte influência política. O meu pai tinha uma admiração profunda por Francisco Sá Carneiro, desde os tempos da chamada ala liberal, ainda antes do 25 de Abril, e depois durante todo o processo de fundação do Partido Social Democrata. Lembro-me bem de, nas primeiras eleições para a Assembleia Constituinte, em 1975, os materiais de campanha do PSD serem guardados na garagem lá de casa, e do meu pai ter participado ativamente nesse momento histórico.
Cheguei à Faculdade precisamente nesse contexto efervescente e rapidamente me envolvi. Conheci pessoas que marcariam toda a minha vida — como Pedro Santana Lopes, António Fontes, Durão Barroso, José Manuel Sequeira ou Fernando Ribeiro Rosa, entre muitos outros, de diferentes áreas políticas. Ainda em dezembro, tive a minha primeira intervenção pública, perante cerca de dois mil alunos, numa reunião geral de alunos (RGA), realizada na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, e, em maio de 1977, fui eleito para o meu primeiro Órgão: o Conselho Diretivo da Faculdade de Direito de Lisboa, o primeiro Órgão democrático eleito após o 25 de Abril. Esse período foi absolutamente decisivo. Vivi intensamente os debates internos do PSD, as divergências ideológicas, os momentos fundadores do partido, e isso moldou profundamente a minha formação política. A partir daí, o percurso foi-se consolidando: envolvimento na Juventude Social Democrata, entrada nos órgãos distritais, candidatura à liderança da JSD, funções como chefe de gabinete na Presidência do Conselho de Ministros, eleição para a Assembleia da República em 1987, onde permaneci durante 22 anos, até 2009.
Pelo meio, desempenhei várias funções relevantes, como presidente da delegação portuguesa à Assembleia Parlamentar da NATO e membro do Conselho Superior do Ministério Público (curiosamente, agora quase vinte anos depois de ter saído da Assembleia da República acabo de ser eleito Membro do Conselho superior da Magistratura). Tive também responsabilidades internas no partido, incluindo candidaturas a cargos dirigentes, e exerci funções governativas como Ministro dos Assuntos Parlamentares e Ministro Adjunto no governo de Pedro Santana Lopes. No fundo, foram quase cinco décadas de vida política — 48 anos ligados ao PSD — que moldaram as minhas convicções. Costumo dizer, aliás, que tive mais anos de PSD do que houve de Estado Novo. E, olhando para trás, identifico duas influências centrais: numa primeira fase, a figura de Francisco Sá Carneiro no ambiente familiar; numa segunda fase, a vivência direta dentro do partido e da política ativa, incluindo a pertença a movimentos, como os “Críticos”, (1981/1982), a “Nova Esperança” ou o apoio a Aníbal Cavaco Silva e, desde sempre, a proximidade com Pedro Santana Lopes.
Paralelamente, a minha presença no espaço público também foi marcada pelo futebol. Sempre procurei separar claramente a intervenção política da atividade desportiva. Tive várias experiências ligadas ao Sport Lisboa e Benfica — desde candidaturas a vice-presidente até ao exercício efetivo dessas funções entre 2009 e 2016 —, sempre com o cuidado de não misturar esses planos.
Foi precisamente em 2009, aliás, que se acentuou uma divergência profunda com o PSD, na sequência da liderança de Manuela Ferreira Leite. Nesse momento, afastei-me politicamente do partido e aceitei o convite para integrar a direção do Benfica, sob a presidência de Luís Filipe Vieira. Mais tarde, voltei a candidatar-me, já em 2020, a presidente do Sport Lisboa e Benfica, num contexto em que manifestei o meu descontentamento com o rumo que o clube estava a seguir. Nesse percurso no Benfica, destaco como momento particularmente relevante a criação da Benfica TV e a conquista dos direitos de transmissão dos jogos, que considero um passo decisivo para afirmar o clube no futebol moderno.
Em síntese, o meu percurso foi sempre feito de decisões claras e assumidas, com frontalidade e convicção. Em cada momento, procurei agir de acordo com aquilo em que acreditava, sem hesitações. Se segui este caminho, foi porque sempre tive a certeza de que estava a escolher o que considerava ser o melhor — tanto para mim como para as causas que defendia.


Ao longo da sua carreira política, esteve profundamente ligado ao PSD e participou em diferentes momentos de definição estratégica do partido, quer em funções governativas, quer na esfera partidária. Olhando hoje para o sistema partidário português, que avaliação faz da evolução dos partidos tradicionais desde a década de 1990 até ao presente?
De facto, estive profundamente envolvido nesse percurso político, e há alguns momentos que considero absolutamente determinantes. O primeiro remete para a participação, ainda como militante de base, na campanha de Francisco Sá Carneiro. A vitória de 2 de dezembro de 1979, com a maioria absoluta da Aliança Democrática, foi um momento verdadeiramente histórico e fundador para a minha geração política.
