O carisma de outras cozinhas

Manjares Lúbricos

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frangote com espumante
[…] enquanto demolha em aguardente velha cerca de um quarto de quilo de ameixas secas sem caroço ― das «verdinhas» que a pequenota rainha Cláudia popularizou na corte gaulesa pelo decorrer do século XVI… ― faça dourar os pedaços de um frangote num tacho com azeite maduro bem aquentado. Uns dez minutos depois, ou um pouco mais, acrescente uma garrafa de espumante bruto à mistura com meia de branco abastardado e deixe a cozer, em fogo lento, pelo menos uma meia hora. Entretanto, noutro tacho prepare um molho de chamariz com as ameixas ensopadas na dita aguardente, o resto dela e mais alguma se necessário, três a cinco dentes de alho picados e duas maçãs ainda ácidas partidas em pequenos quartos e sem sementes ― coloque a cozer durante alguns minutos. De seguida junte-lhe uma colher recheada de manteiga e passe num ralador manual. Tudo aprontado… sirva o frangote acompanhado pelo molho com uma salada de malápios, mais ameixas-passas e as tais maçãs mal-cozinhadas.

a salada de malápios
(…) descasque quatro ou cinco malápios já adocicados e corte-os em cubos pequenos, retirando-lhe o «coração» e as sementes. Corte também um pepino de tamanho médio em rodelas finas ― haverá outras «donas» que preferem um pequeno melão ainda sem assomos de doçuras e misture-o com salsa picada. Faça um molho de xurunfada com o sumo de meio limão, dois requeijões apequenados e um cálice de generoso, tempere com sal grosso, pimenta preta, uma guindilha seca e bem fatiada e um pouco de açúcar; misture até o molho ficar homogéneo e levemente «aguado». Sirva os malápios cobertos com esta xurunfada e as rodelas de pepino em acompanho.

a origem
(…) receitas atribuídas a uma «dita» bruxa das bandas do rio Tedo ― ao que dizem com procedências repartidas por Santo Adrião e Santa Leocádia ― que terá servido numa ilustre casa duriense e que preparava este manjar para uma das cinco filhas dos patrões, a mais velha que desesperadamente continuava encalhada por não encontrar a concordância paternal para tão plebeus amores. Aproveitava as ausências dos criadores, que regularmente se esgueiravam para o Peso, e banqueteava o seu amado com este inusitado manjar por acreditar… nos poderes amorosos da amaneirada maçã, que em tempos primórdios tinha traído a incómoda castidade de Adão… no fálico poder do diurético pepino… no poder submisso de um pobre frangote… nos acalorados poderes dos condimentos ― da salsa à pimenta ― ou na sentimental xurunfada de generoso com requeijão limonado. Escusado será dizer que o leito da jovem foi o destino dos dois amantes […]
costeletas de mamona amendoadas
[…] prepare atempadamente num almofariz cerca de cem gramas de amêndoas peladas em água quente, e faça delas um picado grosseiro. Deixe-as arrefecer o tempo necessário. Numa sertã, larga e pouco funda, aqueça o azeite suficiente para fritar uma costeleta por cada um [e] guarde-as sem que esfriem. No mesmo azeite frite também a moenda das amêndoas, mexendo com cuidado até ficarem com cor parda-dourada. Junte-lhe um copo de vinho branco, e com este molho regue as duas costeletas. Acompanham com cenouras açucaradas ou com cenouras assadas com mel.

as cenouras açucaradas
(…) descasque algumas cenouras pequenas ― três a cinco por pessoa ― e corte-lhe as pontas. Numa caçarola com dois copos de água fria, duas colheres sopeiras de manteiga, sal e uma boa colher de açúcar, introduza as cenouras. Sobre este preparado coloque um pano de cozinha ou um papel grosso para funcionar como tampa. Deixe ferver em fogo lento até toda a água se evaporar. Pretende-se que as cenouras fiquem suavemente cozidas e revestidas por uma capa de sal e açúcar (…). Quanto às cenouras assadas com mel … prepare cerca de meio quilo de cenouras e corte-as às rodelas. Ferva, num fogo lento, as cenouras em água e sal. Entretanto, numa assadeira untada de manteiga, coloque as cenouras cozidas pinceladas com mel ― terá de ser um mel muito doce e transparente ― e queijo de cabra ralado… e leve ao forno previamente aquecido para gratinar, pelo menos durante dez minutos.

a origem
(…) receitas com que um conhecido meu, das terras de Escalhão a fazer vida por Barca d’Alva, brindava as amantes mais audazes nos prazeres lúbricos, e que resultaram da aprendizagem com a talhadeira que a sua «legítima» visitava na tentativa de despertar os desejos do marido. Contaram-me que a mestria foi tal que até a indómita talhadeira sucumbiu aos próprios feitiços e tornou-se a companhia preferida dos prazeres sexuais deste simpático agricultor. Actualmente, (falamos dos anos oitenta do passado século), já nos seus oitenta anos, com os seus sete filhos mais outros tantos das tais libertinas aventuras e um rosário de netos de que poucos conhece, ainda promete amores ingénuos e professa manjares eróticos (…). A propósito destas receitas que lhe enchiam o peito de uma inocente vaidade, sempre acreditou ― porque a sua amiga Sabina, a dita talhadeira, contado por outros, seria bem mais sabedora que a mãe Jasmina nestas coisas da cama e da mesa nas cozinhas eróticas ― que a vitela magra, ainda mamona, era o atributo da beleza das guerreiras amazónicas, a córnea cenoura, tal como noutros tempos a pálida cherovia, predispunha as zonas erógenas femininas à mercê da energia do falo masculino, a magia láctea caprina e as amêndoas traziam boa sorte e afastavam os espíritos maus, enquanto o mel e o açúcar com vinho à fartura ajudavam a enlouquecer a doçura do acto amoroso.

Antes que os calores me apoquentem deixo para outros escritos os legados gastro-eróticos de Dona Maria Coroado, da bruxa de Valpaços, do druida da Misarela ou dos feiticeiros da Casa Amarela … as descobertas das cricas com amêndoas no forno ou do pão de queijo com arruda, das mamas de porca assadas ou dos vinagres rosados com amoras silvestres, do vinho de pétalas de rosa meladas… ou o poder da erva-pessegueira e da salsa de burro (…). E se qualquer outra razão não houvesse, deixar-vos-ia ao jeito baudelairiano ― «… para que não sejais os escravos martirizados do tempo, embriagai-vos sem cessar: de vinho, de poesia, de amor ou de virtude, à vossa escolha…». Por agora está tudo dito… a cozinha é arte, a comida, obrigação, a gastronomia e o vinho, o prazer ― a partilha do prazer; por isso, saúdo-vos «bebendo ao luar» … «ergo entre as flores um copo de vinho/e convido o luar/acabo também por convidar/a minha sombra/mas a lua não sabe beber/e a minha sombra não me consegue acompanhar/companheiros de um instante/a lua/a minha sombra e eu/vamos brindar à primavera/Enquanto canto/a lua vagueia/enquanto danço/a minha sombra desespera/esqueçamos tudo enquanto estivermos a beber/que cada um se afaste/quando o dia chegar/na longínqua Via Láctea/mais cedo ou mais tarde/nos voltaremos a encontrar… » (do poeta chinês, Li Bai, séc. VII).

O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico

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