Depois, há um outro momento igualmente marcante: o movimento da “Nova Esperança”, que reuniu um conjunto de figuras como Marcelo Rebelo de Sousa, Pedro Santana Lopes, José Miguel Júdice, Conceição Monteiro, Fernando Frutuoso de Melo, e eu próprio. Esse momento representou o lançamento de uma nova geração dentro do Partido Social Democrata, com ambição de renovação e afirmação política.
A terceira fase decisiva foi a ascensão de Aníbal Cavaco Silva ao poder. Participei ativamente em vários Conselhos Nacionais do partido nesse período, e é aí que se consolidam algumas das ideias mais estruturantes da minha leitura política.
Recordo, em particular, dois momentos discursivos que me marcaram profundamente. Por um lado, um discurso, em 1991 de Barbosa de Melo, que advertia: “lembre-se, Aníbal, que todas as grandes vitórias acabam em grandes derrotas”. Era um aviso claro: mesmo após uma segunda maioria absoluta, como a que então se vivia, o partido poderia caminhar para a derrota — como viria a acontecer em 1995, com a vitória de António Guterres. Por outro lado, um discurso do próprio Cavaco Silva, também nesse Conselho Nacional realizado no Porto, em que afirmou que, depois de mudar o país, o desafio seguinte seria o partido conseguir mudar-se a si próprio para acompanhar essa transformação. Caso contrário, arriscar-se-ia a ficar afastado do poder durante muitos anos. Esses momentos foram também decisivos para a minha formação política. Foi aí que compreendi algo essencial: muitas vezes, os momentos de maior lucidez surgem precisamente nas grandes vitórias — quando existe o risco de complacência — e nas grandes derrotas — quando existe a oportunidade de aprender. Se as vitórias não forem interpretadas como um apelo à mudança, acabam por conduzir à estagnação; e se as derrotas não forem entendidas como lições, tendem a perpetuar-se. Destas experiências retirei duas ideias fundamentais: ganhar não garante a continuidade do sucesso, se não houver capacidade de adaptação às expectativas dos cidadãos; e perder não significa um destino inevitável, sendo sempre possível recuperar e voltar a vencer.
Foi também este percurso que me levou a refletir sobre a evolução do sistema partidário português. Logo após a Revolução de 25 de Abril de 1974, havia a convicção, sobretudo no meio académico, de que o sistema partidário em Portugal acabaria por evoluir, porque existiria “um partido a mais”. Durante muito tempo, acreditou-se que o Partido Social Democrata seria esse partido excedentário, por razões ideológicas e históricas. No entanto, essa previsão não se concretizou, por várias razões. Desde logo, pela liderança de Francisco Sá Carneiro, que contrariou esse determinismo, conseguindo vencer eleições num contexto adverso. Mais tarde, Aníbal Cavaco Silva voltou a desafiar essa ideia, reinventando o PSD num momento de fragilidade e conduzindo-o a um ciclo de governação forte e transformador.
Ao longo dos anos, o PSD foi também um espaço de formação de várias lideranças marcantes — desde Marcelo Rebelo de Sousa, depois Presidente da República, a primeiros-ministros como Durão Barroso e Pedro Santana Lopes — demonstrando uma capacidade de regeneração que contrariava a ideia de um sistema fechado. Ainda assim, quando comparávamos Portugal com outras democracias europeias, havia sempre a perceção de que o nosso sistema partidário era uma exceção. Enquanto países como Espanha, França, Itália ou Alemanha assistiam a recomposições profundas, com o surgimento e desaparecimento de partidos, Portugal mantinha uma estabilidade quase inalterada. O que estamos a assistir hoje é precisamente ao fim dessa exceção. O aparecimento do Chega representa uma reformulação profunda do sistema partidário português. Em poucos anos, o partido passou de uma presença residual para uma força com representação significativa, alterando o equilíbrio tradicional.
Deixámos de ter um sistema dominado por dois partidos hegemónicos para passar a um modelo com três polos relevantes. E mais: um partido histórico como o Partido Socialista deixou de ocupar automaticamente um dos dois primeiros lugares, sendo ultrapassado em determinados momentos.
Na minha leitura, isto resulta também de uma transformação interna no PSD.
O partido que, em tempos, representava uma base social dinâmica — pequenos empresários, trabalhadores independentes, os chamados self-made men — foi-se afastando dessa matriz. Progressivamente, aproximou-se de um perfil mais semelhante ao do Partido Socialista, perdendo parte da sua capacidade de renovação e de afirmação reformista. Hoje, ainda existe no PSD uma elite qualificada e relevante, mas parece-me evidente que o partido esgotou, em parte, a sua capacidade de se reinventar.
Muitas das críticas internas que surgem atualmente não são apenas disputas conjunturais, mas refletem algo mais profundo: uma insatisfação com a falta de ambição reformista, com a ausência de uma revisão clara da matriz ideológica, social e económica do partido e, em certa medida, do próprio país. Entre 2004 e 2005 assumi funções como Ministro dos Assuntos Parlamentares, e depois, como Ministro Adjunto do Primeiro Ministro, no governo liderado por Pedro Santana Lopes.
O exercício de funções governativas, sobretudo em áreas com forte componente institucional como os Assuntos Parlamentares, e depois no centro do Governo, exige uma compreensão muito especial, da relação entre Governo, Parlamento e Presidência da República.
Durante o período em que foi Ministro dos Assuntos Parlamentares, que desafios institucionais mais marcantes encontrou na articulação entre estes órgãos de soberania? E que leitura faz hoje sobre a qualidade do diálogo institucional em Portugal?
Há uma ideia fundamental que retirei dessa experiência política e que me acompanha até hoje: não vale a pena exercer cargos sem uma legitimidade própria. A legitimidade é essencial no exercício do poder e decorre, antes de mais, da forma como se chega a ele. Naquele momento, aquilo que percebi foi que estávamos perante um Governo com uma legitimidade fragilizada. Pedro Santana Lopes tinha, de facto, conquistado um capital político importante — nomeadamente com a vitória na Câmara Municipal de Lisboa, em 2001 — e foi isso que, em parte, abriu caminho à sua ascensão. No entanto, a verdadeira legitimidade governativa, no plano parlamentar, estava associada a Durão Barroso, que liderava o Governo na sequência desse ciclo político. Quando Durão Barroso sai para a Comissão Europeia, abre-se um vazio político que, na minha leitura, não foi resolvido da forma mais adequada. Considero, aliás, que houve aquilo que classifico como um “golpe de Estado constitucional”, dirigido desde Belém, no sentido em que não se recorreu à solução mais legítima: a realização de eleições. Hoje, não tenho dúvidas de que o interesse do país teria sido precisamente esse — devolver a palavra aos eleitores. Em vez disso, assistiu-se a uma estratégia política mais ampla, que visava prolongar aquele ciclo político até permitir ao Partido Socialista reorganizar-se e afirmar uma nova liderança, que viria a surgir com José Sócrates. Nesse contexto, o papel da Presidência da República, liderada por Jorge Sampaio, foi decisivo. Mas, na minha perspetiva, não foi o único. Houve também outros atores políticos com interesse direto na dissolução da Assembleia da República e na convocação de eleições, nomeadamente Aníbal Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa. A lógica, do ponto de vista estratégico, era relativamente clara: a manutenção de um Governo do PSD poderia comprometer equilíbrios futuros, nomeadamente no plano das eleições presidenciais. Havia, como é habitual na política portuguesa, uma preocupação de não concentrar demasiado poder no mesmo espaço político — o que poderia dificultar a eleição de Cavaco Silva para Presidente da República em 2006 e, subsequentemente, influenciar também o posicionamento de Marcelo Rebelo de Sousa no futuro.
Tudo isto contribuiu para um desfecho que culminou na dissolução da Assembleia da República, com o apoio ativo do Partido Socialista e sob a iniciativa da Presidência da República. Dito isto, quando me perguntam quais foram os desafios institucionais mais marcantes desse período, diria que houve muitos, mas destaco sobretudo dois planos distintos.
Por um lado, a experiência de estar no centro da coordenação governativa, acompanhando de perto o Primeiro-Ministro em praticamente todos os dossiers relevantes. Isso permitiu-me ter uma visão global da ação governativa — não apenas na sua execução, mas também na definição de um projeto para o país. Para quem está na política com sentido de missão, esse é um momento particularmente marcante: a possibilidade de transformar ideias em ação concreta, de trabalhar com um objetivo e um “sonho” para o país. Por outro lado, recordo um episódio muito específico que ilustra bem a complexidade das relações institucionais. Refiro-me à discussão em torno da possibilidade de referendar um tratado europeu, no quadro da União Europeia.
Na altura, o PSD admitia a realização desse referendo. No entanto, a Presidência da República manifestava reservas, receando que o voto popular pudesse refletir circunstâncias conjunturais — um voto de protesto — e não uma decisão estratégica sobre a integração europeia, como havia acontecido noutros países. Fui diretamente envolvido nesse processo, conduzindo negociações com Belém, com a Casa Civil do Presidente, no sentido de encontrar uma solução que evitasse a realização do referendo sem comprometer a posição política do Governo. Tratava-se, no fundo, de garantir que Portugal não correria o risco de rejeitar um tratado europeu por razões circunstanciais. Recordo-me, aliás, de um episódio particularmente revelador: depois de várias reuniões em Belém, participei numa conferência de líderes na Assembleia da República, onde fui acusado, por partidos à esquerda, de que o Governo não queria o referendo. A realidade era mais complexa, mas havia limites institucionais ao que podia ser dito publicamente.
Lembro-me de, ao sair dessa reunião, a minha assessora de imprensa alertar-me para essa perceção pública. E, de facto, esse é um dos momentos em que se percebe a exigência da responsabilidade política: há situações em que não é possível expor toda a verdade, porque isso colocaria em causa o equilíbrio institucional.
Nesse caso concreto, acabei por assumir o ónus político de uma decisão que, na realidade, não correspondia integralmente à posição do Governo. Mas fi-lo porque entendi que o mais importante era salvaguardar o interesse estratégico do país e evitar riscos que poderiam ter consequências duradouras.
Enquanto advogado e observador atento do sistema judicial, tem acompanhado de perto os debates sobre o funcionamento da justiça em Portugal, um tema que há décadas suscita críticas recorrentes, quer pela morosidade processual, quer pela complexidade legislativa. Na sua opinião, quais são os bloqueios estruturais mais profundos do sistema judicial português?
A minha recente eleição e início de exercício de funções como membro do Conselho Superior da Magistratura, não me permite ser tão livre quanto sempre gosto de o ser, e demonstrar. Mas, eu diria, que o principal problema da justiça portuguesa é, sem dúvida, o tempo. O excesso de tempo. Esse é o grande bloqueio estrutural do sistema. Vivemos numa realidade em que tudo é exigido aos advogados — cumprimento rigoroso de prazos, preparação de processos, resposta atempada — enquanto, do lado do Estado, essa exigência não é equivalente. Refiro-me ao Ministério Público, aos tribunais e às instâncias de recurso, onde os prazos são frequentemente dilatados sem consequências práticas. Compreendo que, muitas vezes, se invoque a falta de meios. Mas os advogados também enfrentam essa realidade — e, ainda assim, têm de encontrar soluções, sob pena de perderem as causas. O Ministério Público, apesar da sua dignidade constitucional, não pode funcionar com prerrogativas completamente distintas das restantes partes no processo. No fundo, também representa interesses — é, de certa forma, o advogado do Estado — e deve estar sujeito a exigências semelhantes. Não é aceitável que um advogado tenha um prazo de 20 dias e o Ministério Público possa prolongar a sua intervenção por anos. Não é razoável que um prazo de um mês, para uma parte, corresponda a um ano ou mais para outra. E isto não são casos isolados: há processos que se arrastam nas instâncias de recurso durante anos. Podemos discutir se são 10, 7 ou 5 anos — mas mesmo os cenários mais “moderados” são, por si só, inaceitáveis. Mais grave ainda é quando um processo sobe a uma instância superior, como o Supremo, e, após um longo período — um ano e meio, por exemplo — é devolvido à primeira instância por questões processuais ou de competência. Este tipo de situações mina a confiança dos cidadãos na justiça.
Para além do tempo, há outro problema relevante: a extensão e complexidade da produção de prova. As sucessivas reformas do processo penal foram feitas, em grande medida, numa lógica garantística, reforçando os direitos de defesa — o que, em si mesmo, é legítimo e importante. Mas a questão que se coloca é: esse reforço de garantias tem contribuído para uma justiça mais eficaz?
Tenho dúvidas. Preferiria um sistema mais ágil, em que a celeridade fosse um valor central, sem prejuízo das garantias essenciais. Porque, no limite, justiça demasiado tardia deixa de ser justiça.
Casos mediáticos, como o de José Sócrates, vieram expor de forma particularmente evidente estas fragilidades. Mais do que discutir o caso em si ou as pessoas envolvidas, o que importa é retirar lições para o futuro. O sistema, tal como está, permite estratégias processuais que podem conduzir, de forma quase inevitável, à prescrição.
Na prática, quem tiver como objetivo alcançar a prescrição encontrará, com relativa facilidade, meios para o fazer — seja através de expedientes processuais, seja através da gestão dos tempos e da própria dinâmica da defesa. Isto revela uma fragilidade estrutural que precisa de ser corrigida.
Por isso, a reflexão não deve centrar-se apenas no passado, mas sobretudo no futuro: que mecanismos devem ser criados para evitar que estas situações se repitam?
Há ainda um outro ponto que considero essencial: a organização interna dos tribunais. Atualmente, existem múltiplos centros de decisão, com poderes que, muitas vezes, se sobrepõem ou se equilibram de forma pouco eficiente. Isto dificulta a gestão processual e contribui para a morosidade. Neste contexto, parece-me inevitável pensar numa reforma mais profunda. Não me refiro a alterações pontuais, feitas diploma a diploma, ou a pequenas revisões de artigos. Refiro-me a uma reforma estrutural, de base, que repense o sistema como um todo.
Tradicionalmente, tenho sido crítico da ideia de pactos de regime. No entanto, neste caso específico, admito que poderia fazer sentido um entendimento alargado — um compromisso político que permitisse uma verdadeira reorganização da justiça portuguesa.
O objetivo seria claro: rever e reestruturar os códigos fundamentais, simplificar procedimentos, clarificar competências e, acima de tudo, criar um sistema mais eficiente, mais previsível e mais célere. Porque, no final, é disso que se trata: garantir que a justiça funciona em tempo útil e que responde, de forma eficaz, às expectativas dos cidadãos.
A corrupção continua a surgir como uma das principais preocupações dos cidadãos portugueses, apesar de o país apresentar níveis relativamente moderados em comparação internacional. Na sua perspetiva, que reformas institucionais ou culturais seriam verdadeiramente transformadoras no combate à corrupção em Portugal?
O combate à corrupção resolve-se, antes de mais, através da educação. Esse é o ponto de partida essencial. Falo de educação no sentido mais amplo: educação para a cidadania, para os valores, para a responsabilidade individual e coletiva.
É fundamental criar uma cultura cívica sólida, próxima, por exemplo, do modelo dos países nórdicos, onde a formação não se limita ao conhecimento técnico, mas inclui também uma forte componente de caráter, de ética e de consciência cívica. Essa base é determinante para prevenir comportamentos desviantes.
Mas a educação, por si só, não é suficiente. Há um outro fator estrutural que importa corrigir: a forma como o próprio sistema cria condições propícias à corrupção. Muitas vezes, a corrupção nasce da existência de obstáculos excessivos — de processos complexos, regras pouco claras, critérios difíceis de cumprir — que acabam por gerar um ambiente onde se “vendem facilidades”.
Ou seja, quando o sistema cria muitas dificuldades, abre espaço para que surjam soluções informais. E é precisamente nesse contexto que a corrupção se instala. Simplificar procedimentos, tornar os processos mais transparentes e reduzir a margem de arbitrariedade são passos essenciais para combater esse fenómeno. Por outro lado, é igualmente importante que o sistema sancionatório seja eficaz. As penas têm de ter um efeito dissuasor real. Enquanto os indivíduos sentirem que o risco compensa — isto é, que os benefícios potenciais superam as consequências —, a corrupção continuará a existir. A penalização tem de ser suficientemente clara e exigente para criar um verdadeiro efeito de prevenção. As pessoas devem ter consciência de que a prática de atos ilícitos acarreta consequências sérias, concretas e inevitáveis. Em suma, o combate à corrupção exige uma abordagem integrada: educação para os valores, simplificação e transparência dos processos e um sistema penal eficaz, capaz de dissuadir comportamentos desviantes.
O que o motivou a nível pessoal e profissional a aceitar o cargo de Presidente da Câmara do Comércio Luso-Árabe?
Entre 1997 e 2004, até integrar o Governo, tive uma ligação próxima ao mundo das relações económicas com os países árabes. Fui convidado pelo Engenheiro Ângelo Correia, então presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Árabe, entidade à qual, curiosamente, viria mais tarde a suceder, entre 2002 e 2004, enquanto presidente da Delegação Parlamentar Portuguesa à Assembleia Parlamentar da NATO.
Paralelamente, exerci funções como advogado da Câmara de Comércio e Indústria Árabe-Portuguesa, trabalhando com figuras como o Engenheiro Karim Bouabdellah, fundador da instituição, e com o próprio Ângelo Correia. Esse período permitiu-me acompanhar de perto uma fase de grande dinamismo e crescimento da Câmara, sobretudo ao longo da década de 1990, até à minha entrada no Governo. Em setembro de 2023, fui novamente desafiado a regressar a esta área, desta vez por Luís Filipe Menezes, que me convidou para assumir funções como primeiro vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Árabe. Aceitei o desafio com a expectativa de reencontrar uma instituição semelhante àquela que tinha conhecido até 2004. No entanto, a realidade revelou-se bastante diferente. Passados quase 20 anos, a Câmara tinha sofrido alterações profundas. Aquela que, em tempos, era praticamente a única entidade com uma rede consistente de relações económicas — para além das relações institucionais de Estado — com os países árabes, tinha perdido parte da sua capacidade de influência. Essa transformação resultou de vários fatores: desde a saída de Ângelo Correia até ao natural envelhecimento de figuras-chave como Karim Bouabdellah, o que levou a uma quebra de continuidade nas relações e nos fluxos económicos e comerciais com vários países árabes.
A este contexto somou-se ainda o impacto da pandemia de Covid-19, que travou significativamente o desenvolvimento de novas oportunidades de negócio e o dinamismo das relações internacionais. Quando regressei, em 2023, o objetivo foi claro: reorganizar e revitalizar a instituição. Promovemos encontros em Portugal com representantes relevantes, incluindo a União Geral das Câmaras Árabes e a Liga Árabe, procurando reativar redes de contacto e estimular novas relações económicas. No início de 2025, houve uma mudança na estrutura interna, com a saída da Secretária-Geral num processo algo conturbado e a entrada de uma nova liderança. Mais tarde, em setembro de 2025, verificou-se também a saída de Luís Filipe Menezes. Enquanto primeiro vice-presidente, assumi interinamente a condução da instituição e, posteriormente, de forma definitiva, a presidência da CCIAP, na sequência da sua eleição para a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.
Já nesse novo contexto, iniciámos uma estratégia mais proativa de internacionalização. Pouco tempo depois de assumir funções, organizámos uma primeira missão aos Emirados Árabes Unidos. Para 2026, tínhamos planeado um conjunto ambicioso de sete missões a países como Egito, Marrocos, Iraque, Kuwait, Qatar, Arábia Saudita e novamente aos Emirados. No entanto, o contexto internacional alterou-se de forma inesperada. O agravamento das tensões no Médio Oriente — envolvendo conflitos que cruzam interesses de países como Irão, Israel e os Estados Unidos — teve impacto direto na estabilidade da região e, consequentemente, na execução dessa estratégia.
Perante esse cenário, tivemos de nos adaptar rapidamente e reinventar a forma de promover as relações económicas. Ainda que com limitações, continuamos a trabalhar na criação de pontes entre empresas portuguesas interessadas em exportar ou estabelecer parcerias e empresas dos países árabes que procuram oportunidades em Portugal. Ou seja, apesar das dificuldades e das mudanças no contexto internacional, mantemos o mesmo objetivo de sempre: fomentar o contacto, a cooperação e o desenvolvimento de relações económicas sustentadas entre Portugal e o mundo árabe.
A relação entre política e comunicação transformou-se profundamente nas últimas duas décadas, com o surgimento das redes sociais, a aceleração dos ciclos mediáticos e a crescente personalização da política. Do seu ponto de vista, esta nova realidade contribuiu para enriquecer o debate democrático ou, pelo contrário, para o tornar mais superficial e emotivo?
Eu diria que esta transformação da relação entre política e comunicação tem um efeito duplo: tanto contribui para enriquecer o debate democrático, como, em certos momentos, o pode desvirtuar. Torna-o mais aberto e acessível, mas também, por vezes, menos rigoroso e menos exigente.
Se recuarmos um pouco no tempo, à própria Grécia Antiga, percebemos que a participação política se fazia essencialmente através da intervenção direta nos espaços de debate — nos fóruns — onde os cidadãos eram avaliados pela sua capacidade de argumentação e pela qualidade do seu discurso.
Durante muitos séculos, a política manteve essa matriz. Também em Portugal, em momentos específicos, ou determinantes da nossa História, mas depois, quer no final da monarquia, quer durante a Primeira República, existia uma forte tradição de oratória parlamentar. Havia figuras que se afirmavam pela sua capacidade de intervenção, pelo domínio da palavra e pela construção do pensamento em espaço público. Mais tarde, com a evolução dos meios de comunicação, assistimos a uma mudança significativa: a política passou a fazer-se cada vez mais através da mediação dos jornais e da televisão. A presença mediática tornou-se central. De certo modo, quem não tinha espaço na comunicação social deixava de existir politicamente. Durante muito tempo, esse foi o modelo dominante: a relevância política construía-se, em grande medida, a partir da visibilidade mediática. Casos como os de José Sócrates ou Marcelo Rebelo de Sousa ilustram bem essa transição, em que a exposição pública através dos meios de comunicação desempenhou um papel determinante na afirmação política. Hoje, estamos a viver uma nova transformação. O espaço que antes era ocupado pelos jornais e pela televisão está, em grande medida, a ser substituído pelas redes sociais. A lógica mantém-se — a necessidade de visibilidade e de presença pública —, mas o meio mudou. A questão que se coloca é saber se esta mudança é estruturalmente diferente das anteriores. E, sinceramente, não estou certo de que seja. Ao longo da história, a política sempre se adaptou aos meios disponíveis para comunicar com os cidadãos. O que talvez tenha mudado de forma mais relevante é o grau de controlo e de filtragem da informação. No passado, existiam mecanismos editoriais mais claros. Um diretor de jornal, por exemplo, exercia um papel de mediação, de seleção e, muitas vezes, de responsabilidade sobre o que era publicado. Hoje, esse filtro é muito mais ténue. As redes sociais permitem uma circulação quase imediata da informação, sem os mesmos níveis de verificação ou de responsabilidade editorial. E isso abre espaço a um fenómeno novo — ou, pelo menos, mais intensificado: a facilidade com que a informação pode ser distorcida ou manipulada. Se, no passado, a publicação de determinados conteúdos implicava um processo de validação e uma responsabilidade institucional, hoje as únicas limitações são, muitas vezes, as regras das próprias plataformas — o que é, claramente, um modelo diferente e com desafios próprios. Em suma, esta evolução trouxe mais democratização do acesso à palavra e ao espaço público, mas também introduziu novos riscos, nomeadamente ao nível da qualidade do debate e da fiabilidade da informação.
Depois de uma longa trajetória política associada ao espaço do Partido Social Democrata, a sua aproximação recente ao projeto político liderado por André Ventura tem sido vista por muitos observadores como um sinal das transformações que atravessam a direita portuguesa. O que o levou a dar esse passo após tantos anos de ligação a outro espaço político?
Na minha perspetiva, o Partido Social Democrata encontra-se hoje esgotado. E está esgotado por uma razão essencial: deixou de ser um espaço de representação direta das ideias e das expectativas dos portugueses para passar a funcionar, em grande medida, como uma agregação de interesses organizados — aquilo a que chamo “sindicatos de voto”.
Ou seja, o partido transformou-se numa estrutura onde diferentes grupos internos procuram afirmar o seu peso relativo, sendo a liderança frequentemente condicionada pela capacidade de gerir esses equilíbrios. O resultado é um partido menos livre, menos aberto ao debate e mais condicionado por lógicas internas de poder.
Foi precisamente essa perceção que me levou, em 2009, a afastar-me. Na altura, quando Manuela Ferreira Leite assumiu a liderança, entendi que o PSD deixava de ser um espaço de verdadeira liberdade política para passar a ser um espaço de condicionamento interno, dominado por essas estruturas organizadas. Coincidentemente, foi também nesse período que aceitei o desafio de integrar a direção do Sport Lisboa e Benfica, afastando-me da vida partidária ativa.
Desde então, o partido, na minha leitura, acentuou essa tendência. Tornou-se uma espécie de soma de estruturas locais e de influências internas, que se articulam entre si — ora para ganhar, ora para perder eleições — em função de alinhamentos conjunturais, mais do que de um projeto político claro e mobilizador. No que diz respeito à minha aproximação ao Chega, ela deve também ser entendida à luz desta evolução. Se recuarmos às eleições internas do PSD que opuseram Luís Montenegro a Jorge Moreira da Silva, verificamos que havia posições distintas relativamente ao Chega. Jorge Moreira da Silva defendia claramente linhas vermelhas, enquanto Luís Montenegro deixava espaço para uma eventual aproximação.
No entanto, essa posição alterou-se posteriormente, o que, na minha opinião, não pode ser desligado do contexto europeu. Existe uma pressão significativa, por parte das instituições e dinâmicas políticas europeias, no sentido de limitar o acesso ao poder de partidos posicionados mais à direita, como se pode constatar, recentemente, em países como a Hungria ou a Eslováquia. Essa pressão acaba, inevitavelmente, por influenciar os posicionamentos internos.
Mas há um outro fator que considero determinante: a liderança. A política é, em larga medida, feita de capacidade de mobilização, de comunicação e de identificação com o eleitorado. E, nesse plano, André Ventura tem revelado uma eficácia que outros líderes não conseguiram igualar.
Independentemente de concordâncias ou discordâncias, da opinião publicada, ou do posicionamento de muitos profissionais, ou comentadores da Comunicação social, há um facto político relevante: muitas pessoas identificam-se com o seu discurso e sentem-se mobilizadas por ele. E isso faz a diferença. A capacidade de gerar emoção, de criar ligação com o eleitorado e de afirmar uma narrativa clara é hoje um elemento central da política.
Podemos discordar do estilo, das ideias ou da forma, mas não podemos ignorar esse fenómeno. A política, como qualquer outro espaço, não tolera o vazio — e quando surge uma liderança capaz de o preencher, tende a afirmar-se.
Na minha leitura, estamos perante uma transformação inevitável do sistema político português. Podemos tentar resistir a essa mudança, mas dificilmente a conseguiremos travar. As dinâmicas sociais e políticas acabam sempre por encontrar o seu caminho. Quanto à minha decisão pessoal, ela não resulta de interesses ou de uma mudança súbita de convicções. As minhas convicções são, no essencial, as mesmas: a vontade de contribuir para a mudança do país. Quando era mais novo, acreditava que a minha geração poderia mudar o mundo. Hoje, vejo esta fase como uma última oportunidade de contribuir, de forma ativa, para essa transformação. Não gostaria, no futuro, de olhar para trás — ou de ouvir as gerações seguintes — e sentir que não fiz tudo o que estava ao meu alcance. Vejo este momento como uma segunda oportunidade para a minha geração intervir e deixar uma marca. E, olhando para o panorama atual, entendo que essa possibilidade de mudança está, em grande medida, associada à liderança de André Ventura. Considero que, neste momento, não existe em Portugal outro líder com a mesma combinação de capacidade de intervenção, disponibilidade, carisma e vontade política. Isso não significa que não venham a surgir outros — a política está sempre em movimento — mas, no presente, é essa a realidade que identifico.


Depois de tantos anos de intervenção pública, é inevitável que exista também uma dimensão pessoal na forma como se olha para o percurso feito, com conquistas, divergências e momentos de reflexão. Se tivesse de identificar um momento particularmente definidor da sua vida pública, qual seria e porquê?Se tiver de identificar um momento verdadeiramente definidor da minha vida pública, diria que foi a minha adesão ao Partido Social Democrata, em março de 1977. Foi aí que, de forma consciente, defini o meu caminho e o meu modelo de intervenção política. A partir desse momento, tudo se estruturou em função dessa escolha. E, se tiver de apontar uma figura inspiradora, essa referência é, sem dúvida, Francisco Sá Carneiro. Foi por causa dele que entrei no partido, foi sob a sua influência que tive o meu primeiro combate político ainda em 1977, e foi também essa inspiração que me levou a participar, mais tarde, em momentos importantes, como os debates em torno da revisão constitucional, entre outros.
Essa ligação a Francisco Sá Carneiro não foi apenas circunstancial — foi estruturante. Marcou profundamente a minha forma de estar na política e condicionou, ao longo de décadas, os meus alinhamentos e as minhas opções partidárias, também pela proximidade com Conceição Monteiro, a única pessoa que me fez adiar durante mais de um ano a minha saída do PSD. Depois, ainda, todo um percurso político, alicerçado igualmente numa enorme amizade, ao lado de Pedro Santana Lopes, que os interesses trataram de impedir que ganhasse umas eleições legislativas e, com isso, pudesse governar Portugal durante anos e deixar, de forma visível a sua marca pessoal no país.
Aliás, essas referências continuam presentes até hoje, inclusive nas escolhas mais recentes que fiz. Sei que o que vou dizer pode não ser consensual, sobretudo entre aqueles que conviveram mais de perto com Francisco Sá Carneiro, mas, olhando para os últimos 50 anos da política portuguesa, considero que a figura que mais se aproxima, em certos traços, dessa matriz, é André Ventura.
Refiro-me, sobretudo, a aspetos como a forma de entrada na política, a capacidade de mobilização, o confronto com o sistema instalado e também o tipo de contestação de que foram alvo. Tal como aconteceu com Sá Carneiro no seu tempo, também André Ventura tem sido alvo de críticas intensas, de rotulagens ideológicas e de forte exposição mediática. Naturalmente, os contextos são diferentes, mas há paralelismos que, do meu ponto de vista, são relevantes para compreender o meu percurso e as minhas opções.
Para terminar, gostaria de lhe pedir um olhar mais amplo sobre o país, quase como um exercício de síntese de quem acompanhou várias décadas da vida política portuguesa. Quando pensa no Portugal de hoje, nas suas instituições, na sua sociedade e na sua posição no mundo, sente mais razões para confiança ou para inquietação quanto ao futuro?
Diria que, quando penso no país, o sentimento predominante é de inquietação. Se olharmos para a história de Portugal numa perspetiva longa, percebemos que, nos momentos decisivos, o país foi, na maioria das vezes, capaz de alinhar as suas opções estratégicas com aquilo que eram os seus interesses nacionais.
Mesmo quando errou — seja no contexto de grandes conflitos europeus ou em momentos de menor clareza estratégica — acabou, regra geral, por corrigir o rumo. Ao longo de quase nove séculos de história, essa capacidade de ajustamento foi determinante para a sobrevivência e afirmação do país. Portugal soube, em momentos críticos, identificar o caminho e reposicionar-se. Aquilo que me preocupa hoje é saber se essa capacidade se mantém intacta. Ou seja, se as lideranças atuais — e as que se seguirão — terão a mesma clareza estratégica, a mesma convicção e a mesma dimensão para tomar decisões estruturantes. O risco que identifico é precisamente o contrário: a possibilidade de se optar pela facilidade, de se privilegiar o imediato em detrimento do estrutural, de se perder a noção de longo prazo. O que não devemos nunca esquecer, é que Portugal, mais do que um país europeu, é uma nação que deve a sua existência à sua perspetiva atlântica. Isso nunca o devemos esquecer.
Há uma ideia frequentemente atribuída a Winston Churchill que me parece particularmente relevante: as nações não têm aliados permanentes, têm interesses permanentes. É essa consciência que deve orientar as decisões estratégicas de um país. O que me inquieta é a possibilidade de essa distinção se esbater. Quando interesses permanentes são confundidos com interesses conjunturais, quando decisões estruturais são tomadas com base em circunstâncias passageiras, o risco de erro aumenta significativamente.
Em suma, mais do que uma preocupação com o presente imediato, é uma inquietação com a capacidade de visão estratégica das lideranças.
Porque, no fundo, é essa capacidade que tem permitido a Portugal, ao longo da sua história, manter-se fiel a um caminho — mesmo quando, pontualmente, se desvia dele.


























